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“Hoje levamos uma vida mais simples e somos mais felizes”

Danny Bittencourt, Mariel e a pequena Mia moram em Galway, na Irlanda

Foto: Arquivo Pessoal

"Quando eu e Mariel nos conhecemos, cada uma de nós tinha um sonho em andamento. Eu estava já há 4 anos na fila de adoção e Mariel tinha aplicado para uma bolsa de doutorado na National University of Ireland, em Galway, Irlanda.


Logo que entendemos a importância que uma teria na vida da outra, começamos a adaptar esses sonhos. Mariel foi deixando crescer a vontade de ser mãe, mas eu me sentia enraizada demais, tinha uma escola de fotografia artística no Brasil, tinha casa, carro, enfim.


Decidimos nessa época que então ficaríamos no Brasil e Mariel faria o mestrado. Acontece que ela passou no doutorado, conseguiu a vaga que 20 mil pessoas também haviam se inscrito. Então decidimos que ela iria, faria o primeiro ano lá e depois voltaria para o Brasil.


Na minha primeira visita para ela, já na Irlanda, o sonho de morar fora reacendeu forte no peito e decidimos que nosso caminho era por ali. Voltei para o Brasil, passei um ano me reorganizando, fechei as turmas da escola e redirecionei minha carreira para ser remota.


Mariel passou esse ano comigo no Brasil. Depois desse tempo, nossa filha ainda não havia chegado, então decidimos ir para a Itália para começar o processo de cidadania, e foi aí que a aventura teve início oficialmente.


Primeiro moramos em Bérgamo, na Itália, em função da cidadania, depois fomos para Galway, onde Mariel faz o doutorado. Nossa história é cheia de aventuras, estou com um livro pronto sobre ela, inclusive.

Foto: Arquivo Pessoal

Quando a Mia chegou, nós estávamos em Bérgamo havia 1 mês, para fazer a cidadania. Tivemos que voltar correndo para o Brasil para fazer o processo de adoção e depois correndo para a Itália para não perder o processo de cidadania, e depois correndo para a Irlanda para a Mariel não perder o doutorado. Já imaginou? Ficamos no Brasil para resolver tudo por 4 meses. Esse era o cenário, precisávamos finalizar o processo de adoção com a Mia e preparar tudo para mudar em definitivo.


Como não sabíamos com quantos anos nossa filha iria vir, não tínhamos nada preparado. Quando ela chegou fomos usando o que as pessoas nos emprestavam porque tudo era provisório, mas chegamos a fazer um quartinho, para que ela se sentisse segura e acolhida. Mas isso foi bom, porque a Mia criou uma habilidade de adaptação sensacional.


Com a mudança de país, mudamos nossos hábitos de consumo também. Só tínhamos 5 malas para colocar tudo que tínhamos e assim foi, desmontei a casa e deixei só o que realmente importava. Não levamos brinquedos, nem livros, fizemos uma triagem das roupas e dos sapatos.


Confesso que nosso maior medo eram as 20 horas no avião. Fizemos toda uma preparação com vários brinquedos e comidas, e chegando lá, a Mia dormiu e pronto. Lição aprendida, hoje ela ama avião.


Fora essas questões mais práticas, nosso medo era a documentação da Mia, que ainda era uma adoção provisória, cheia de autorizações de viagem. Essa parte foi a mais angustiante.


Quando chegamos na Itália, não sabíamos onde iríamos morar, em qual cidade, como seria o lugar, então isso também fez com que a gente fosse mais capaz de se adaptar e fazer acontecer com o que tínhamos. Ficamos 2 meses em um apartamento na beira da estrada de Lovere, longe de tudo, e tivemos que nos virar para trabalhar e viver nesse contexto. A controladora aqui aprendeu muito a baixar um pouco a guarda e viver na realidade que se apresentava.


Para a Mia, uma vez que ela construiu na gente seu porto seguro, nunca tivemos problemas. Nós nos mudamos muitas vezes, e passamos por lugares com três línguas diferentes, mas a Mia sempre se sentiu segura pois nós estávamos lá, e para ela nós representamos o conceito de casa.

Agora, estamos planejando viver por temporada, isso significa ficar em torno de 2 anos em cada lugar, para conhecer bem a cidade, a cultura, os costumes. O nosso primeiro critério de escolha é o que a cidade pode nos oferecer em educação: residência artística para mim, pós-doutorado para a Mariel ou educação inicial para a Mia. Depois desse critério temos alguns que são importantes para nós: não pode ser uma cidade muito grande, porque eu não gosto de muvuca, nem pode ser uma cidade muito pequena porque a Mariel fica entediada. Tem que ter boas opções culturais e ficar perto da água. Agora estamos numa cidade que atende tudo isso, o único problema daqui é que é muito frio, então nossa próxima cidade vai ser um pouco mais quentinha, para equilibrarmos.


Quanto às burocracias que precisamos resolver para a mudança… Elas sempre são complexas, né? No Brasil deixamos uma procuração com nossas mães para que elas pudessem resolver algo pendente caso necessário. As piores burocracias foram os nossos dois processos que estavam correndo, de adoção e de cidadania. Para que a gente pudesse morar onde quiséssemos, com tranquilidade, a cidadania era fundamental e foi uma luta! Chegamos na Itália em julho e logo no segundo dia descobrimos que nosso processo estava parado e só dariam andamento em outubro, pois o órgão responsável estava de férias. Precisávamos estar em setembro na Irlanda para o começo do semestre.


Tudo que a gente conseguia planejar, fazíamos, mas no fim, tudo saiu de outro jeito. A cidadania demorou mais tempo do que a gente previa, meu visto irlandês venceu e tive que ir com a Mia correndo para Itália, onde ficamos por quase 2 meses para que o processo fosse finalizado e a gente pudesse voltar.

Foto: Arquivo Pessoal

Minha dica para quem está começando o processo de cidadania agora é: se planeje por uns 6 meses para fazer com calma e para dar tempo de ter imprevistos. Nós vivemos esse ano todo em muita tensão. O positivo disso tudo foi que nós conseguimos nos adaptar muito fácil com a mudança de país e, conforme as coisas burocráticas foram se resolvendo, a gente começou a curtir cada vez mais todo o processo. E de toda essa luta, ficamos com um amor enorme pela Itália, a Mia frequentou creche italiana, ela fala algumas palavras, nós começamos a estudar italiano e certamente em algum momento voltaremos para lá, dessa vez de forma planejada e tranquila.


Apesar desses imprevistos, deu tudo certo. Como tínhamos esses medos pontuais com a adoção e a cidadania, acho que isso consumiu todos os nossas preocupações iniciais e por isso nossa adaptação aqui na Irlanda foi muito positiva.


Antes de nos mudarmos, eu tinha o receio de não dar conta financeiramente desse processo, mas como eu organizei o redirecionamento da minha carreira para ser remota, um ano antes de viajarmos eu consegui criar uma dinâmica de trabalho que funcionava, mesmo que no começo com predominância em real.

Foto: Arquivo Pessoal

Mas quando chegamos na Irlanda, as coisas eram mais caras do que planejamos, a escolinha era paga porque a Mia tinha 2 anos, então várias coisas que não havíamos colocado na ponta do lápis aconteceram e isso nos apertou um pouco. Foram muitos imprevistos, e mesmo tendo preparado um valor de segurança, ele foi embora muito rápido na nossa transição entre Itália e Irlanda, que foi o pior período, pois pagávamos 2 aluguéis e 2 escolinhas em euro. Não esperávamos ter esse problema, porque havíamos nos organizado. Usamos o valor do carro, que tínhamos separado para comprar aqui, e pedimos um empréstimo, foi assim que resolvemos. Agora, 6 meses depois dessa transição, já conseguimos nos recuperar e finalmente nos estabilizamos.


Quando saímos do Brasil tínhamos a expectativa de viver em um lugar com segurança, com diversidade cultural, poder vivenciar diferentes formas de ver e viver o mundo, ampliar nossa relação com os lugares e ter maiores oportunidades de carreira. Toda vez que vemos a Mia andando sozinha no centro e parando para dançar com os músicos de rua, gargalhando de felicidade, temos certeza de que estamos no caminho que escolhemos. Toda vez que a Mia volta da escolinha, nos pede algo em inglês e agradece em italiano, ficamos realizadas com a possibilidade de ela já ser bilíngue. Toda vez que vamos à praia, de pedra, diferente do Brasil, e vemos velhinhas que se encontram para tomar banho no mar congelante da Irlanda, porque para elas é uma tradição importante, enchemos nosso coração de felicidade de poder vivenciar isso. A cidade que moramos parece um conto de fadas, mas o que mais nos encanta é o privilégio de poder viver todas essas realidades. Somos muito realizadas com nossas escolhas.


Hoje levamos uma vida mais simples, não temos compromissos nem obrigações sociais, não temos pressa, a vida acontece no nosso tempo e sem dúvidas somos mais felizes. Conseguimos parar para pensar o que é melhor para nós enquanto família e nos movimentarmos em direção a isso. A vida saiu do automático.

Também por isso, não temos nenhuma intenção de voltar para o Brasil. Vamos visitar nossos familiares e viajar, gostaria de mostrar o Pantanal e a Amazônia para a Mia, mas não temos vontade de voltar para o Brasil para morar. Nos sentimos mais pertencentes do mundo e essa é nossa casa agora.


Para quem tem vontade de mudar para a Irlanda, meu conselho é: façam um planejamento de mais ou menos 1 ano e juntem o máximo de dinheiro que conseguirem, porque a vida em euro é muito cara. Resolvam o visto com calma e se puderem fazer cidadania, façam, é um alívio enorme! Não dependam de sub-emprego, é difícil de conseguir, venham com a carreira mais estabilizada e de preferência remota. Isso nos deu muita liberdade financeira. Transformem o sonho em meta e vão atrás. Vale muito a pena, é uma experiência que nos transforma para sempre e nos proporciona uma vivência mais livre e plena."



Danny Bittencourt é poeta visual, escritora e educadora. Mora em Galway, Irlanda. Vende quadros e exposições em galerias físicas e online. Escreve livros de fotografia e já lançou 3 títulos, está finalizando o quarto. Também está concluindo o livro da história da própria família, em prosa poética. Danny também ministra cursos online, palestras e um programa de mentoria. Mariel faz doutorado em bioinformática e trabalha como cientista de dados.