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"Hoje é um pai distante. Amém!"

Atualizado: Ago 24




Por Luciane Evans


Quando seu filho Áyron Busson nasceu, há 6 anos, a professora de história Shayana Busson conta que não viu a vida do seu companheiro mudar. "Pelo contrário, ele arranjou 5 viagens de trabalho naquele ano, que eram totalmente dispensáveis, certamente para se ver livre da rotina exaustiva e repetitiva."

Em meio aos sentimentos do puerpério e à entrega que o momento exige, Shayana se sentiu complemente só. Ela esperava que seu companheiro pudesse, ao menos, cortar uma fruta para lhe oferecer, fazer um suco, segurar no braço o bebê como ela segurava, passear com ele, ninar, estender a roupa, entre outras tantas tarefas relacionadas aos cuidados com o filho e puérpera.


"Eu queria que ele deixasse de olhar para a TV e olhasse para nossa família. O meu sonho era que o pai do meu filho tivesse enxergado que minha vida tinha virado do avesso."

Isso porque, para Shayana, com a maternidade, a mãe passa a viver em relação à criança, o que parece incomodar os homens, que veem isso como uma escolha. "É proteção mesmo, é dedicação para que crianças não sucumbam", afirma.


Machismo


Para Shayana, o machismo venda os olhos dos homens, que se tornam incapazes de enxergar que, na relação mãe e filho, há entrega, amor e proteção. "Ele nunca me acompanhava para nada. Eu chorava toda às noites em que colocava meu filho para dormir. Não sabia muito bem o porquê chorava, mas era devido ao sentimento de rejeição e desatenção."


Quando Áyron tinha 1 ano e 1 mês, ela descobriu que seu companheiro tinha lhe traído.

"Decidi ir embora da cidade, não sem antes tentar um acordo de separação com ele. Sem sucesso. Ele simplesmente não me perguntou onde eu arranjaria dinheiro para dar comida para Áyron. Eu estava desempregada. Ele nunca me perguntou se eu teria fogão, geladeira ou colchão", recorda.

Shayana mudou de cidade e, com a ajuda dos amigos e familiares, começou a vender cupcake, iogurtes e chás. Conseguiu uma creche pública para deixar seu filho e se dedicar aos estudos. "Hoje, depois de 5 anos separada, obviamente me tornei a pior mãe do mundo para o pai e para a família dele. Sou 'a interesseira' porque recebo pensão alimentícia. Também sou a mãe mais desleixada do mundo, porque o menino é magro e não é alfabetizado completamente."


"Olho para trás e não me arrependo de ter tirado o peso de carregar um homem ruim e ainda tentar me humilhar exigindo que ele cumprisse com suas obrigações paternas. Hoje é um pai distante. Amém!"

Fortalecimento


Ela acredita que sair de uma relação, na qual o pai tinha se tornado grosseiro, ausente e ainda traidor, só a fez uma mulher mais forte. Shayana contou com rede de apoio para se fortalecer, como grupos de mulheres nas redes sociais. No entanto, reconhece que o preconceito existe, inclusive, dentro dos novos relacionamentos.


"Alguns homens podem crer que mulheres-mãe-solteiras estão à procura de um pai para o filho delas. É uma grande bobagem. Se, em algum momento, o fato da mulher ter filho se torna empecilho para novos relacionamentos, quando ela chega aos 40 anos sem filhos, ela também é cobrada por não ter.  Uma sociedade patriarcal mede cada passo do comportamento feminino e tenta padronizá-lo de acordo com seus interesses, jogos morais, enfim."


Ela aconselha ninguém a se submeter a relacionamentos em que o outro não está com os mesmos objetivos. "Não podemos nos submeter a laços cotidianos com pessoas que não sonham mais como nós, com pessoas que não consolidam esses sonhos em atitudes concretas e ainda nos assediam e abusam de nós psicologicamente. O machismo faz com que os homens ajam alienadamente como agressores. É preciso que eles acompanhem os debates das mulheres, as críticas ao machismo, para que se enxerguem nessa posição arrogante que se colocam em relação às mulheres."

Shayana é professora de história e conseguiu passar no doutorado. "Passei num concurso, virei professora universitária e me dedico unicamente a quem me ama: meu filho", diz. Para ela, o patriarcado é um dominador sutil.

"Há poucos anos, nós, mulheres, não podíamos nem pedir separação, acessar a Justiça, ter conta em banco, frequentar escolas nem ter a guarda de nossos filhos. Vamos e estamos vencendo essa luta. É melhor estar longe do machismo tóxico, mas viver uma maternidade solo cheia de amigas e de colegas para dividir nossas angústias."



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