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"Há enormes riscos psicológicos em criar crianças longe da natureza"

Pesquisador e jornalista Richard Louv fala sobre a saúde emocional que só o contato com a biodiversidade pode proporcionar

Foto: Robert Collins on Unsplash

Por Nathalia Ilovatte


Estamos passando por uma pandemia que já se arrasta por 8 meses e muitos de nós pouco saímos de dentro do apartamento em 2020. Mas, antes disso tudo começar, qual era o grau de intimidade da sua família com a biodiversidade? As crianças subiam em árvores, se sujavam de barro, descobriam insetos e enchiam as unhas de terra com que frequência?

Se a sua família raras vezes teve uma conexão mais intensa com a natureza, você não precisa sentir vergonha. Esta é uma característica do modo de vida nas grandes cidades, e poucas são as crianças que conhecem insetos e árvores fora dos livros de ciências.

Embora seja um sinal dos tempos, essa relação - ou a falta dela - com o ambiente natural nos é prejudicial e precisa ser repensada. O alerta é feito pelo jornalista estadunidense Richard Louv, que aborda a urgência de nos reconectarmos com a biodiversidade no livro "A Última Criança na Natureza".


Na obra (a única do autor traduzida para o português), Louv conversa com crianças, pais e pesquisadores de universidades americanas sobre como nos relacionamos com a natureza. Ele relata que, ao questionar em uma sala de aula por que as crianças não têm interesse em brincar lá fora, ouviu de meninos de 10 anos que estar ao ar livre é chato porque não há tomadas. Em vez de cair no saudosismo dramático de quem lamenta que as crianças de hoje não sabem brincar como as de antigamente, o autor encara a questão como fenômeno sociológico e investiga como esse cenário foi sendo construído ao longo das décadas. O processo de urbanização acelerado, o excesso de controle das comunidades sobre a própria vizinhança e a transformação da experiência natural em bem de consumo entram nessa conta.


Em "A Última Criança na Natureza", a consequência dessa desconexão com a natureza, tanto das crianças como dos pais, tem até nome de doença: Transtorno de Déficit de Natureza, um mal de nossos tempos que, conforme demonstra o autor, traz prejuízos para o desenvolvimento cognitivo das crianças e para a saúde emocional de todos nós.


Se o que estamos vivendo por causa do coronavírus tem servido para desencadear debates acerca de nossos modos de vida, então o livro de Richard Louv é fundamental para o aprofundamento da discussão. Por isso, o Cria Para o Mundo entrevistou o autor sobre como a pandemia catalisou a nossa percepção a respeito da falta de natureza, e como democratizar o contato com a biodiversidade, cada vez mais inacessível a quem vive em centros urbanos.

Foto: Clint McKoy on Unsplash

No livro A Última Criança na Natureza você descreve como as crianças nos Estados Unidos têm pouco contato com a natureza e a biodiversidade. Essa também é a nossa realidade no Brasil. Para a maioria das famílias, se aproximar da natureza e da biodiversidade requer viajar, o que requer tempo e dinheiro, o que nem todos os pais têm. Então, como devolver a proximidade com a biodiversidade às crianças de maneira democrática?

Richard Louv: O transtorno de déficit de natureza pode ser visto no mundo todo, em qualquer lugar em que as pessoas vivam no meio urbano. Se queremos ter experiências significativas com a natureza, temos que repensar a natureza nas cidades. Para nos conectarmos com a natureza, podemos andar na vizinhança, conhecer as pequenas porções de natureza, descobrir como protegê-la e encontrar maneiras de trazer mais natureza para as áreas urbanas. Pelo menos um estudo já mostrou que os parques com maiores níveis de biodiversidade são os parques com os melhores benefícios psicológicos para os seres humanos. As cidades podem, de fato, se tornar parte da biodiversidade. Grupos que auxiliam as pessoas a conhecerem o lugar onde vivem, a terem um senso de pertencimento, estão crescendo em tamanho e número. Como diz o poeta e fazendeiro estadunidense Wendell Berry, “Você não pode saber quem você é até conhecer o lugar onde você está”.

Um fenômeno fascinante parece estar ocorrendo em algumas das maiores cidades do mundo. Eu passei algum tempo na China e no Brasil ajudando a lançar campanhas nacionais e regionais para conectar as famílias à natureza. Em ambos os países, cidades cresceram e se tornaram gigantes da noite para o dia, e as pessoas deixaram as áreas rurais para viverem nesses centros urbanos. Nesses países, a natureza passou a ser associada à pobreza das áreas rurais. Mas agora vemos um crescente e intenso interesse no que se perdeu nesse processo: experiências diretas na natureza, e todos os benefícios que vêm daí. As pessoas querem isso para os filhos, especialmente quando tomam conhecimento das pesquisas sobre o assunto.

Ultimamente, estive promovendo a ideia de que cada cidade deve se desafiar a se tornar a melhor cidade do mundo para crianças e natureza. Com certeza o Brasil é pioneiro em alguns projetos de design urbano e redesenvolvimento. Nos Estados Unidos, ficamos muito impressionados com Curitiba, que transformou terrenos abandonados em parques (entendo que há opiniões diversas sobre Curitiba, e que hoje o Brasil pode ter exemplos melhores). Uma expressão de liderança que está acontecendo no Brasil é pelo Instituto Alana, que é dedicado aos direitos da criança.


Louv é autor de 6 livros sobre a conexão com a natureza

Você acredita que o isolamento social tem acelerado nossa percepção sobre a necessidade de nos reconectarmos com a natureza?

Richard Louv: Como nós tivemos que contar mais com a tecnologia, a pandemia nos lembrou que às vezes você não sabe que precisa de algo até esse algo desaparecer - ou se tornar inacessível. Muitos de nós ficamos mais conscientes dessa necessidade e da importância de agir.

No meu novo livro, "Our Wild Calling", eu escrevo sobre a epidemia da solidão. Mesmo antes da pandemia, o isolamento social já se equiparava ao tabagismo e obesidade em risco à saúde. O aumento da solidão humana é causada por múltiplos fatores, mas pode ter raízes na solidão da espécie. Nós somos desesperados, como espécie, por não nos sentirmos sozinhos no universo. E nós não estamos, se prestarmos atenção.

Ironicamente, a pandemia de coronavírus de 2020, por mais trágica que seja, aumentou dramaticamente a consciência coletiva da profunda necessidade humana de conexão com a natureza - e tem dado um grande senso de urgência ao movimento para conectar as crianças, famílias e comunidades com a natureza.

Quando nos trancamos em casa, muitos de nós ficamos fascinados pelo visível retorno de animais selvagens às cidades e às nossas vizinhanças. Um pouco de vida selvagem entrou no espaço urbano. Mas muitos desses animais já estavam lá. Animais selvagens que normalmente são diurnos passam a ter hábitos noturnos perto dos seres humanos. E durante a quarentena, alguns retornaram para o ritmo natural.


Quando o ar e a água ficaram mais limpos, nós não só vimos o que estávamos perdendo, como também o que queremos ver - um vislumbre de um mundo com a natureza restaurada.

Então agora nós precisamos nos perguntar: Como vai ser o mundo pós-pandemia? Estamos nos preparando agora para maximizar os benefícios e reduzir os perigos da conexão entre os seres humanos e o restante da natureza? O que precisa ser feito para empurrar nossa espécie para agir sobre os problemas climáticos, o colapso da biodiversidade, a ameaça das extinções em massa e as pandemias ligadas à nossa relação com os animais? Olhar para os fatos, dados e lógica claramente não é suficiente. Nós precisamos de pelo menos mais dois ingredientes para resolver essa questão. O primeiro é amor - comprometimento emocional profundo com a natureza ao nosso redor. O eco-filósofo australiano Glenn Albrecht argumenta que apenas “uma mudança na estrutura das emoções e valores funciona” para transformar fatos em ações em outras áreas, como feminismo, união homoafetiva e igualdade racial. A razão pela qual essas causas tiveram algum progresso, ele diz, é porque “elas giraram em torno da questão do amor”. É por isso que as imagens de sofrimento animal e heroísmo humano na Austrália foram tão importantes. É por isso que as cenas da natureza reemergindo ou chegando nas cidades também tocou nosso coração. Em ambos os casos, a vida selvagem nos lembrou, pelo menos por um momento, que nós pertencemos a uma família maior, que vale a pena amar. Também é por isso que Greta Thunberg tem sido tão efetiva. Ela nos lembra que a saúde da Terra não é determinada somente por estudos científicos, por mais importantes que eles sejam, mas também pela ferocidade do amor.

O segundo elemento é a esperança imaginativa - nossa habilidade para descrever um futuro que valha a pena ser criado. Agora nós temos uma oportunidade de construí-la a partir do nosso anseio, intensificado pela pandemia, por maior conexão com aqueles que amamos e com o resto da natureza. Embora seja possível, e até provável, que a nossa espécie retorne para a velha abordagem da natureza - em que ela é vista como o inimigo - também é possível que algo em nós, um anseio, tenha sido reavivado. Uma evidência dessa emoção redescoberta pode ser vista no crescente interesse por design biofílico urbano e arquitetura biofílica, que incorpora elementos naturais em espaços de trabalho, e consequentemente melhora a produtividade dos funcionários e reduz as doenças. A arquitetura biofílica pode ser incorporada também em escolas e casas e, potencialmente, em cidades inteiras. Muitas das pessoas e empresas que de repente se adaptaram ao trabalho remoto podem manter essa prática, reduzindo o consumo de combustível, ajudando as pessoas a focarem novamente nos lugares onde vivem, e na necessidade de ter a natureza próxima. Conforme aprendemos durante a pandemia, ter a natureza próxima é, para muitos de nós, essencial para a saúde mental. Nos últimos anos, muitas pessoas - políticos, inclusive - ficaram presos em um transe distópico. Quando questionados sobre como será o futuro, descrevem imagens muito parecidas com filmes como Blade Runner ou Mad Max, onde tanto a natureza como o amor foram tirados do cenário.


A menos que possamos reativar a esperança - a esperança imaginativa, não a esperança cega, então sim, Blade Runner será nosso futuro e o futuro de nossos netos.

Mas a pandemia nos mostrou a urgência de imaginar novos cenários para um futuro onde a nossa conexão com a natureza e uns com os outros, como parte da natureza, começa a reemergir.

Livro de Louv fala sobre infância ao ar livre

Vivendo em cidades, nós adquirimos o hábito de enxergar a natureza como um ambiente de grandes perigos. Ter um contato mais próximo com a natureza é novidade para muitos de nós, pais, também. Nós precisamos de uma mudança de perspectiva sobre esse contato e os potenciais perigos que ele traz?


Richard Louv: Toda família quer conforto e segurança. Mas, como pais, nós também queremos criar crianças e adultos corajosos e resilientes - com uma ajudinha da natureza. Uma reação ao medo na nossa sociedade é se trancar, a outra é reverter o medo, construindo resiliência. Muitos ossos quebrados causados por escaladas em árvores ocorreram porque a criança não tinha a força necessária para ficar pendurada, de acordo com Joe Frost, professor emérito da Universidade do Texas e especialista em brincar e em espaços de brincar. Ele recomenda que os pais ajudem os filhos a desenvolverem cedo a força na parte superior do corpo. “Fazer isso reduz significativamente a chance de ferimentos sérios”, diz ele. Assim como correr riscos pequenos e administráveis, tão necessários para que as crianças construam resiliência. Em outras palavras, não corte a árvore, ensine a criança a escalar.


Eu não estou dizendo que não há perigo lá fora, mas nós precisamos pensar em termos de riscos comparativos: sim, há riscos lá fora, mas há enormes riscos psicológicos, físicos e espirituais em criar as futuras gerações em uma prisão domiciliar protetiva.

E, melhor do que ficarmos presos a nostalgias, precisamos trazer alternativas para conectar nossas famílias à natureza. Aqui estão algumas ideias no meu blog.


Foto: Kelly Sikkema on Unsplash

Em seu livro você usa o termo Transtorno de Déficit de Natureza, que também foi adotado por pediatras, e você nos diz que, felizmente, esse é um quadro reversível. Quais são os sintomas do Transtorno de Déficit de Natureza? Todos nós temos esse transtorno, especialmente agora que estamos isolados em apartamentos?


Richard Louv: Transtorno de Déficit de Natureza, como eu defini no livro A Última Criança na Natureza, não é um diagnóstico médico, mas um termo útil - uma metáfora - para descrever o que muitos de nós acreditamos ser o custo da alienação da natureza, conforme foi sugerido por uma pesquisa recente. Entre os custos dessa alienação estão: menor uso da sensorialidade, dificuldades de atenção, maiores índices de doenças físicas e emocionais, aumento de miopia, obesidade infantil e adulta, deficiência de Vitamina D e outras complicações. Para as pessoas interessadas na pesquisa, o site da Children & Nature Network compilou estudos, relatórios e publicações em uma biblioteca online que está disponível para visualização ou download.

Com influência no desenvolvimento, a exposição precoce constrói laços fortes com a natureza e uma durável identificação com ela. Mesmo se tivemos a sorte de ter tido contato com a natureza na infância, manter esse laço na idade adulta, ou começar um novo laço, não é fácil. Mas fazê-lo tem enormes benefícios.

Aqueles que tiveram conexão com a natureza na infância têm a responsabilidade de passar isso para frente. Muitos adultos estão dando maus exemplos, ficando mais tempo em ambientes fechados, passando muito tempo com eletrônicos e, junto com as crianças, tendo problemas de saúde relacionados a esse distanciamento do ambiente natural. O aumento da obesidade nos adultos e jovens é um dos sintomas. Muitas crianças e jovens simplesmente não sabem o que estão perdendo. E nunca é cedo demais ou tarde demais para ensinar crianças ou adultos a apreciarem e a se conectarem com a natureza.

Pessoalmente, eu acho que passar um tempo lá fora é vital para pessoas de todas as idades. Sabemos que líderes da conservação tiveram contato próximo com a natureza durante a infância. Então, as crianças que hoje tiverem experiências positivas ao ar livre vão dar uma contribuição enorme para a sociedade como cuidadores da Terra. Mais um ponto: se as hipóteses de E. O. Wilson (entomologista e biólogo) sobre biofilia estiverem corretas, se nós somos mesmo geneticamente conectados, como filhos, com o restante da natureza, então nunca é tarde, e nunca estaremos velhos demais para desbloquear essa conexão.