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Gestação gemelar, pré-eclâmpsia e 29 dias de UTI

Atualizado: 18 de Nov de 2019

Quando Taíssa engravidou pela 2ª vez, surpresa: gêmeos! Na reta final, a pressão alta frustrou os planos de um segundo parto natural e os bebês nasceram prematuros

Taíssa com Laura e Gabriel, que estão ótimos e recentemente completaram 1 ano

Por Taíssa Freitas


A segunda gravidez foi milimetricamente planejada: queria um libriano(a), 2 anos e 2 meses mais novo do que a Bia. Pensei ter acertado em cheio!


Uma gestação gemelar nunca foi um sonho, uma ideia ou sequer uma possibilidade pra gente. Também não tem gêmeos na minha família (sim, só a família da mulher influencia). Enfim, nunca passou pela nossa cabeça mesmo.


MAS, preciso dizer que eu sempre falei que queria três filhos e duas gestações, pois queria adotar o terceiro. Parece que o universo não prestou atenção até o final... Assim que descobrimos a gravidez (até então, única) contamos para nossa obstetra e combinamos de jogar a DPP lá para a frente, para evitar a já conhecida pressão de passar das 41 semanas.


Com 7 semanas e alguns dias fomos fazer o primeiro ultrassom e a coisa aconteceu mais ou menos assim:


Médica: Boa tarde, tudo bem com vocês? É a primeira gestação?


Nós: Não, é a segunda, já temos uma menina de 1 ano e meio.


Médica: Legal, vamos começar. Vocês estão tranquilos?


Eu: Não (primeiro ultrassom é sempre tenso, com aquele medo de não ouvir batimentos)


Paulinho: SIM!


Médica: Então, são dois.


Eu: mentira!


E aí minha cabeça fez PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII e parou totalmente de prestar atenção no que a médica falava. Um turbilhão de pensamentos concomitantes: como eu vou amamentar dois? Não temos dinheiro para criar três crianças! Será que vou parir?


Esse último pensamento me levou de volta para a sala de exame e consegui perguntar “são duas placentas?”. A resposta afirmativa me fez pensar que seria possível parir e, então, pedi para a médica repetir tudo o que ela tinha dito a partir de "são dois". Tudo bem com os bebês, aguardamos o laudo na sala de espera, num silêncio inquieto. Eu tentava falar com nossa médica, enquanto Paulinho folheava uma revista de carros e comentava que precisaríamos trocar de carro.


Mal sabíamos que essa seria a mais simples das mudanças...


A gestação

Nossa primeira consulta com a obstetra foi uma aula sobre gestação gemelar. Ana Thais é uma obstetra estudiosa, talentosa e com muita experiência, mas, muito além disso, é umas das pessoas mais maravilhosas que eu conheço.


Assim, a consulta teve uma dose alta de realidade: gestação gemelar é de risco, com mais chances de ter alguma intercorrência, como hipertensão e diabete gestacional. Por isso, não teríamos obstetriz e teríamos duas obstetras no parto. E por conta de tudo isso, a chance de precisarmos recorrer à cesárea também era maior.


Mas a consulta também teve uma dose alta de esperança: nossa gestação, dicoriônica e diamniótica (duas placentas e duas bolsas. Cada bebê no seu quadrado), era a menos arriscada entre as gestações gemelares e eu tinha a vantagem de já ter parido antes.


Então, seguiríamos no plano de levar a gestação até 39 semanas e induzir o parto (caso não entrasse em TP antes, obviamente). Foi uma gestação totalmente diferente da primeira, em que eu me senti ótima até o final, com 41 semanas.


Dessa vez eu tive muito enjoo e vomitei até a 14ª semana. Tive uma crise de asma que me levou ao PS pela primeira vez e segui fazendo tratamento até o fim da gravidez. Tive síndrome do túnel do carpo e acordava de madrugada com as mãos doendo e formingando e meus pés e panturrilha incharam muito. Para finalizar, veio apressão alta que acabou em pré-eclampsia.


No meio disso tudo ainda precisava lidar com minhas demandas pessoais e, principalmente, com as da Bia.


Fui transferida para um lugar de trabalho pior e mais longe. Não conseguia mais buscar a Bia na escola e isso foi muito difícil para nós duas!


Gerar duas pessoas de uma só vez é super romantizado mas a verdade é que é bem difícil e eu não tenho saudade de estar grávida de gêmeos!


Pré-eclâmpsia


Dia 1° de julho, domingo à noite, me senti mal após o banho. Medi a pressão e tomei um susto: 16/10. Essa medida me levou à segunda ida ao PS na gestação, a primeira em razão da pressão alta.


Exames de sangue, urina e ultrassom OK, com exceção de um DHL bem alterado.

Fui pra casa com a orientação de repetir os exames na semana e aí, tudo normal, inclusive o DHL.


Um alívio grande, que durou pouco.


Tendo que medir a pressão 3 vezes por dia, eu tinha taquicardia toda vez que esse momento chegava. Não queria pressão alta, nem pré-eclampsia, cesárea, parto prematuro e muito menos UTI.


Tive medições de 15/9 e 15/10 que me levaram ao PS mais umas 2 vezes. Misteriosamente, no PS a pressão não passava de 13/9 e os exames eram bons.


Passei a fazer exame de proteinúria com frequência e andava no trabalho carregando um chiquérrimo galão de xixi.


Decidimos, então, tentar um medicamento para a pressão. Ele não impediria o avanço da pré eclampsia, mas talvez desse um pouco mais de tempo aos bebês.


Na sexta, dia 07/09, tomei o remédio e fiz uma sessão de acupuntura. Algumas horas depois, outra medição de 15/9.


Avisei a Ana Thais e, quando ela visualizou e não respondeu, eu já sabia que não teria boas notícias.


Pouco depois ela me ligou, explicando que estávamos passando do limite de segurança. Me disse para ir ao PS levando as malas e, ainda que os exames estivessem todos normais, eu ficaria internada para monitoramento.


Eu estava arrasada com o fato de eles nascerem prematuros, morrendo de medo da cirurgia e desesperada com a enorme chance de UTI.


Como a Bia já estava dormindo, Paulinho ficou com ela e eu fui para o PS com a minha mãe.


Na recepção, via mulheres chegando voluntariamente para ter seus bebês, fora do trabalho de parto, e achava muito injusto eu estar ali, sem querer estar. Queria falar para elas voltarem para casa e esperarem os bebês estarem prontos, que os índices de morte materna e de desconforto respiratório nos bebês são muito maiores na cesárea.

Lembrava de quando entrei por aquela porta quase parindo a Bia e estava arrasada porque os gêmeos, provavelmente, não teriam a mesma oportunidade.


Cesárea


Os exames do PS naquele dia 07.09 deram normais, pressão 12/8 e a esperança de que talvez conseguisse ficar internada por uns dias, adiando o quanto fosse possível a interrupção da gestação.


Já era de manhã quando fui para o quarto e, na 1° medida de pressão, 14/9. Eu não queria acreditar.


A Ana foi me ver e fez descolamento de membrana, na tentativa de engrenar um trabalho de parto (eu tinha 4cm de dilatação, confirmando o que eu já sentia, que meu corpo estava se preparando para o nascimento deles). Combinamos que eu passaria o dia monitorada e, se a pressão estabilizasse, continuaríamos assim. Se subisse, eles nasceriam naquela noite.

E a pressão subiu.


Quando a Ana voltou, junto com a Aline (que equipe ♡) conversamos sobre os riscos de continuar grávida X benefícios deles ficarem mais 1 dia na barriga. Questionei se não seria melhor que ficassem mais uns 3 dias na barriga e a resposta foi: “você não tem 3 dias”.


Que difícil aceitar a gravidade da situação e, mais difícil ainda, aceitar que meus filhos nasceriam prematuros por uma questão minha, pois eles estavam ótimos.

Cogitamos induzir o parto, com a possibilidade da pressão subir ainda mais durante a indução e eu convulsionar, além dos riscos pra Laura, pélvica, prematura e baixo peso.

Então tomamos a decisão mais difícil da vida: decidimos fazer a cesárea naquela noite.

As meninas saíram para preparar a cirurgia e nós dois desabamos a chorar.


O anestesista chegou nessa hora e, talvez por perceber que estávamos com medo, foi um querido em explicar todos os detalhes da cirurgia. Disse que eu teria vontade de vomitar e que sentiria coceira e tremores.


Nos preparamos e fomos para o centro cirúrgico, onde a equipe (de pessoas amadas e maravilhosas) nos esperava. Me senti acolhida, mas a felicidade de conhecer meus filhos estava bem abafada pelo medo da cirurgia e, principalmente, da UTI.


Tudo o que o anestesista havia explicado aconteceu. Uma sensação horrível de mãos tremendo, rosto coçando e muito enjoo. Além, é claro, do cheiro de carne queimando.


Gabriel nasceu às 20h41 e Laura 20h43. Direto pro meu colo, trazendo um momento de paz.


Gabriel e UTIN

Gabriel nasceu com 2.590 kg e 45,5 cm, maior do que o esperado, mas teve desconforto respiratório e não pôde mamar na primeira hora de vida.


A nossa amada @sospediatra nos avisou que ele precisaria ir para a UTIN. Então, ficamos juntos por um tempinho e ele foi para o berçário (acompanhado pelo Paulinho) enquanto eu fui para um quarto. Ele foi direto para a sala de quase alta, onde ficam os bebês não graves.


É bem fácil reconhecer uma mãe de UTI: sem brinco, colar ou aliança. Cabelo preso, chave do armário no pescoço, um sorriso um tanto falso e um vazio no peito que se vê nos olhos.


Como eles nasceram à noite, só fui vê-los no domingo de manhã. Arrasada e com dor.

Entrar naquele lugar e vê-los com sonda, oxigênio, muitos fios colados e, o pior de tudo, sozinhos, foi devastador. Eu queria pegá-los no colo, abraçá-los e amamentá-los, mas para tudo precisa de autorização, tem horário, parece que você está pedindo um favor. Briguei até perder a (pouca) força e aceitar a situação.


Gab ficou 12 dias na UTIN. Fez algumas bradicardias e foi acompanhado por um cardiologista. Nos deu um susto alguns dias antes da alta, fazendo apneias, mas enquanto o pediatra da UTIN me aterrorizava, nossa pediatra me tranquilizava, dizendo que era algo comum da prematuridade.


Ele teve alta tomando remédio para o coração e com indicação de fazer outro holter e acompanhar com cardiologista. Só que a Laura ainda não podia ir para casa.

As médicas da UTIN nos deixaram escolher o dia da alta do Gab, dando um tempo para planejarmos a rotina insana de ter um bebê em casa e um na UTIN. Eu queria amamentar os dois, ficar perto da Laura e ordenhar leite pra ela, e também não queria me afastar da Bia.


Alugamos um apartamento perto do Hospital e levamos Gab embora, numa mistura intensa de felicidade e tristeza.


Passamos 17 dias dando conta das necessidades da Bia, que tinha acabado de ganhar um irmão, não sabia por que a irmã não tinha vindo junto e, ainda, estava morando numa casa diferente; do Gabriel, que precisava mamar e ganhar peso, além de todas as outras demandas de um RN; e da Laura, quem mais precisava de nós.


Laura e UTIN

Laura nasceu ótima: 2.240kg, 45cm e olhos bem abertos. Mamou na primeira hora de vida e, segundo nossa querida @sospediatra, não precisaria de UTIN.


Só que o protocolo do Hospital São Luiz é deixar prematuro em observação no berçário por 1h antes de ir para o quarto.


Nesse período, Laura teve uma queda de saturação e também foi para a UTIN. Ela estava melhor que o Gab e todos diziam que ela estava só acompanhando o irmão.


Na manhã seguinte, quando eu (obviamente) ainda não tinha conseguido tirar leite, deram fórmula para ela, por sonda. Esse leite não foi bem digerido e o conteúdo estomacal voltou. Suspenderam a alimentação por uns dias e eu parei de perguntar o peso quando chegou em 1.9kg.


Quatro dias depois liberaram a alimentação (agora só leite materno) e ela parecia melhor.

Mas no domingo ela passou o dia amoada e foi ficando pior. À noite, a médica nos chamou, dizendo que Laura estava mal, que não sabiam o que era, mas tinham que agir logo. Ela foi transferida para uma sala de monitoramento intensivo. Tomou dopamina e dobutramina, drogas vasoativas, e 3 antibióticos.


Chorei desesperada.


Voltamos para casa sem chão e com muito medo. Se algum dia eu tive dúvida sobre ter 3 filhos, nessa noite eu os desejei muito!

No dia seguinte, foi confirmada a infecção. Assinamos autorizações de PICC e transfusão de sangue. Um pesadelo.


Ficaram horas tentando o tal do PICC, sem sucesso, e foi preciso que uma cirurgiã passasse cateter central.


Ela foi melhorando, tiraram as drogas e um dos ATB e ela começou a recuperar peso com a NPP.


E aí o cateter infiltrou. Laurinha com o pescoço inchaço e dolorido, sofrendo de novo.

Mais uma tentativa frustrada de PICC e outro cirurgião veio passar um cateter, agora do outro lado.


Gab teve alta nesse dia.


Laura foi evoluindo e voltou a tomar leite (eu ordenava desesperadamente para não darem fórmula e correr o risco dela passar mal novamente).


Então, numa 6ª feira, na mamada das 8h, percebi a pele rendilhada (como quando ela infectou). Preocupada, chamei a médica, que disse ser por conta do frio, e conversamos sobre a probabilidade de alta em uns 3 dias. Voltei para o apartamento alugado muito feliz.


Às 11h Paulinho foi vê-la e estranhou ela estar dormindo, com batimentos passando de 200 e a barriga com forte movimentação.


Alertou a equipe, que pediu exames de sangue para ver se havia nova infecção. Ele voltou para o apartamento arrasado.


Corri para o hospital e a médica me disse que ela estava pior do que naquele domingo em que pegou a infecção, que tinha pedido exames de sangue, e recomendou que eu pedisse um teste do pezinho ampliado, porque talvez ela tivesse alguma doença imunológica.


Corri para pedir esse teste e fiquei esperando notícias. 4h se passaram. Eu desesperada.

A médica finalmente veio falar comigo e, pelo menos, estava sorrindo.


Laura fez tamponamento cardíaco.


O cateter central lesionou o coração dela, que vazou. Esse líquido foi dificultando os batimentos, por isso o coração passou a trabalhar mais e, então, foi parando.

Segundo a médica, a equipe estava estranhando a piora muito rápida e decidiram entubá-la e fazer outros exames. Foi no ecocardiograma que viram o líquido. Não dava tempo de chamar alguém da cardiologia, então a médica decidiu ela mesma fazer a punção e tirar esse líquido. Em 3 minutos todas as funções tinham voltado ao normal.


Foi grave, mas pontual. Um alívio não ser outra infecção.


Decidiram não colocar mais cateter e, pra dar certo, ela precisava tomar leite sem regurgitar. Mas ela regurgitava muito e decidi parar de amamentá-la, na esperança que regurgitasse menos e pudéssemos voltar pra casa.


Depois de 29 dias horríveis, Laurinha teve alta e conseguimos, finalmente, juntar nossa família.

Bia, a mais velha, com Laura e Gabriel, no aniversário dos gêmeos