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Feminismo da porta pra dentro

Em um país estruturalmente machista e violento com as mulheres, é possível oferecer uma educação feminista para as crianças?

Foto: Kiana Bosman via Unsplash

Por Nathalia Ilovatte


Há poucas semanas, repetia-se na televisão a cena de figuras políticas e cidadãos comuns esbravejando na porta de um hospital público, na tentativa de constranger uma criança de 10 anos que teve que entrar na unidade de saúde escondida em um porta-malas. A vítima foi encaminhada por médicos, com o aval da justiça, para colocar fim a uma gravidez indesejada que representava um resquício dos anos de estupro que vinha sofrendo, e colocava em risco a vida da menina.


Poucos meses antes, o presidente da república ganhava os noticiários ao soltar mais uma de suas agressões machistas, dessa vez contra uma repórter que denunciou a compra de disparos no WhatsApp para favorecê-lo nas eleições de 2018. “Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”, comentou em tom de deboche.


Acontecimentos como esses não são exceções no Brasil de 2020. Cultura do estupro, objetificação da mulher - especialmente da mulher negra - e a perda dos poucos direitos femininos sobre o próprio corpo permeiam o dia a dia de uma sociedade deliberadamente machista.


Nos pais, o cenário suscita dúvidas e preocupações. Em um momento em que nosso machismo estrutural vem sendo cada vez mais escancarado e legitimado por figuras públicas, é possível criar crianças dentro de uma lógica que não perpetue a desigualdade de gênero? Afinal, ainda que em casa a igualdade impere - o que já é um feito e tanto - em algum momento a quarentena vai acabar, nossos filhos voltarão à socialização, e situações envolvendo brincadeiras “de menino” e “de menina”, comentários sobre meninos não chorarem e meninas serem mais organizadas e maduras, entre outros machismos cotidianos voltarão à balha.


Para a psicóloga e psicanalista feminista Marina Maciel, a preocupação com o machismo que está lá fora faz sentido, mas é possível usá-lo para o debate. “Acredito que manter uma relação de confiança com os pequenos em casa pode facilitar a escuta de suas experiências sociais, possibilitando que os orientemos. O que não é um trabalho fácil. Pode ser insustentável ocupar esse lugar de escuta na relação com uma filha/um filho, e nesses casos, quando o bicho pegar, é sempre bom para os pais recorrerem à terapia”, indica.


O feminismo adaptado ao universo infantil

Foto: Rochelle Brown via Unsplash

Não há manual para oferecer aos filhos uma educação anti machista - e, portanto, feminista. Até porque, seria incoerente com os ideais feministas estabelecer cartilhas que determinem como cada um deve ser e o que deve fazer.


Mesmo assim, tomar a responsabilidade para si e encontrar caminhos para educar os filhos sem reproduzir ideias de opressão e desigualdade é urgente se quisermos uma sociedade mais justa num futuro próximo. Em “Para Educar Crianças Feministas”, a escritora Chimamanda Ngozi Adichie resume: “Agora eu também sou mãe de uma menininha encantadora e percebo como é fácil dar conselhos para os outros criarem seus filhos, sem enfrentar na pele essa realidade tremendamente complexa. Ainda assim, penso que é moralmente urgente termos conversas honestas sobre outras maneiras de criar nossos filhos, na tentativa de preparar um mundo mais justo para mulheres e homens”.


No livro, que inicialmente era uma carta endereçada à amiga puérpera que perguntou a Chimamanda como criar uma filha feminista, a autora faz algumas sugestões de como colocar os ideais em prática. Mas não espere aí um manual. As recomendações de Chimamanda são mais provocações e convites à reflexão do que um “como fazer”, e o que fica nítido ao longo da leitura é que é imprescindível trazer a igualdade de gênero para dentro de casa. Se possível, dando o exemplo.


A socióloga Tatiana Amêndola, mãe de Alice e autora do podcast Sociologia Para Crianças, reforça a importância de demonstrar o feminismo nas relações familiares e no dia a dia.


“Criando um ambiente igualitário dentro de casa em que a louça seja compartilhada meio a meio, por exemplo”, indica a socióloga.

Tatiana lembra que dividir as tarefas de forma a passar para o homem funções antes femininas, como os pratos sujos na pia, nem sempre é indício de uma divisão igualitária das responsabilidades domésticas. “Tem famílias que acham que estão sendo feministas porque os homens lavam a louça quando, na verdade, essa é a única coisa que eles fazem. Foram as mulheres que colocaram a mesa, pensaram na comida, prepararam a refeição, fizeram os pratos, tiraram a mesa, e às vezes até organizaram a louça na pia. Os homens só têm que levantar e lavar. Isso parece igualdade, mas não é”.

Foto: CDC via Unsplash

Nem sempre é possível colocar a igualdade de gênero em prática, especialmente quando a mulher exerce a maternidade solo e o pai ou outro adulto próximo é machista. Entretanto, mesmo em casos assim, propor debates sobre o machismo pode ser um caminho.


Mas é preciso fazê-lo com jeito. “Uma forma é criando diálogos sobre coisas do universo infantil. Assim as crianças conseguem compreender e acompanhar”, explica Tatiana.


“Pode ser, por exemplo, vendo um filme e dando uma opinião, esperando a criança entrar no assunto”, sugere. “Assistindo ao desenho da Branca de Neve, o cuidador pode comentar algo como ‘nossa, mas ela cuida dos anões sozinha, lava a roupa de todo mundo, e só os anões trabalham fora de casa. É diferente de hoje, né?’. E aí a criança pode engajar no assunto ou não”.


Para a socióloga, até os contos de fadas que mostram a princesa sendo salva pelo príncipe podem ajudar na educação feminista.


“Se a gente tira todas as histórias e as músicas que a gente não concorda do campo de visão da criança, protegendo-a num grau absurdo, o que acontece é que depois ela não vai saber lidar com os problemas. Então vamos ver Bela Adormecida, Cinderela, Branca de Neve, e vamos ver para além do machismo e feminismo”, sugere Tatiana.

“Vamos encarar estas como histórias de enfrentamento de dificuldades, de superação, como histórias que falam de afeto, de amor, de inveja, e conversar sobre o contexto, que é legal e o que não é”.


Uma educação machista é nociva para meninas e meninos

Foto: Chayene Rafaela via Unsplash

Ensinar as próximas gerações a enxergar o mundo de maneira menos dicotômica é uma tarefa árdua, mas importante não somente para o futuro coletivo, mas também individual. Uma criação que não reproduza desigualdade de gênero oferece mais ferramentas para que as crianças se tornem adultos emocionalmente saudáveis.


Para as meninas, as grandes vítimas do machismo, o peso emocional de uma criação sexista é grande. “Às meninas é dito que não podem ser bravas, que tem que estar sempre sorrindo, que precisam ser agradáveis e carinhosas todo o tempo. Que são frágeis, não têm habilidades com esportes nem com os números e que precisam saber cuidar", pontua a psicanalista e psicóloga Marina Maciel.

Segundo ela, a lista não para por aí. "Adolescentes têm que estar sempre bonitas, magras e devem saber que roupas curtas são indecentes. Têm que saber sentar, falar e agir com delicadeza. E que o casamento com um homem deveria ser uma das maiores conquistas de suas vidas", afirma.


Quando essa menina chega à idade adulta, as consequências dessa educação aparecem com nitidez. "Relacionamentos abusivos, tripla jornada de trabalho (trabalho formal, filhos, casa), baixos salários, uma relação adoecida com o próprio corpo, etc", lista a psicóloga. "Mulheres brilhantes abrem mão de suas carreiras em detrimento da carreira do marido por acharem que não são boas o suficiente e/ou para assumirem o cuidado da casa e dos filhos. Mesmo que sigam com suas carreiras, continuamos em desvantagem devido à rotina exaustiva e a falta de tempo para se dedicarem à pesquisa e cursos de atualização”.


Do outro lado, a educação machista também tem potencial adoecedor. “Tendemos a associar o masculino ao pênis, à habilidade de penetrar, literalmente. Isto pode até não ser expresso em palavras aos pequenos, mas pode ser comunicado das mais variadas formas - nas brincadeiras, no cuidado ofertado ou recusado ao menininho. “Sem querer querendo”, após um longo processo, esse menininho, agora um adulto, entende que seu corpo deve ser impenetrável, seja por outro corpo, seja por microorganismos (“é só uma gripezinha”), seja pelo sofrimento. Então ele se defende”, explica Marina.


Segundo a especialista, essas defesas podem vir nos mais diferentes formados. "Dentre eles o exercício de poder e violência sobre corpos e identidades que, de algum jeito, o façam questionar esse ideal de impermeabilidade do corpo: pessoas LGBTQIA+, mulheres (sobretudo as negras), crianças, etc. Mas pode também aparecer como uma angústia insuportável, que pela dificuldade em ser compartilhada, é sufocada ou racionalizada por meio de discursos de ódio, por exemplo. Ou mesmo como incapacidade de ouvir, compreender pontos de vista diferentes, reconhecer as próprias falhas, etc. A lista é extensa".


Em resumo, a psicanalista elenca duas principais consequências de uma criação machista sobre os meninos: “A incapacidade em estabelecer relações respeitosas e horizontais com outras pessoas e o intenso sofrimento decorrente disto - e seus encaminhamentos desagregadores”.


Educação feminista não é igual a filhos feministas

Foto: Jessica Podraza via Unsplash

Faz parte de uma educação libertadora compreender os filhos como indivíduos dotados de vontades, e não como projetos. Por isso, uma educação feminista não é garantia de que, em 15 ou 20 anos, nossos filhos estarão marchando no 8 de Março ou discursando pelos direitos das mulheres no Plenário da Câmara. O que eles farão com o que aprenderam em casa diz respeito só a eles, afinal.


“Tenho a impressão de que quando se trata de maternidades e paternidades, não temos garantia de nada, desde o momento da concepção até a velhice de nossos filhos. Me parece ser um eterno exercício de confiança e desconstrução da ideia de que controlamos as coisas, sobretudo no que diz respeito a outro ser humano”, pondera Marina.


Mesmo assim, e apesar de todos os desafios do caminho, uma educação feminista é necessária. “Acredito que vale o esforço, é o tipo de aposta que compensa fazer. É uma questão ética, diz de nosso papel no processo civilizatório de uma pessoinha que se tornará um adulto independente. Se lá na frente percebermos que nossos esforços não foram o suficiente para evitar que eles reproduzam comportamentos machistas, é bem provável que nos sintamos fracassados, mas devemos lembrar que fizemos tudo que foi possível, os filhos que temos são sempre os filhos possíveis, nunca os ideais. E que quanto mais autônomos eles se tornam, mais os rumos de suas vidas nos ultrapassam”, afirma a psicóloga e psicanalista.


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