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Comprar de uma mãe é ato político

Mulheres aderem ao movimento #compredeumamae, fortalecendo o empreendedorismo materno e o consumo consciente



Por Nathalia Ilovatte


Você já parou para pensar que uma roupa pode não ser somente um bem material, mas também um emaranhado de histórias? Da extração da matéria-prima à aplicação de cada botão, uma simples camisa é feita de dezenas de narrativas, carregadas de dedicação e trabalho - justo ou não - que se entrelaçaram, formando aquela peça.


Por isso, escolher uma marca e não outra, dar preferência para determinados materiais e saber de onde vem cada compra pode ser determinante para que as boas histórias de trabalho justo e empoderador se tornem cada vez mais frequentes.

A empresa de Ana Gabriela organiza festas infantis e conta com funcionárias, parceiras e fornecedoras que também são mães

É pensando nisso que a empresária Ana Gabriela Cardoso, mãe de Pedro, de 5 anos, sempre dá preferência a produtos e serviços feitos por mães. De roupas a joias, passando por artesanatos, doces, maquiagem, penteado e depilação, muito do que Ana Gabriela consome é feito por mãos maternas. “Compro de mãe por apoio, empatia, por acreditar que naquele trabalho tem carinho, tem um objetivo maior envolvido, e por saber que estou contribuindo para que outras mulheres se realizem como mães e profissionais”, conta.


Para ela, comprar de uma mãe é um ato político. “Prefiro comprar de mães porque infelizmente o mercado de trabalho, para nós, é muito complicado depois que o filho nasce. É quase regra que quando voltamos da licença somos demitidas. E, infelizmente, nem todas podem ficar em casa só cuidando do filho. A gente tem que ganhar dinheiro de alguma forma”, explica, se referindo ao empreendedorismo materno.


“Acho que a gente tem que se unir. Então, como mulher e como mãe, gosto de apoiar outras mulheres que, assim como eu, precisaram ir por outros caminhos depois da maternidade”.

Ana Gabriela sabe do que fala. Engenheira de minas de formação, ela virou empresária para conciliar maternidade e carreira. Hoje é dona da Formiguinhas Picnic e Festas, uma empresa de mãe que emprega mães e faz parceria também com mães. “Minhas experiências são ótimas. Na minha empresa temos um homem e o restante é mulher, a maioria mãe. São pessoas que se dedicam, que se esforçam para fazer bem o trabalho”, conta.


A empresária não é a única a ver no empreendedorismo uma saída. Muitas mulheres se vêem obrigadas a criar o próprio trabalho ao serem expulsas do mercado quando se tornam mães.


De acordo com uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas lançada em maio deste ano, no Brasil, metade das mulheres grávidas é demitida ao voltar da licença-maternidade. Encontrar outro emprego também não é fácil: dados de um levantamento feito pelo site de recrutamento Catho indicam que 21% das mulheres levam mais de 3 anos para retornar ao mercado de trabalho.

Diante desse cenário, a saída para elas é “se virar”. E, como sobra vontade de fazer dar certo, muitos pequenos negócios criados e liderados por mães têm se fortalecido.


Uma loja só delas

A Amor de Mãe reúne marcas maternas em um shopping de BH

No movimentado corredor que liga o cinema à praça de alimentação do Shopping Del Rey, na região da Pampulha, em Belo Horizonte, uma loja aconchegante chama atenção. As clientes batem papo e circulam entre sapatos, brinquedos, objetos de decoração, artigos de papelaria, roupas, bolsas e outros produtos artesanais. Por trás de cada item há o trabalho cuidadoso de uma mãe. E no atendimento e na gerência da loja, lá estão elas também. “Mãe é uma entidade, né? Todo mundo tem mãe e todo mundo sabe das dificuldades que mãe passa, de como é excluída do mercado. Então as pessoas, quando vêm aqui, se identificam com o projeto e apoiam a causa”, contra Patrícia Oliveira, mãe de Davi, de 12 anos, de Felipe, de 7 anos, e gerente da loja Amor de Mãe.


Patrícia conta que na Amor de Mãe as expositoras têm escala flexível para se dedicar à maternidade

Nas prateleiras, uma curadoria cuidadosa garante uma variedade de encantadoras e diversificadas marcas geridas por mulheres mães. No atendimento, as expositoras se revezam em uma escala que as permite trabalhar e cuidar dos filhos sem que uma função exclua a outra. “Elas vêm uma vez por semana e podem ter os outros dias livres para produzir, ou para estar com os filhos”, explica a gerente. “Se a criança fica doente, tem 40 mães para ligar e pedir para trocar. Fora que, quando não têm com quem deixar, elas trazem o filho para cá. Não é uma loja restritiva, mas que integra”.


A Amor de Mãe, que é a primeira loja colaborativa materna do Brasil, surgiu em um grupo homônimo no Facebook. Primeiro, a criadora do grupo, Márcia Machado, organizou uma reunião de negócios entre as mães participantes e empreendedoras, para trocarem cartões e experiências. O encontro de networking, que começou com 14 mulheres, cresceu e passou a ter 250. Com essa rede unida e organizada, veio o convite do Shopping Del Rey para a feira de Dia das Mães deste ano. O evento fez sucesso, e a organização do shopping ofereceu a Márcia e às demais mães empreendedoras um espaço fixo no piso térreo.


De lá para cá, o projeto só prosperou. Em outubro, mudaram-se para um espaço maior, em um dos corredores mais agitados do shopping. A fila de mulheres empreendedoras aguardando uma vaga para expor na Amor de Mãe já chega a 150 nomes, e Márcia trabalha na inauguração de novas unidades. “Estou abrindo a segunda loja no Shopping Contagem e negociando com os shoppings Cidade e BH”, revela.


Juliane estava insatisfeita com a vida profissional e se encontrou no empreendedorismo

Uma das expositoras é Juliane Tavares, de 48 anos, mãe de Maria Clara, de 14. A analista de sistemas tinha emprego fixo, pouco tempo para se dedicar à filha e uma insatisfação profissional que a estava deixando fisicamente doente. Começou a vender cosméticos como plano B, até que, em junho deste ano, foi demitida. “No mesmo mês vim conhecer a loja, porque uma amiga minha estava expondo aqui. Comecei a vender na Amor de Mãe em agosto porque vi uma oportunidade de apresentar meu produto para as mães e conseguir novas clientes”, conta. Mas não imaginava que os benefícios seriam muito maiores. “Eu melhorei, parei de adoecer, aprendi com as outras mulheres sobre vendas, passei a cuidar mais da minha mãe, minha relação com a minha filha ficou muito melhor... Pra mim, estar aqui é maravilhoso”.


Consumo ativista favorece o empreendedorismo materno


Consumir de marcas maternas é um hábito que tem se difundido, especialmente nas redes sociais. No Instagram, a hashtag #compredeumamae tem mais de 32 mil posts. No Facebook, grupos dedicados ao fortalecimento do empreendedorismo materno também pipocam.


Mais do que uma campanha de Dia das Mães ou uma hashtag nas redes sociais, comprar de uma mãe é uma tendência de consumo que deve ganhar força nos próximos anos. Para Alice Whately Neves, especialista em comportamento e consumo e fundadora do estúdio de pesquisas Liga, o acesso à informação torna as pessoas mais conscientes e preocupadas com o impacto socioambiental de seus hábitos de consumo. “Estamos em uma época em que há demanda por maior transparência das marcas”, comenta, “e acho que há também uma evolução no capitalismo, no sentido de o consumidor conseguir ter uma causa a partir do que compra. Consumir é uma forma de ter uma ação concreta em relação a algum tipo de causa, então cada vez mais é uma tendência”.


O desejo do consumidor de saber a origem dos produtos, as condições de trabalho em que foram feitos e quais impactos ambientais provocam, somado à dificuldade de obter informações claras e confiáveis de grandes corporações, fortalece as pequenas e microempresas.

“Comprar de um pequeno produtor, de um empreendedor local ou de uma mãe, entrando nessa tendência de um consumo político e ativista, tem dois elementos principais. Um é saber a procedência do produto, quem produziu, se foi feito de maneira adequada, correta, pensando no seu impacto socioambiental. O outro elemento é uma vertente dessa mesma questão, que é saber para quem eu estou dando o meu dinheiro”, afirma o estrategista de marca e pesquisador de comportamento Patrício Lima.


Para o especialista, quanto mais as pessoas tomam consciência da realidade das mulheres mães, especialmente no mercado de trabalho, mais identificam o empreendedorismo materno como uma causa a ser apoiada. “A gente sabe que muitas mães, quando retornam ao mercado de trabalho após a licença-maternidade, são demitidas. Então, quando a gente tem consciência disso, passa a ver esse consumo como um ato político”, conclui.