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Existe escola perfeita?

Educadores dizem que a relação entre família e instituição de ensino está mudando. Pais estão mais conscientes para a educação dos filhos, provocando a sociedade como um todo.




Por Luciane Evans


Neste começo de ano letivo, brotam as dúvidas sobre as nossas escolhas em relação às escolas dos filhos. Será que matriculá-lo naquela escola foi a melhor opção ? Será que mantê-lo na mesma instituição é o melhor caminho ? O que ele está aprendendo por lá?


São sinais de que uma revolução silenciosa está em curso, mudando aos poucos a relação família e escola. Os pais, mais conscientes do que querem para a educação dos filhos, estão enxergando as instituições escolares, particulares ou públicas, grandes aliadas para a formação cidadã das crianças e, por isso, cobram delas ações condizentes com a realidade e atualidade.


Estão interessados no que seus filhos estão vendo, aprendendo, escutando, dizendo, repetindo... Além do ambiente seguro e preparado pela instituição, eles estão de olho na forma como cada escola trabalha o respeito às singularidades dos alunos, e temas como meio ambiente, inclusão, racismo, homofobia, questões de gêneros, entre outros assuntos que preparam o indivíduo para viver em sociedade.


O lema de que é preciso "educar para o mercado", que tanto fez sentido para uma geração de pais, já não se aplica para muitas famílias de hoje. O "educar para a vida" é visto agora como o papel primordial das escolas do século 21.


"Se antes as preocupações das famílias eram voltadas para as práticas de cuidados e segurança dos filhos na escola, atualmente os pais buscam conhecer melhor as práticas pedagógicas e compreender a importância da educação infantil no universo sociocultural das crianças”, diz Magali Reis, doutora em educação pela Unicamp, docente do programa de pós-graduação em educação da PUC Minas, coordenadora do Núcleo de Pesquisa Social: Teoria Crítica da Sociedade, Cultura e Infância (DGP/CNPq).

Magali diz que as expectativas das mães e dos pais em relação à educação infantil tem sido cada vez mais importantes, uma vez que o acesso à informação e as preocupações com a educação das novas gerações têm mobilizado a sociedade como um todo.


"O olhar dos pais para as escolas vem ganhando força na medida em que esses pais entram em contato com a importância de uma criação consciente", avalia Carolina Dantas, psicóloga sistêmica e educadora parental. Ela afirma perceber um esforço constante por parte das escolas e das famílias de promoverem entre si uma aliança, "coisa que em outras épocas não era uma prioridade".


Mesmo assim, ela reconhece ter muitas famílias que ainda enxergam a escola como espaço de 'depósito' de filhos e, infelizmente, acabam ausentes no processo educacional.


O papel das escolas


Quem é essa família? Quem é esse aluno? Quem é esse professor? O que pensam e como educam ? Essas talvez sejam as perguntas que muitas escolas e pais querem responder ao longo do ano letivo, como forma de melhorar a convivência e conhecer valores que estão em jogo. Mas como isso acontece na prática?


"A primeira questão que os pais precisam ter em mente é que a educação de crianças pequenas em espaços coletivos é, antes de tudo, um direito delas e uma conquista social das mulheres, em especial aquelas trabalhadoras que, durante o século 20, empreenderam uma luta constante para que a educação infantil fosse uma realidade", comenta a doutora em educação, Magali Reis.

Ela destaca que os bebês, por exemplo, preferem estar com os seus pares de idade, o que faz das creches e pré-escolas locais ideais para esta convivência, "uma vez que são pensadas para e pelas crianças, tanto no que diz respeito à organização do espaço físico quanto aos brinquedos acessíveis aos pequenos e às rotinas de atividades pedagógicas, brincadeiras, alimentação, cuidados e descanso."


Quando se pensa o papel desses locais na educação dos pequenos, há ainda equívocos, como destaca a psicóloga Carolina Dantas. Isso porque, para muitos, segundo a psicóloga, o papel seria de instrumentalizar a criança para a leitura, a escrita e a resolução de problemas, cabendo às famílias o papel de educar em relação a valores, regras, limites e princípios.


"Isso seria ótimo e facilitaria muito o papel dos professores e educadores, porém, não podemos fechar os olhos para as diferentes realidades familiares. Olhando para 'fora da bolha', vamos ver que nem toda família possui condições de educar seus filhos dentro de valores éticos e morais desejáveis para a harmonia da vida em sociedade, nem para torná-los indivíduos capazes de viver em democracia”, comenta Carolina para quem esse cenário não está relacionado a questões financeiras.


"Mas a condições de repassar valores morais e éticos que formem seres humanos respeitosos, empáticos, com consciência sobre seu corpo, sobre política e social. O ambiente escolar, nesse sentido, tem também esse papel de educar para a formação de cidadãos, e os pais precisam olhar para essa necessidade e apoiar. Por isso, confiar na escola do filho é fundamental, pois ela, juntamente com a família, precisa firmar um acordo de parceria, não de guerra”, diz Carolina Dantas.




“Crianças precisam de pais felizes e disponíveis. O resto é um complemento”


Métodos que dão ênfase à autonomia da criança, à liberdade, à singularidade e ao respeito pelo desenvolvimento do aluno estão cada vez mais em voga nos ambientes educacionais . Se por um lado os pais conscientes buscam esse tipo de abordagem, por outro há escolas que oferecem isso a um custo mais alto.


Diante disso, há frustrações entre alguns pais que, impossibilitados de pagar uma escola com esse tipo de visão, acreditam que seus filhos podem não se desenvolver como os demais. Mas a pedagoga Letícia Coutinho alivia os corações ao dizer que tudo isso é relativo.


"Não existe uma receita. Na educação, o melhor caminho é aquele que dá certo para cada um. É aquele em que há respeito pelo perfil da criança, suas habilidades, talentos e sentimentos, para que a abordagem escolhida seja efetiva", diz Letícia Coutinho.

Conforme lembra Magali Reis, doutora em educação, muitas dessas metodologias ditas alternativas não são novas e datam do final do século 19. "Inspiraram as pedagogias contemporâneas centradas na perspectiva das crianças, ou seja, as escolas específicas como a Waldorf, por exemplo, seguem uma orientação didática metodológica baseada nos estudos de Rudolf Steiner, enquanto as escolas de modo geral adotam princípios desta e de outras pedagogias modernas."


Segundo Carolina Dantas, essas abordagens são mais acessíveis a famílias com renda mais alta, umas vez que são poucas e caras as escolas onde elas são integralmente implantadas. "Em contrapartida, graças aos pais que estão mais atentos e conscientes, e de professores que se identificam com a linhas mais alternativas de ensino, como a construtivista, percebemos um movimento incipiente em algumas escolas ‘tradicionais’ no sentido de ampliar mais o diálogo, priorizar a cooperação e inserir formas mais respeitosas de ensinar. Certo é que cada modelo tem seus prós e contras e qual lado vai pesar mais vai depender do que os pais esperam dessa escola”, avalia.


Carolina concorda que seria ótimo se todas as instituições pedagógicas bebessem da filosofia de respeito a singularidade e autonomia das crianças, ou tivessem condições de aplicá-las. Ela diz ser importante que os pais não se deixem se levar pela vaidade ou competição, e façam escolhas de forma mais consciente, pensando também no bolso, na logística, no horário de funcionamento, entre outros fatores.

"De nada adianta colocar o filho em uma escola 'dos sonhos' se, para mantê-lo lá, esse pai vai precisar se sacrificar, viver preocupado, endividado e estressado. Crianças precisam de pais felizes e disponíveis. O resto é um complemento”, garante Carolina Dantas.

Para ela, a formação de um indivíduo se faz sistemicamente em conjunto com outras

instituições. "Por mais que a escola seja um lugar importante onde as crianças

passam a maior parte do seu tempo, é fundamental que os pais entendam que não

é o fato de colocar os filhos nessa ou naquela escola que vai garantir que eles

sejam os filhos que sonharam e tenham o futuro que desejaram”, alerta.




Existe uma escola que seja realmente perfeita?


Para os especialistas ouvidos, não. O que existe são fatores que contribuem para que determinado local seja mais indicado àquela família, levando em consideração a realidade dela.


Durante o ano letivo, é interessante observar, segundo a pedagoga Letícia Coutinho, se os valores passados para a criança condizem com os da instituição escolhida. Ela diz que, como mãe e educadora, não acredita em escola perfeita.


"Isso é um mito. Acredito que a instituição deva atender ao perfil do estudante e o modo de viver da família. As expectativas são altas e, muitas vezes, os pais reclamam da instituição na frente de seus filhos, o que não ajuda", critica, dizendo que os responsáveis devem confiar nas suas escolhas e serem colaborativos com a escola.


Para Magali Reis, a melhor escola é sempre aquela próxima à moradia das crianças ou próxima ao trabalho das famílias. "É a que disponibiliza um local adequado, com área coberta para atividades pedagógicas e lúdicas; e outras áreas livres, como parquinho, onde as crianças possam ter contato com a natureza. A instituição deve ter critérios claros e compartilhados com as famílias para a contratação de profissionais, e que estes sejam formados na área em que vão atuar. Na educação infantil e nos anos iniciais, por exemplo, a formação mínima exigida é o curso de graduação em pedagogia”, esclarece.


Ela diz ser imprescindível que os pais observem o comportamento de seus filhos quando vão à escola: se as crianças estão felizes, se elas se sentem bem lá, e se são bem acolhidas pelos profissionais que atuam por lá. "Estes aspectos são tão importantes quanto a confiança dos pais na escola e em seus profissionais", diz.


Outra questão levantada por Magali é em relação ao espaço físico oferecido. "O local é agradável, bem cuidado e limpo? As salas são arejadas e bem iluminadas, de preferência com luz natural? São termicamente confortáveis, isto é, quentinhas no inverno e frescas no verão? Há brinquedos suficientes para as crianças? Os brinquedos estão disponíveis e acessíveis a elas? A decoração da escola é adequada e sem excessos de estímulos visuais? Um outro aspecto importante diz respeito aos profissionais. A equipe de trabalho é atenciosa com os pais e com as crianças? Apresentam a proposta pedagógica de forma clara e acessível? São transparentes quanto as rotinas da escola? Estão disponíveis para tirar as dúvidas das mães e dos pais?  É importante que os familiares sintam-se seguros e confiantes de que a criança ficará bem na escola."


Ela ressalta que as prefeituras são responsáveis pela oferta de vagas na educação infantil e pela fiscalização das escolas particulares, as quais também necessitam de autorização para seu funcionamento, o que implica corresponder aos critérios legais para funcionar.


"É importante destacar que a educação infantil pública, especialmente nas grandes cidades e nas capitais como Belo Horizonte, possuem excelentes experiências educativas para a infância. Aliás, as Escolas Municipais de Educação Infantil de BH (EMEI) são referência internacional de educação e cuidado com as crianças desde o berçário até a pré-escola", destaca Magali.

Experiência compartilhada entre família, escola e sociedade


A doutora em educação pela Unicamp, Magali Reis, tem duas filhas e diz que não teve grandes expectativas ou frustrações quanto às escolas. "Isso porque compreendo que a educação de crianças é uma experiência compartilhada entre a família, a escola e a sociedade. Sempre procurei entender a didática, os métodos de ensino e qual é o lugar social que a criança ocupa na instituição", diz.


Magali enumera questões fundamentais para que os pais observem se fizeram uma boa escolha. "Se as crianças são a prioridade absoluta, como define a nossa constituição federal, já é um ponto fundamental para a escolha do local onde as crianças passarão boa parte do dia. Se as mães e os pais sabem que podem expressar suas expectativas e frustrações já é um ponto de partida importante no estabelecimento da confiança entre a família e a escola”, defende.


Para a pedagoga Letícia Coutinho, além do desenvolvimento das estruturas cognitivas, transmissão de conhecimentos formais e desenvolvimento da autonomia, os pais devem esperar que a escola escolhida para os filhos trabalhe na construção de estudantes solidários, propondo momentos para que eles vivenciem experiências significativas de reciprocidade e respeito mútuo. "Nossa sociedade agradece", ressalta.


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