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"Eu admiti que não estava feliz por estar grávida"



Por Ana Rosa


Entenda invisibilidade materna como negação a. Eu falei por 30 anos que nunca teria filhos. Via valor na mulher que era extremamente independente, sexy, dominadora, bem sucedida profissionalmente e que não dependia de ninguém. Nesse modelo, me formei e me tornei especialista, divagando pelo mercado com um ego enorme que só reconheci quando engravidei e vi minha barriga maior que ele. Tinha algo mais importante a descobrir e é isso que vim contar. 


Desde que engravidei, percebo que, em todas as fases da gestação, a maternidade é bem-vinda se é romantizada. São raros os casos em que uma grávida é contratada para um novo cargo, em que a grávida é vista/valorizada em seus outros papéis (profissional, social, sexual, acadêmico), parece ser irrelevante se não for glamourizada.


Eu comi do meu próprio preconceito: evitava contratar mães e nunca contratei mulheres grávidas para nenhum serviço. Ao olhar no espelho, percebi o tamanho da minha arrogância e desdém comigo e com outras mulheres. Tinha ódio de mim por estar mais lenta, pelas dores que sentia ou humor louco. Não me respeitei na maior parte do tempo de gestação.

Desde o início da gravidez passei a temer a noite, a solitude de algumas horas sem a presença do meu companheiro, os exercícios físicos e até mesmo o fato de estar sentada por longas horas no escritório. Não consegui buscar a tão falada “rede de apoio”, recusava ajuda, conselhos, carinhos...


Quando meu parceiro fez o curso “Gestação e parto para homens", do Papo de Homem, eu admiti que não estava feliz por estar grávida. Ele desejava ser pai, eu quis ser mãe com ele, mas a pressão da realidade me deixou inconstante.

Eu não desejava o “pra sempre” que a paternidade dele e as transformações que o Nuno (nosso bebê) fariam no meu presente e futuro. Pelas estatísticas, eu só eu perdia nesse processo.



Conheci o projeto Hidden Mother (em tradução do inglês, “mãe escondida”) da fotógrafa americana Megan Jacobs e passei a cruzar diversos medos que estavam dentro de mim. No projeto, ela reproduz fotos de mães vitorianas, que se escondiam sob um lençol e seguravam seus bebês por longos minutos até que a foto fosse feita.


Numa metáfora, o atual ensaio dá cores a mulheres que se escondem no ambiente doméstico, que mesmo em 2019 é denominado feminino. Minha intenção ao buscar a arte, era gerar solução para o caos que eu me encontrava no início da gravidez, mas me coloquei de frente a outros temores.


Buscar terapia foi essencial para não pirar. Percebi que os muros cresciam a partir do momento em que a mulher que eu era antes da gravidez se distanciava...e isso ocorreu muito rápido. 

Desde o “positivo” do exame de farmácia, meu corpo passou a mudar diariamente e eu já não sabia quem eu era. Perdi boa parte do guarda-roupa e não queria me fantasiar de grávida - tinha pânico de entrar em lojas dedicadas a gestantes. Tampouco aceitei as alterações que os hormônios trazem: indisposição, sono, azia, falta de apetite, dificuldade de dormir e seios enormes.


Eu paralisei mesmo quando lá pelo quinto mês a “barriga de grávida” começou a crescer. Passei a ter menos de 10 roupas disponíveis, as lingeries deram espaço as calçolas beges de vó e o equilíbrio de andar mudou completamente. Fui obrigada a admitir que estava grávida e a informar clientes sobre as possíveis alterações de tempo dos meses seguintes.


Nessa fase, tinha tanto medo de não ser mais eu (nunca mais!) e adoeci. Não queria entrar em depressão ou ter crises de pânico, mas estava a um segundo da crise. É muita pressão em cima do ato de maternar, percebi que sem uma mentoria e terapia eu não daria nem mais um passo e busquei ajuda. Brindei o início do processo que a gestação me dava: era preciso baixar as velas e soltar os remos, eu estava em alto mar e a previsão era de turbulência nas águas.

Ainda faltavam 4 meses de gestação e eu achava que podia traçar planos, fingindo controlar algo que eu nunca tinha imaginado viver.


Eu estava em um processo de transição de carreira, com uma nova terapeuta e com um bebê crescendo no meu ventre. Era loucura demais querer dar conta de tudo, mas eu não queria que as pessoas me vissem como frágil por estar grávida. Queria ser a grávida que não parece grávida, queria ser o pai, quis abortar, mas meu coração não permitiu. 


Ainda assim, me sentia uma mulher inútil nessa sociedade. Ninguém aplaude a mulher que troca fralda. A maternidade é glamourizada, consumista e romantizada, em que a mãe é a vitrine de um produto. O pânico é válido, pois nem nos bastidores da maternidade encontrei empatia. Falo das dezenas de grupos de grávidas que entrei e busquei forças.


Falar da maternidade real é preciso! Senti o peso e mazelas desse novo papel. Foi quando ouvi da minha mentora: “Você está fazendo muito, talvez criando um osso nesse minuto!” Me senti importante, mas chorei compulsivamente, pois queria mesmo ser reconhecida no papel de profissional extremamente produtiva que eu era desde os 14 anos de idade. 


Presto consultoria de forma autônoma e não queria chegar numa reunião com um bebê do lado, não queria ganhar menos por ser mãe. Admito: antes dessa aventura, eu não contrataria uma mulher grávida. O preconceito comigo mesma era o que eu tinha com outras mulheres antes da gestação - eu criei o muro, mas estou no processo de quebra.

Permitir que uma rede seja criada ao meu redor, permitir a participação do companheiro (vulgo, pai), tem me dado liberdade de ser essa mulher que não é nada perfeita nesse novo papel. 


Estou chegando ao fim da gravidez e fazer essa reflexão escrita é o auge da minha exposição, da minha vulnerabilidade como mulher. Não sei se sentirei falta da enorme barriga, pois decidi viver com muita intensidade o agora, mas sigo perguntando se há vida após o parto.


Assim, quis abrir o diálogo e englobar mulheres que também buscam espaço de fala nessa louca transformação de ser mãe. Eu e o Instituto Nova Liderança faremos o workshop “A invisibilidade da maternidade”, no dia 12 de novembro, a partir de 18h30, no Centro Loyola em Belo Horizonte/MG.


Quer participar? Mande a sua história para criaparaomundo@gmail.com