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E se eles começarem agora?

Atualizado: há 7 dias

Confusão de sentimentos causados pelo isolamento social desperta o interesse de pais pelo yoga para crianças. A prática ajuda os pequenos a lidar com as emoções diante do incerto



Por Luciane Evans 

Se você não é praticante, provavelmente se arrependeu disso nos últimos meses. No looping das emoções por qual estamos todos passando, aqueles que souberem lidar melhor com os sentimentos que nos invadem sairão, talvez, menos ferido desse isolamento social . É nesse contexto que o yoga parece ser aquele velho conselho não escutado. 

Sem saber o que fazer com as incertezas que chegam nesta pandemia, muitos estão vendo na prática da meditação um possível respiro para o turbilhão mundial. Mas começar hoje não é tão simples quanto parece e o resultado não é tão rápido quanto queremos. 

É por isso que, quem estreou nesses últimos meses nas aulas onlines de yoga, refletindo a respeito dos benefícios que começou a sentir, sabe que não há mágica, mas tempo. Quanto mais cedo se começa, melhor serão os resultados para a saúde mental do aluno. Principalmente, se esses alunos forem crianças, ou melhor, seus filhos.

Muitos pais estão descobrindo com a pandemia como o yoga pode fazer bem para os adultos de amanhã, principalmente, na relação com as emoções em situações de estresse. 

 Para conhecer melhor sobre esse caminho que passou a ser ainda mais admirável, conversamos com praticantes que fazem disso um propósito de vida e repassam, por meio de aulas presenciais e onlines, ensinamentos ao público infantil.

São professoras e mães que notaram esse aumento na busca por cursos para crianças em meio ao isolamento social. Elas sabem que as dificuldades existem e que elas não vão sumir de uma hora para outra, mas acreditam ser possível saber lidar com elas.


"O isolamento tem feito, sim, com que as pessoas olhem para o yoga com maior interesse. As crises vêm para nos dizer sobre as mudanças que precisamos fazer. O isolamento ainda traz esse lugar da ausência, da falta, mas também nos traz a oportunidade de escolher como vamos nos relacionar com isso", ensina Jot Prakash, que é professora na escola Miri Piri Santa Lúcia, em Belo Horizonte.


Para qualquer corpo, sem nenhuma restrição

Para começo de conversa, é preciso destacar, segundo as praticantes, que há uma imagem errada sobre o yoga que precisa ser corrigida: o mito de que se trata de algo voltado para pessoas magras e flexíveis. "Esse estado de yoga, que é a união da mente e do corpo, é viável para qualquer corpo, sem nenhuma restrição", ressalta Flávia Ferraz, professora de yoga.

Segundo destaca Hari Rai, professora de Kundalini Yoga e uma das idealizadoras do Um Possível, numa comparação com décadas posteriores, há cerca de 30 anos, a prática no ocidente era privilégio de alguns. Com o tempo, aumentaram a diversidade de ofertas e formas de acessar esse conhecimento. Hoje há aulas onlines, inclusive, por meio de aplicativos.

"Do ponto de vista social, existe, pelo menos em Belo Horizonte, um trabalho de democratização da atividade, buscando viabilizar o acesso e experiência dessas ferramentas a pessoas em situação de vulnerabilidade social e econômica", comenta Hari, citando o projeto Yoga e Negritude, da Associação Brasileiras de Amigos do Kundalini Yoga (Abaky), e outros projetos de serviço em instituições de atenção à saúde mental, como os feitos na comunidade do bairro Alto Vera Cruz e em unidades prisionais.

Saúde mental na infância

Quando se trata do público infantil, o yoga começa na gestação. Muitos são as aulas para gestantes e puérperas que auxiliam no estado emocional das mães e dos bebês para parto, amamentação e conexão entre mãe e filho. É por isso que dizem que, para se iniciar na prática, não há idade.


São dezenas de variações de yoga, com diferentes estilos e filosofias. Algumas são estruturadas como exercício físico, outras são mais centradas na meditação.O Kundalini Yoga, por exemplo, prática considerada a mais antiga, atua nos aspectos físicos, emocionais e cognitivos.

Hari Rai e Puranjot, praticantes de Kundalini Yoga há mais de 10 anos, são fundadoras do Um Possível, um programa em Belo Horizonte que abarca Kundalini Yoga, escuta e criatividade. Além de professoras, Camila Lima, (Puranjot), é psicóloga, e Renata Corrêa (Hari Rai) é educadora, atriz e também atua no campo da arte e saúde mental. 

Elas comentam que, para a infância, além de clareza mental, vitalidade, regulação do sistema nervoso, endócrino e imunológico, "a prática facilita ainda que as crianças se coloquem no mundo de uma forma mais segura, mais inteligente emocionalmente e a estarem em profundo contato com suas potencialidades, fortalecendo seu senso de identidade e singularidade. Isso para criança traz inúmeros benefícios, inclusive, de cuidado com a própria saúde mental”, defende Hari Rai.


Hari Rai e Puranjot, praticantes de Kundalini Yoga há mais de 10 anos, são fundadoras do Um Possível

Aulas leves, lúdicas e livres


Um professor de yoga para crianças é também um brincante, conforme define Hari Rai. De forma lúdica, por meio de brincadeiras, jogos, músicas e desafios, ele envolve a criança na prática, que se coloca a partir desse território que já é conhecido e natural para ela: o da brincadeira.

Flávia Ferraz, professora de yoga, explica que as crianças são introduzidas na prática pela imitação. "O adulto tem que trabalhar dentro do yoga para recuperar algumas coisas que perdeu, que deixou para trás na infância. A criança já tem o olhar curioso e busca pela novidade, o que é fantástico”, aponta.

Uma aula infantil, por exemplo, não serve para deixar a criança "mais quieta", como muitos acreditam. "Ela vai aprender pela imitação. Não devemos conter a liberdade e energia natural infantil. A criança vai aprender pelo exemplo, de uma maneira solta e leve. E se o aluno se recusa a fazer, ele não é julgado por isso”, esclarece.

Como o processo é livre, as recusas vão diminuindo ao longo do tempo. "A partir dos 5 anos, ela tem mais capacidade de aderir a alguns combinados, a coisa flui de maneira natural. Já trabalhei com turma de bebês de 2 anos, são aulas lúdicas, muito espontâneas", diz Flávia, esclarecendo que, aos poucos, meninos e meninas vão carregando preceitos do yoga para a vida.

Ela cita, como exemplo, o hábito de agradecer, de respeitar os colegas, o de não violência, e o de respeito com o corpo. "É uma aula bonita, em que não há competição. Há crianças muito flexíveis e outras com habilidade motora menor, convivendo bem.”

Recursos para lidar com as emoções


Hari Rari conta que, como resultado visível da prática em crianças, tem observado que a constância apoia no processamento de emoções, de como os pequenos conquistam autonomia no entendimento do que sentem e como aprendem a direcionar e elaborar de forma positiva seus afetos. 

Ela conta que, outro dia, seu filho de 5 anos, ao se ver ansioso porque queria assistir TV e sabia que não poderia naquele momento, por livre e espontânea vontade, foi para seu quarto, sentou e respirou profundamente até se apaziguar. "Ele entendeu que o processo de respiração consciente o ajuda a se manter tranquilo", diz Hari.

Tem quem diga que se sinta até mais criativa depois das aulas. “O yoga me deixa mais feliz e me ajuda a entender o que estou sentindo. E isso é algo muito bom”, afirma Gabriela, de 14 anos. Ela é filha de Flávia Ferraz, e junto com a irmã Clara, de 11, cresceu vendo Flávia se dedicar à atividade.

Segundo conta Flávia, a história com o yoga na sua vida ocorreu ainda na gestação, quando esperava por Gabriela. Ela se apaixonou pelo yoga, mas com a maternidade e a chegada da segunda filha, se afastou. "Fiquei afastada um bom tempo, mas a sementinha do yoga ficou dentro do meu coração. Quando a minha filha mais velha estava com 7 anos, eu estava ficando muito desequilibrada, explosiva, ansiosa, senti que precisava voltar. Foi um caminho que não teve mais volta. Pratico yoga diariamente", orgulha-se.

As meninas viram aquele momento da mãe e, além de respeitá-lo, passaram a se interessar pelos exercícios. "Eu não as coloquei em aula, elas me viam e se despertaram para isso. Primeiro, mostrei a elas que aquele era um momento meu e que elas precisavam me esperar. Depois, me pediram para fazer e hoje são praticantes. ”

Flávia diz que, quando as meninas estão nervosas ou ansiosas, elas se lembram de que têm recursos para lidar com a situação. “O yoga não tira as dificuldades da vida, ele vai nos dar recursos para lidarmos melhor quando essas dificuldades aparecerem."

Flávia Ferraz e as filhas, Clara e Gabriela, estão sabendo lidar bem com o isolamento social graças ao yoga

Isolamento social sem ansiedade

Uma das consequências mais importantes do yoga é o praticante se sentir, cada vez mais, presente nas suas atividades cotidianas, evitando preocupações passadas e futuras. Essa sensação é a que tem feito com que muitas pessoas busquem a prática neste momento de isolamento, diante da ansiedade trazida pelo incerto.

Segundo comenta Puranjot, do Um Possível, vivemos uma crise global também na saúde mental. "Com a pandemia, intensificou-se um sentimento de indeterminação, na dificuldade de projetar-se em direção ao futuro, uma vez que não temos garantia alguma do que há de ser, e isso também afeta muito crianças e adolescentes", alerta, comparando que, nós, ocidentais, estamos muito habituados a estar mentalmente conectados com o futuro ou o passado, sendo que a rotina cheia de atividades e demandas, e a quantidade de informação fortalecem esse padrão.

"Conectar-se com o momento presente é uma habilidade a ser (re) aprendida, exercitada pelos adultos, sendo uma qualidade muito característica das crianças pequenas. A impossibilidade de controlar circunstâncias, a incerteza quanto à situação externa e a radicalidade da experiência de estar em isolamento social, em tantos aspectos da experiência humana, sublinha quadros de ansiedade, estresse crônico e depressão, intensificando o que já vivíamos enquanto sociedade há tempos”, avalia Puranjot.

Para Flavia Ferraz, nestes momentos de incertezas, as práticas de mente e corpo servem para que sintamos mais ancorados no momento presente. "Posso ter tido um dia muito atribulado, muito corrido, muito cheio de demanda, com medos, dúvidas. Mas tenho aquele momento em que vou para o meu tapete, e me dedico a respirar. A gente aprende a colocar num lugar seguro toda dúvida, toda dificuldade. Não deixamos de tê-las, mas a colocamos em um lugar mais seguro para a nossa saúde mental e física", pontua.

Ela acredita que não estaria lidando tão bem com o contexto atual, se não tivesse escolhido o caminho do yoga. As filhas também têm lidado bem com a situação. "Quando a minha cabeça está um pouco parada, sem ideias, eu faço yoga eu vejo uma grande mudança. Eu fico mais calma e mais criativa", garante Gabriela, que diz ficar, inclusive, mais alegre depois da prática. "Eu pulo pela casa inteira e tenho crises de alegria", diverte-se.

Clara concorda. “Yoga é algo que me acalma e, ao mesmo tempo, é uma maneira de me exercitar sem machucar o meu corpo. Praticamos a não violência, fazendo isso, exercito completamente o meu corpo, melhorando a minha flexibilidade e aprendendo coisas novas.”

Yoga na escola

Apesar dos benefícios que o yoga traz, ele ainda não é uma prática comum dentro das escolas. Em Belo Horizonte, são poucos lugares que o introduziram no ensino. Um deles é a escola Miri Piri Brasil, que tem ensino fundamentado no Kundalini Yoga e em ideias da cultura indiana.

Jot Prakash é professora na Miri Piri Santa Lúcia e conta que, há 12 anos, é praticante de Kundalini Yoga. "É uma aula muito profunda, que leva a um estado de presença muito profundo.”, diz.

A professora diz que a infância é um terreno fértil para criar conexões. “Além disso, a criança passa a ter, com o yoga, o senso de coletivo. Quando você se conecta com algo que está além de você, que não é só você, você entende a importância de cada ser que está ali, nas suas interações”, ressalta Jot Prakash.

É nesse contexto que ela defende que a prática cria o espírito de coletividade, de cooperação e de entendimento de que “somos todos a mesma coisa.” “E isso é algo extremamente necessário para essa transição que a humanidade esta vivendo."

As crianças que ingressam nesse universo, conforme observa Jot, não são mais quietas. "Elas não deixam de ser crianças. Mas passam a respeitar a ação de contemplar, expandem a imaginação e aprendem que não precisam se submeter à emoção para agir. São crianças com senso crítico, sem medo de errar e livres", defende.


Tanto para o adulto quanto para os pequenos, o yoga, segundo ela, nos convida para o ócio criativo, para um momento de respiro. "Você repensa seus modos de consumo, de relação com a sociedade como um todo." Para Jot, a prática vem ganhando espaço a passos largos.


"O isolamento tem feito, sim, com que as pessoas olhem para o yoga com maior interesse. As crises vêm para nos dizer sobre as mudanças que precisamos fazer. O isolamento ainda traz esse lugar da ausência, da falta, mas também nos traz a oportunidade de escolher como vamos nos relacionar com isso."