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E agora, dá para flexibilizar?

Atualizado: Out 15

Perguntamos aos pediatras o que dá para fazer neste momento da pandemia que seja seguro para as crianças e para os adultos.


(Foto de Adalhelma por Pixabay )

Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


Já são mais de seis meses em casa, sem escola, sem festas, sem pracinhas, encontros familiares ou brincadeiras com amigos. A família que cumpriu à risca o isolamento social sabe o quanto está sendo difícil chegar até aqui e assistir a uma flexibilização geral.

Não há vacinas, tampouco uma perspectiva clara do fim desta pandemia e, ao mesmo tempo, há o cansaço, o verão, os dias que se tornaram longos demais e a vontade de dar, pelo menos, um respiro.


Muito além de voltar ou não às aulas, a preocupação de muitos pais é sobre o próximo passo diante de um cenário completamente imprevisível. O que dá para fazer neste momento de pandemia que seja seguro tanto para as crianças quanto para os adultos? Há como flexibilizar sem riscos?


O nosso primeiro entrevistado sobre o assunto é Flávio Melo, pediatra da Paraíba e querido nas redes sociais por levar informações claras e simples aos pais e responsáveis. Flávio é pediatra há 11 anos e tem dois filhos, Pedro de 9, e Manuela de 4.


Para todos os temas, ele se baseia na ciência atual e, nas suas redes, tenta abordar assuntos que fogem um pouco da normalidade do dia a dia na pediatria. Sobre o novo coronavírus, ele cita estudos e esclarece muitas dúvidas. Nesta entrevista, defende que haja, sim, um respiro para as famílias, mas reforça que cuidados devem ser tomados.


Flávio Melo defende os passeios na natureza com prevenção (Foto: Arquivo Pessoal)

Já são seis meses de isolamento social. E agora? Qual a recomendação para os pais que cumprem a quarentena? Como podemos flexibilizar cientes de que ainda não há vacinas?


Estamos em um momento diferente em alguns locais. Então, as atitudes têm a ver com o momento epidemiológico em cada cidade. Quanto menos tiver circulação do vírus, melhor fica para haver a saída de casa com as medidas de segurança.


Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), menores de 5 anos não deveriam usar máscara, mas a Sociedade Brasileira de Pediatria orienta que os maiores de 2 anos têm que usar. Temos que avaliar a questão de risco. Para as crianças de 5 a 12 anos também tem que avaliar a questão de risco, e para os maiores de 12 anos é obrigatório.


Quando falo sobre sair de casa, para uma situação de baixo risco, seria ir para uma área externa junto à natureza. Locais sem aglomerações. Evitar esses encontros com pessoas do grupo de risco e, se isso acontecer, buscar o distanciamento com uso de máscaras, se possível.


O contato com a natureza é tentar levar a criança para uma praça tranquila, levá-la para uma área de praia que não esteja com pessoas ou com poucas pessoas. Buscar um horário tranquilo para isso. É tentar retomar um pouquinho essas saídas. Na área urbana, numa rua ou numa praça, tentar dar uma caminhada com a criança sem causar nenhum tipo risco.

Dá para encontrar com avós e amigos? Como?


Encontros com avós, familiares e amigos já agregam um fator de risco. Os avós são do grupo de risco e, para esses encontros, teria que garantir o distanciamento e, a depender da idade da criança, o uso de máscara por parte dela e dos avós. Um encontro dentro dessas condições não estaria proibido.


Com relação aos amigos, teria que ser um grupo que se conheça muito bem, tenha uma comunicação muito boa e que esse encontro seja com um pequeno número de crianças. Seria praticamente uma bolha com dois, três amigos. A preferência é por áreas externas, estando os adultos de máscaras. As crianças poderão brincar livremente a depender da condição de uso ou não de máscara, de grupo de risco ou não.

Muitos pais estão preocupados com a possibilidade de o desenvolvimento dos filhos não ocorrer como deveria, por causa do isolamento social. Esse risco é real?


Já tem diversas publicações das entidades pediátricas, como o conselho Brasileiro de Pediatria, da Academia Americana de Pediatria e da própria OMS, alertando para possibilidade de o isolamento social ser um fator que pode interferir no desenvolvimento, tanto na saúde física por conta de ganho de peso e falta de atividade física, quanto mental pela a possibilidade de a criança ter essa ruptura na convivência, não frequentando as escolas, encontrando com os amigos e familiares.


Além disso, haverá estresses dentro de alguns lares. Famílias desarmônicas que tenham um contexto de violência, que tenham um contexto de pais com algum problema de relacionamento, problema de uso de entorpecentes. Tudo isso causa estresse tóxico e influencia o desenvolvimento das crianças de todas as idades, conforme já mostram estudos.

Muito se fala sobre as perdas: as crianças podem perder o ano letivo, perdem o convívio com os amigos, mas há ganhos também?


Para algumas famílias mais harmônicas e que não tenham alguma vulnerabilidade, está sendo uma oportunidade muito grande de convivência. Tem a proximidade das famílias, dos pais que estão em home office. No entanto não é uma situação equalizada.


É muito importante que identifiquemos pontos de risco e tentemos minimizar essas questões, trabalhando para evitar que o isolamento por tempo excessivo seja um fator que vá levar transtornos mentais e prejudicar o desenvolvimento da criança. Sabemos que tem muita implicação e por muito tempo. A criança tem uma maleabilidade e tem uma plasticidade neuronal, mas essas questões podem ter implicações a muito longo prazo.

Neste momento em que há tantas tarefas para dar conta dentro de casa, nem sempre as crianças conseguem a atenção dos pais no momento em que desejam. Isso também pode ser benéfico para o desenvolvimento delas?


Uma das formas de as famílias tentarem diminuir um pouco esse estresse domiciliar das crianças é realmente ter o tempo de atenção para elas. Então, é preciso que se crie um tempo de qualidade e um tempo de atenção para a criança. É preciso que os pais verbalizem que esse tempo é delas, que está dando essa atenção para elas.


É uma situação atípica de a criança ver os pais em home office, demandando atenção e eles precisando dar conta das situações de casa e do trabalho. Os pais devem criar esse tempo de qualidade da família e criar um tempo de qualidade específico para cada criança, para que ela entenda que está sendo vista, que está sendo cuidada e que também tem a atenção desses pais.


Como pode ser essa atenção de qualidade?


Uma coisa que ficamos sempre preocupados é o tempo de tela, apesar de sabermos que inevitavelmente isso vai aumentar. É importante que os pais encontrem outras atividades, jogos e brincadeiras que também não envolvam o uso da tela o tempo todo, porque é algo que pode ter influência em distúrbios de sono, desatenção na hora da alimentação, distúrbios alimentares e má qualidade alimentar. É preciso balancear muito.


Às vezes há necessidade dar a tela para que os pais possam trabalhar, porém, em outros horários, deve-se evitar o uso, principalmente, naqueles horários de convivência da família, fora do trabalho, fora do estudo, dentro da própria casa. É preciso que haja outras atividades que não envolvam o uso da tela.




O Flávio Melo foi o nosso primeiro entrevistado sobre o tema. Semanalmente, trazemos outras visões de especialistas sobre o assunto. Conheça o que pensam os outros pediatras: