• Cria Para o Mundo

Desigualdade de gênero pode aumentar na ciência

Fernanda Staniscuaski, bióloga e pesquisadora, alerta sobre queda na produtividade das mães causada pelo isolamento social e diz temer retrocessos para as mulheres cientistas

Fernanda Staniscuaski tem três filhos e é idealizadora do Parent In Science (Fotos: Arquivo Pessoal)

Por Luciane Evans


Nos últimos anos, muitos foram os movimentos no Brasil e no mundo que trouxeram à tona a gravidade da desigualdade de gênero existente na ciência. As mulheres, ainda que maioria em determinadas áreas, muitas vezes ocupam níveis mais baixos da carreira acadêmica, recebem bolsas com valores menores, além de as concessões de financiamento serem menores para elas no meio científico.

A lista de desvantagem perante os homens não para por aí e a maternidade desempenha um papel importante nesse contexto. Mães cientistas dizem que filhos ainda não são bem-vindos no meio. É por isso que elas têm, nos últimos anos, quebrado o tabu e trazido o assunto para a discussão, desencadeando mudanças para solucionar esse desequilíbrio.

Mas o isolamento social ocasionado pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19) se tornou uma ameaça para essas mulheres, podendo reverter avanços e aprofundar ainda mais a lacuna de gênero na ciência.

O alerta está no artigo publicado este mês na prestigiada revista Science. Com o tema "Impact of COVID-19 on academic mothers" (Impacto da Covid-19 nas mães acadêmicas), o texto foi produzido por mães cientistas brasileiras que fazem parte do projeto Parent In Science, criado em 2017 com o objetivo de discutir a maternidade no universo acadêmico brasileiro.

No artigo, as cientistas dizem que a produtividade dessas mulheres está prejudicada, porque, ao vez de escrever, é provável que dediquem tempo às crianças e às tarefas domésticas.

Em entrevista ao Cria Para o Mundo, Fernanda Staniscuaski, idealizadora do Parent In Science e bióloga do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), chama atenção para o momento e diz temer retrocessos na desigualdade de gênero dentro da ciência.

Ela cita o questionário online que vem sendo desenvolvido pelo Parent In Science para conhecer essa realidade no Brasil.


Dados preliminares da pesquisa mostram que, entre 2 mil docentes/cientistas brasileiros participantes do questionário, 52% das mulheres com filhos não conseguiram concluir seus artigos, diante de 38% de homens com filhos. Já as que não têm filhos somaram 40%, contra 20% de homens sem filhos.

Entre os quase 3 mil alunos de pós-graduação que participaram da enquete, 36% estão envolvidos nos cuidados de filhos, idosos ou outros membros da família e não conseguem trabalhar em casa. Apenas 31% dos alunos estão conseguindo trabalhar de forma remota em tese/dissertações. E 32% dependem de laboratório ou trabalho em campo para seguir seu projeto.


Os números reforçam o pedido de "socorro" que as cientistas mães têm feito mundo afora durante a pandemia. Muitos são os editores de revistas científicas que já se manifestaram preocupados com a queda drástica do número de submissões de artigos feitos por mulheres.



Leia a entrevista completa de Fernanda Staniscuask ao Cria Para o Mundo


Como está a realidade das mães cientistas nesse contexto da pandemia?


Com o fechamento das escolas e creches, os cuidados com as crianças passaram a ser de 24 horas por dia. Para as que contam com apoio ou dividem os cuidados com parceirxs está um pouco melhor, mas mesmo assim a produtividade está bem comprometida.


O trabalho acadêmico exige concentração e foco, o que não é fácil em uma casa cheia e com constantes interrupções. E além dos cuidados básicos, alimentação e tudo mais, ainda tem a questão das atividades das crianças em idade escolar (aula on-line, exercícios, etc).


Pra quem está sozinha nesta situação, não tem como esperar muita produtividade. E precisamos considerar a questão do momento mesmo. Não é só estar em casa cuidando dos filhos full time. Estamos em meio a tantas incertezas, tantas notícias difíceis, tanta tragédia. Não dá pra esperar que a cabeça (de ninguém) esteja livre de preocupações constantes. Como produzir assim?


Como você vê essa sobrecarga para os pais cientistas?


A sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidados, exacerbada neste momento de isolamento social, terá um impacto na vida dos cientistas, em termos de produção neste momento. Como sabemos da desigualdade na distribuição deste trabalhos entre homens e mulheres, não é surpresa nenhuma que mulheres cientistas sintam um maior impacto.


Dados preliminares do nosso estudo sobre pandemia x produção confirmam isso: mulheres (com ou sem filhos) estão submetendo menos artigos e tendo maior dificuldade em cumprir prazos dos que os homens. Se olhamos unicamente entre pais e mães, também temos uma diferença.

E qual o impacto disso no futuro?


A longo prazo, se nada for feito, teremos um aumento da desigualdade de gênero na ciência. Hoje mulheres ainda ocupam menos posições de prestígio e liderança na ciência. Isso vai aumentar se tivermos, de uma forma generalizada, mulheres produzindo menos e ganhando menos verba em decorrência do período da pandemia.


Cada avanço que conseguimos em relação à equidade do gênero vem com muito custo e demora muito tempo para acontecer. Infelizmente, os retrocessos não funcionam igualmente. São muito mais rápidos em acontecer. Os efeitos negativos da pandemia terão efeitos duradouros, não há dúvida.


Quais os avanços as mulheres cientistas já alcançaram em relação à maternidade no meio científico?


Os avanços mais significativos que tivemos foi a maternidade começar a aparecer nos editais de financiamento e de bolsas. Uma análise diferencial do currículo de cientistas mães já foi implementada em vários editais. Isso é fundamental. E após passada a pandemia, garantir isso será vital.


Em relação ao governo brasileiro, o que se espera que seja feito para que haja igualdade de gênero no meio cientifico?


De imediato, precisamos que nossas agências de fomento prorroguem prazos. Em todos os aspectos: para editais de bolsas, de financiamento, para prestação de contas e entrega de relatórios. Isso é fundamental para que aqueles envolvidos com cuidado neste momento não percam a chance de concorrer nesses editais. Além disso, a implementação das ações em relação à avaliação de currículos nos editais será mais necessária do que nunca.


Quais mudanças seriam efetivas para que esse contexto da pandemia não prejudique ainda mais as mulheres mães cientistas?


Precisamos é de uma mudança cultural muito grande, dentro e fora da academia. Precisamos que este seja um momento de reflexão a respeito de relações de gênero e cuidado. A maternidade ainda é vista como algo pessoal, em que a mulher que escolheu ter filhos deve arcar com todas as consequências dessa escolha.


Filhos não são só da mãe. Este é o primeiro ponto. Precisamos conversar sobre paternidade ativa, sobre licença paternidade (até quando aceitaremos a afronta dos 5 dias de licença oferecida aos pais?). Mas, acima de tudo, precisamos conversar sobre filhos serem um projeto de toda a sociedade. It takes a village! Esse é meu ditado preferido....

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