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Covid-19 muda salas de partos

Para proteger mães e bebês do novo coronavírus, maternidades restringem visitas e número de pessoas durante o trabalho de parto. Doulas e fotógrafos estão proibidos

Maternidade Sofia Feldman adotou medidas restritivas para proteger mulheres e recém-nascidos

Por Luciane Evans

Nos últimos anos, passamos a celebrar, cada qual a sua maneira, a chegada de alguém no mundo. Desde a gravidez até o parto, investimos em festas, chás de fraldas ou de benção, cursos de amamentação e de casais grávidos. Investimos em fotografias, vídeos, festas dentro da maternidade, mimos para as visitas e até transmissão ao vivo do nascimento do filho virou moda.

Mas, de repente, está tudo suspenso por tempo indeterminado. Com a pandemia do novo coronavírus, o nascer ficou mais íntimo. Na urgência de proteger mamães e bebês de um vírus altamente contagioso e letal, maternidades do mundo inteiro estão restringindo visitas e limitando a quantidade de pessoas na sala de parto.


Além dos profissionais de saúde necessários para a assistência, a mãe tem direito a um acompanhante, podendo escolher entre a doula ou seu parceiro (a). Os fotógrafos e equipes de filmagem estão proibidos.

A restrição foi adotada, inclusive, na Maternidade Sofia Feldman, de Belo Horizonte. Referência na humanização do parto, a instituição, 100% Sistema Único de Saúde (SUS), restringiu a quantidade de pessoas presentes no momento dos nascimentos dos bebês.

"Mantivemos o direito ao acompanhante durante toda a internação, mas suspendemos as visitas e outras pessoas que até então poderiam participar, como doulas e fotógrafos", explica Tatiana Coelho Lopes, gestora do Hospital Sofia Feldman.

Ela diz que a instituição trabalha com o menor número de pessoas dentro do hospital como forma de proteção às pacientes e profissionais. As consultas de pré-natal de alto risco estão funcionando, porém, a presença de acompanhante está suspensa. A maternidade também suspendeu as visitas externas às gestantes, puérperas e recém-nascidos internados.

Tatiana conta que, inicialmente, muitas mulheres questionaram a decisão da maternidade porque tinham contratado doulas e fotógrafos. "No dia a dia do hospital, elas estão entendendo a decisão, sabendo que são medidas tomadas para a segurança do coletivo", enfatiza.

À medida que os casos avançam pelo país, esses procedimentos estão cada vez mais comuns na maioria das maternidades e hospitais. É exigido que os acompanhantes escolhidos pela parturientes não tenham sintomas como tosse, coriza ou febre, além de aderir integralmente à rotina de higienização das mãos.

A maternidade do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, por exemplo, informa no seu site que cursos para gestantes e visitas à maternidade estão suspensos. O hospital também permite a presença de apenas um acompanhante fixo para o parto.

No Brasil, já são 1.331 mortes causadas pelo vírus e mais de 24 mil casos confirmados. Uma gestante faleceu em decorrência da doença e duas puérperas também morreram contaminadas.


Desde abril, o Ministério da Saúde passou a incluir as gestantes e puérperas no grupo de risco para o novo coronavírus. De acordo com informações da pasta, todas as grávidas ou mulheres que deram à luz estão mais suscetíveis aos efeitos da covid-19 por até 45 dias após o parto. Antes, eram consideradas grupo de risco apenas gestantes de alto risco.

Gestantes e puérperas estão no grupo de risco para o novo coronavírus

"É uma forma de reinventar a humanização do parto"

Embora sejam medidas de proteção, há polêmicas levantadas em relação ao direito da mulher neste momento. A presença de uma acompanhante na hora parto é um direito garantido por lei (Lei 11.108/2005) e a presença da doula durante todo trabalho de parto, no parto e pós parto é uma prática recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e incentivada pelo Ministério da Saúde.

Em muitas cidades brasileiras, há leis municipais que garantem a presença delas nos hospitais particulares e públicos. São legislações que representam a vitória dos movimentos pela humanização do parto que durante muitos anos travaram uma luta para que o acompanhante e a doula fossem um direito das mulheres. Diante do novo contexto, há quem tema por retrocessos.


"Não se trata de retroagir em questões de direitos. É uma forma de reinventar a humanização do parto e proteger o binômio mãe-bebê", garante a médica obstetra, com doutorado e pós-doutorado em Ginecologia e Obstetrícia e Saúde Reprodutiva e uma das principais referências no Brasil sobre parto humanizado, Melania Amorim.

Ela diz que essas medidas de restrições têm que ser avaliadas dentro de um contexto de urgência e de responsabilidade sanitária. Destaca que a presença de um acompanhante na hora do parto é um direito assegurado por lei e que nada impede que a mulher escolha uma doula como acompanhante, ao invés do pai da criança, por exemplo.


Mas enfatiza que restringir o número de pessoas na hora do parto, deixando de fora as doulas que não foram escolhidas como acompanhantes, é uma medida de proteção também para essas trabalhadoras. "Não há equipamentos de proteção individuais (EPI) para todos os profissionais de saúde. E as pessoas que o utilizam devem ser capacitadas para isso."


A médica teme pela letalidade do vírus e destaca que o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) já relatou a morte de 16 técnicos de auxiliares de enfermagem no Brasil com suspeita de contaminação pelo novo coronavírus. "A medida agora é diminuir a circulação de pessoas nas salas de partos, evitar a exposição da mãe e do recém-nascido. Vamos ter que nos reinventar. O acompanhante pode acumular funções e, por exemplo, fazer fotos", sugere.

Ela alerta que, caso o Brasil não leve a sério o isolamento social, as restrições podem ser maiores. "Em Nova York - epicentro da pandemia nos Estados Unidos - já estão argumentando eticamente para proibir a presença de qualquer acompanhante no parto. Eu espero sinceramente que não cheguemos a esse ponto - e tudo depende dos esforços coletivos para evitar o colapso do sistema de saúde. Isso depende de as pessoas ficarem em casa e também da redução do número de pessoas circulando nos hospitais", diz.

Melania ressalta que a assistência ao nascimento deve continuar atendendo as recomendações da OMS e cobra do Ministério da Saúde mais detalhes sobre as medidas que devem ser adotadas na prevenção do coronavírus para as gestantes, parturientes e puérperas.

"As decisões estão sendo tomadas pelas maternidades locais. Não há uma recomendação nacional que sirva para todo o Brasil. Por isso, fica parecendo que estamos na contramão das conquistas. Temos que pensar com responsabilidade sanitária", defende Melania.

Entidades defendem amparo contínuo das doulas

Estudos, tanto internacionais como nacionais, mostram que a assistência de uma doula traz impactos positivos para a saúde da mãe e do bebê. Um dos principais benefícios da doulagem é o de aumentar as chances de um parto normal, algo que ganha ainda mais relevância no Brasil por ser o país com o maior índice de cesáreas do mundo.


Por isso, a preocupação das entidades que representam essas profissionais é que as doulas, neste momento de pandemia, possam manter seu amparo, ainda que de forma virtual, não presencial, sempre que possível.

Como suportes às mulheres mães, a atuação delas ao longo do pré natal e do pós parto se faz ainda mais necessário . As informações de qualidade fornecidas à gestante e o planejamento conjunto de um plano de parto eficiente fazem a diferença.


A Federação Nacional de Doulas do Brasil (Fenadoulasbr) traduziu cartilha criada pela Dona International, primeira e maior organização de treinamento e certificação de doulas, para orientar as profissionais neste momento.


Fernanda Fassanaro, presidente da Fenadoulasbr, concorda com a redução para um número mínimo de profissionais na assistência ao pré-parto e parto. Mas destaca ser preciso considerar as evidências científicas sobre os diversos benefícios do suporte contínuo que a "doula oferece à gestante durante o trabalho de parto, culminando na diminuição de uso de analgesia intraparto, diminuição de parto cesariana, além de um registro positivo da vivência de parto e nascimento, acarretando em melhores índices de amamentação."


"Diante de tal comprovação, a assistência da doula pode impactar eminentemente no contato da gestante com número mínimo de profissionais da equipe de assistência, sobretudo na diminuição de uma internação precoce e do tempo do trabalho de parto, o que evita o maior tempo de estada em ambiente hospitalar", enfatiza Fernanda, que diz haver "diversidades de posturas que buscam viabilizar a atuação das doulas no contexto da covid-19."


Documento assinado por organizações e movimentos pela humanização do parto defende o direito a acompanhante  para todas as mulheres em todo o período de internação, independentemente de estarem ou não com sintomas ou com resultado positivo para covid-19. "Obrigar as mulheres a darem à luz sem qualquer tipo de suporte afetivo pode configurar uma situação de tratamento degradante e humilhante", diz o documento.


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