• Cria Para o Mundo

"Como uma mulher a serviço dos filhos pode transar?"

Na segunda entrevista da série A Mulher Por Trás da Mãe, a terapeuta e coach Rita Monte fala sobre sexualidade após a gravidez e a maternidade


Por Luciane Evans


Terapeuta, coach, facilitadora, mãe e feminista, Rita Monte ousa abordar a sexualidade da mulher mãe como ela deve ser: um caminho de autoconhecimento, de conexão com os próprios desejos e uma forma de, mais do que dar, receber prazer.


A chegada da maternidade fez Rita recalcular a rota e mudar a direção da vida profissional. Decidiu se dedicar às mulheres, ao fortalecimento e ao encontro de cada uma com os próprios potenciais. Carreira, relações pessoais e autoconhecimento são questões que aborda em seus ciclos de coaching, workshops e retiros. E a sexualidade é parte importante do despertar que ela ajuda a impulsionar.


"Quando falo de sexualidade não estou falando de sexo, transa. Estou falando da nossa fluência sobre os nossos próprios desejos e a nossa capacidade de receber prazer", pontua a especialista.


Em um papo tão delicioso quanto inspirador com o Cria Para o Mundo, Rita Monte falou sobre desejo, mudanças no corpo, a figura da mãe no imaginário coletivo e, por causa desse estereótipo, o quanto acabamos nos castrando para os nossos desejos.


Como se reconectar ou se encontrar com a mulher por trás da mãe?

Rita Monte: O grande fenômeno que acontece é que, quando me torno mãe, a mulher some. Em 99% das vezes, as mulheres não pararam para elaborar o que é ser mulher antes de se tornarem mães. Talvez elas estivessem invisíveis e sumidas para si mesmas antes da maternidade.


A mulher não está atrás, ela envolve a mãe. O primeiro passo é se sentir diferente do seu filho. Pra isso, é preciso muita coragem. Porque não se fala muito disso. Então, a gente pode achar que está saindo demais da rota, mas precisamos ser diferentonas. O que é ser uma "mulher mãe normal" nos limita demais. A gente está precisando sair disso. Tem muitos círculos de mulheres acontecendo.

Precisamos nos sentar com outras mulheres para nos vermos nos espelhos corretos. Porque os espelhos sociais disponíveis projetam imagens e símbolos que não servem para a gente se mirar e se fazer mulher.

As mulheres que conseguem tempo para refletir, questionar e viver um puerpério potente (são raras) dão conta de que são mulheres e têm desejos diferentes dos desejos da mãe. Elas conseguem entender uma identidade materna que é diferente da identidade mulher.


O segundo passo é conseguir conciliar as duas identidades e as muitas mais que a gente quiser ser. Pelo menos a da mãe com a mulher, que deseja, que quer liberdade de ir e vir, que quer criar sua vida e seus projetos, esse processo de conciliar as duas identidades é um trabalhão que a nossa geração está fazendo e que a geração das nossas mães não fez. É muito novo e não há referências. Não tem manual. Estamos começando a abrir caminhos.


Como a nova geração de mães tem enxergado a maternidade?

Rita Monte: Atualmente, a geração abaixo dos 40 anos está começando a olhar para a potência da maternidade não só como um problema social, mas como uma oportunidade social de a mulher tocar um tipo de poder para qual ela não foi ensinada. Tenho chamado de poder feminino.


A fertilidade é um grande poder. Um poder criativo de trazer para o mundo algo que não existia antes. É um poder enorme. E isso a maternidade como excelência abre a possibilidade de a gente tocar. Essa dimensão sutil da maternidade é algo extremamente recente no Brasil, e tem começado pelo Brasil.


Tenho trabalhado com mulheres de todos os países e são poucas as que abrem para nomear a fertilidade e a criatividade como poderes. E são poderes visionários. Antes do patriarcado, eram as mulheres mães que eram o centro decisório da sociedade. Por essa característica visionária que as mulheres têm, principalmente quando experimentam gerar, parir e crescer junto com os seus rebentos e se renovar a partir disso, esse poder é encarnado. Por isso, as mulheres mães podem olhar para si, para o rebento, para toda a sociedade. E por isso podem ser o centro decisório de toda a comunidade como eram antes, e foram deslocadas desse lugar por um longo período da história.


Essa dimensão potente da maternidade é algo extremamente recente e uma contribuição que o Brasil traz. Eu só trabalho nessa perspectiva da maternidade potente, obviamente incluindo todo o contexto do que é ser mãe no Brasil. Esse contexto é extremamente desafiador e difícil. Muitas mulheres experimentam a maternidade solo, porque a paternidade ainda é facultativa, e a maternidade ainda é obrigatória. Muitas mulheres são demitidas no primeiro ano de vida de seus filhos, e voltam para o mercado, quando voltam, 3 anos depois.


As mulheres negras e pobres nunca saem do trabalho, elas nunca experimentam uma maternidade relaxada, uma relação potente com as crias. É sempre uma relação de sobrevivência porque elas precisam fazer as crianças sobreviverem e nunca param de trabalhar. Essa questão de maternidade e carreira é burguesa, relacionada a uma classe média alta.


Existe a crença no imaginário da sociedade de que a mulher mãe é sagrada, do lar e vive para os filhos. Como isso pode abalar a sexualidade dessa mulher?

Rita Monte: Eu, que trabalho com mulheres a há seis anos, posso dizer que a figura da mãe é o estereótipo mais desvirtuado dentro do panteão do que pode ser uma mulher em termos simbólicos. Então, quando acontece a maternidade, o primeiro lugar que a gente entra para formar uma identidade materna é um lugar extremamente vigiado, normatizado e culpabilizado, sem que a gente se dê conta disso.


Isso porque não conseguimos trabalhar nessa identidade antes de nos tornarmos mães. A nossa experiência como filhas não consegue alcançar a identidade materna. Então, só tocamos esse símbolo na pele quando vivemos a experiência materna. Aí, quando acontece, a experiência psíquica é de morte. Então, morremos para a mulher que éramos antes. Quando renascemos, nascemos em uma forma mais apertada do que aquela que ocupávamos quando mulheres antes de se sermos mães.


Essa forma é a forma da mãe. É o símbolo mais santificado e, ao mesmo tempo, excluído e infantilizado da biografia da mulher. Quando a mulher se torna mãe, ela entra nessa forma que vai infantilizá-la, reduzí-la e colocá-la, ao mesmo tempo, em um lugar que é um altar (pero no mucho) que é muito mais um lugar de isolamento do que de glorificação.


Se fosse de glorificação, não haveria tamanha exclusão econômica e abusos, como o do pai sumir e de toda a carga ficar com a mulher. Se a mãe fosse glorificada efetivamente esse tipo de coisa não aconteceria. A mulher é colocada à parte da sociedade, simbolicamente, e ela mesma se coloca nesse lugar porque ela não descontruiu o que pode ser uma mãe. A gente entra cegamente numa forma horrorosa, até nos darmos conta disso e começarmos a desconstruir.


O que isso faz com a nossa sexualidade?

Rita Monte: Há várias camadas. A primeira delas é subjetiva, de identidade. Quando me identifico com a figura de uma mulher que está a serviço dos filhos, como essa mulher pode transar? Não pode. Como essa mulher pode ter desejo? Não pode. Ela dirige toda a libido para os filhos, sem saber. Isso é profundamente perturbador para ela mesma. Começamos a nos castrar para os nossos desejos, que são diferentes dos desejos das crianças. Mas sem referências de mães como seres desejantes, eróticos e sexuais, sem essas referências próximas disponíveis na sociedade, as mulheres que se tornam mães entram numa negação dos seus próprios desejos, num lugar extremamente profundo e inconsciente.


E fica muito difícil sair desse lugar sozinha. Há muitas mulheres com filhos grandes (nem estou falando do puerpério, do que acontece com os nossos desejos na fusão emocional mulher e bebê), estou falando de quando a cria já está crescida, e já se distanciou e diferenciou da mãe. Quando a minha libido está dirigida para os meus filhos, eu vou permanecer querendo que eles satisfaçam o meus desejos. E não é função dos filhos satisfazer um desejo de uma mãe. Tudo isso cria toda uma situação insustentável.


Há muitas mulheres que vivem isso. Na geração da minha mãe, por exemplo, que tem 70 e poucos anos, ou mesmo nas gerações das mulheres mães com os seus 60 e poucos anos, isso aconteceu demais e de um jeito obscuro. Ninguém via isso acontecer. Então, tem um nascimento da mãe narcisista, que colocou toda a sua necessidade de satisfação em cima dos filhos adultos.


Quando falo de sexualidade não estou falando de sexo, transa. Estou falando da nossa fluência sobre os nossos próprios desejos e a nossa capacidade de receber prazer.

Sexualidade é sobre isso: como eu me aproprio da minha capacidade de sentir desejos por tudo e receber prazer sendo o que eu sou.



A outra camada está relacionada ao puerpério, que tem sido pouco estudado ainda. De 2010 pra cá, estão começando a fazer estudos sobre a fisiologia da mulher. Existem poucas pesquisas sobre o desejo sexual da mulher no puerpério. No meu atendimento, recebo mulheres com bebês de um mês e que dizem estar subindo pelas paredes, e mulheres que dizem fazer sexo uma vez a cada três meses porque estão sem vontade.


Não tem como dizer como a fusão emocional da mãe e bebê impacta na sexualidade da mulher. Mas tem dados interessantes.


A primeira coisa é que, para as mulheres que são mães por meio da gestação, as zonas erógenas se transformam porque nosso corpo fisicamente não é mais o mesmo. Onde me dava prazer antes, agora não vai ser mais tão sensível. E outras áreas podem dar um prazer absurdo. É muito legal tornar isso público e dizer para a mulher experimentar. Se toque, se conheça... O seu corpo mudou e pode ser que você tenha novos alcances de prazer.

Tem muitos relatos de amamentação que são tabus. A amamentação, assim como todos os outros lugares do copo da mulher, a menstruação, o gozo, o clitóris, a própria vulva, tudo isso foi extremamente estigmatizado e se tornou objeto numa sociedade machista. Quando a gente supera esse desvirtuamento e ocupa o nosso corpo como mulheres, acessamos um lugar fora da moralidade. Amamentar o próprio filho se torna um ato de prazer. É um ato de sexualidade, não é um ato sexual.


É de experimentação da minha sexualidade. Pode ser muito prazeroso. E isso é o que acontece na esfera íntima da mulher com o seu bebê. De conexão, de intimidade, de entrega sublime. São lugares estigmatizados que não têm nada a ver com o que se coloca numa sociedade machista. Tem a ver com nossa apropriação e capacidade de receber prazer.


E eu recebo muitos relatos de mulheres que sentem prazer ao amamentar, um prazer que, até antes de terem filhos, era atribuído apenas à relação sexual. Então elas estão descobrindo uma sexualidade que vai muito além da relação sexual.


Outra camada é a economia. O desejo e a liberdade feminina são afetados pelo ritmo econômico. Nós, mulheres, somos seres cíclicos e precisamos pausar. Mulheres não são acesas rapidamente, como ocorre com o homem. A gente precisa de tempo, a gente precisa relacionar o nosso desejo com outras coisas que não são necessariamente sexuais, mas são eróticas. Tipo um homem lavando a louça, numa relação heterossexual (risos). Precisamos ser atendidas, vistas, reconhecidas em outros lugares que não são na cama, que vão acender o meu desejo para que na cama aconteça a troca.


Se economicamente estou completamente desamparada como mãe, precisando fazer cumprir uma agenda que não é do meu ritmo, que tem a ver com a necessidade dos meus filhos, do meu marido, da minha chefe, da minha sócia... Eu vou aniquilar a minha capacidade de receber prazer e a minha disposição para sensualizar para mim mesma, para me ligar em outra chave. A economia em recessão, como está a brasileira, é desafiadora para as mulheres mães que são excluídas do mercado. Precisamos de muito mais apoio para poder relaxar e se ligar em uma outra ocupação que não seja uma preocupação de sobrevivência.

Depois da maternidade, o corpo é um dos pontos de maiores transformações para as mulheres. Como lidar com essas mudanças e se sentir desejada novamente?

Rita Monte: Um dos maiores lugares que fomos destituídas dentro do patriarcado é o nosso corpo e de tudo que um corpo feminino é capaz. De criar, de reger, de transformar. Quando a gente gesta, o corpo se transforma e, em alguns momentos, se desfigura, o que pode ser uma situação de impacto extremamente negativo para algumas mulheres viverem isso sem um apoio. Para que eu me refaça como mulher, o apoio correto é sempre necessário. Fazer isso sozinha não dá. A gente já é isolada demais e, quando a maternidade acontece, a gente se isola ainda mais. Não porque quer, mas pelo o que é dado. Se a mulher se isola, sem ter com quem falar e com quem elaborar esse impacto, isso vai ser profundamente perigoso para a sua própria saúde.


Acontece a transformação gigante no nosso corpo quando a gente gesta. Para que essa transformação seja potente e para que eu abrace o meu novo corpo, preciso de apoio. Preciso de um olhar, geralmente feminino, que me valide como uma pessoa que se transforma na própria estrutura, que é o corpo físico. Quando uma transformação acontece no corpo físico é porque na psique a mudança de identidade já aconteceu de um jeito muito profundo. Mas isso não é visto, não é reconhecido. E, em geral, as mulheres acham que estão pirando sozinhas, que isso não é de valor. Por isso é necessário um olhar que valide essa transformação e mostre para ela que há beleza no corpo que ela está tendo agora, e, assim, ela possa vir também.


O que a vivência da mulher mãe pode trazer para o debate feminista? Como nós, que pela sociedade somos confinadas ao espaço privado, podemos contribuir ativamente com o movimento?

Rita Monte: As mães, num sistema capitalista, são a base. O sistema capitalista é o mais proveitoso para o patriarcado, porque ele combina todos os princípios dele: exploração da natureza à exaustão, concentração de renda nas mãos de poucos, o poder associado à dominação, a exclusão social para a concentração de riquezas. Então, o capitalismo se forjou em cima desse sistema de valores do patriarcado que exclui mulheres mães do sistema.


Nos feminismos, a maternidade é vista desta maneira: como a engrenagem do sistema capitalista. Porque as mulheres exercem o trabalho não remunerado do cuidar e de sustentação da vida, para que o próprio sistema possa ser lucrativo para alguns homens. É muito necessário que a maternidade seja cada vez mais pauta dentro dos movimentos feministas, como vem acontecendo desde a década de 70, dentro de uma perspectiva de direitos sociais, de um estado de bem-estar social, trazendo para a esfera pública os cuidados com as novas gerações, o que inclui os cuidados com quem cuida.


A sustentação financeira desses cuidados não pode ser delas mesmas, nem provido por ninguém que não seja o próprio sistema social que a mulher se inclui. Então, essa pauta que o feminismo conseguiu traduzir em agenda política ao longo das décadas continua existindo em especial em países como o Brasil, que não é um estado de bem-estar social como é a Alemanha, a Dinamarca. A maternidade como pauta se faz ainda mais importante para que consigamos conservar alguns direitos sociais, como a licença-maternidade. Que a gente expanda esses direitos como uma licença-parental.


Quem cuida das mulheres pobres, negras, que são mães solo, que estão à parte da sociedade e que cuidam de uma família inteira? Que precisam deixar as crianças ainda recém-nascidas nas creches?

É muito urgente um olhar social para a maternidade. A maternidade é uma questão política e social. Não é uma questão de fórum privado, como é tratada dentro da cultura do patriarcado. As mulheres vão continuar sendo um assunto da porta de casa para dentro porque isso é interessante para se manter o sistema funcionando como está: excluindo as mulheres e as crianças como sujeitos de direitos.