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“Sou uma mãe leoa, mas estou destruída"

Atualizado: 28 de Out de 2019


"Eu queria poder fazer nada, deixar a cabeça vazia", desabafa Flávia

Por Nathalia Ilovatte


Quando o caçula Victor nasceu, a filha mais velha da jornalista Flávia Vianna, Sophia, tinha 1 ano e 9 meses. Com dois bebês em casa e um salário que não bancaria escola para ambos, Flávia optou por abrir mão da vida profissional, ainda que temporariamente.


A decisão foi ponderada: a renda da família viria do trabalho do marido, e a jornalista assumiria a maior parte dos cuidados com os bebês. Ela queria ter a chance de estar próxima dos filhos durante a primeira infância deles, construindo vínculos que sabia que eram importantes. Foi uma escolha consciente, mas como toda escolha, envolveu perdas.


“Eu chorava de manhã, de tarde e de noite. Sentia falta de adultos para conversar, de me arrumar, de ser uma pessoa de novo”, lembra Flávia.

“Eu era só uma mãe com olheiras que chegavam no queixo, extremamente descabelada e com as unhas comidas, porque eu roía de ansiedade”. Entre pilhas de livros sobre comunicação não violenta, disciplina positiva e mindfulness, Flávia se dedicou a aprender a ser a melhor mãe que poderia. E conseguiu. “As crianças estavam sempre maravilhosas, se desenvolvendo muitíssimo bem”, conta, “mas eu estava podre. Eu olhava no espelho e não enxergava mais a Flávia que ia na academia duas vezes por semana, a Flávia que tinha o cabelo loiro hidratado, que estava sempre bem, sempre feliz”.


Depois de um ano se dedicando inteiramente aos filhos e à casa, a jornalista decidiu voltar para o mercado de trabalho. Logo encontrou um novo emprego, e o que poderia ser um reencontro com a própria identidade se tornou uma carga mental ainda mais pesada, em uma tripla jornada de trabalho. “Eu comecei a trabalhar meio horário. De manhã ficava por conta das crianças, depois ia para o trabalho, aí pegava as crianças na escola e voltava para casa. Quando eu chegava, sempre parecia que tinha passado o tornado do Mágico de Oz. A casa estava um caos, e eu voltava para a minha rotina de fazer o jantar, dar banho nas crianças, e ainda pegava um pouco do trabalho que tinha ficado para trás ao longo da tarde. Meu marido só chegava às 20h, ou 20h30”, enumera.


"A Flávia mãe é muito focada. A Flávia pessoa está com muita dificuldade de enterrar os sonhos", diz

Ter que se desdobrar para dar conta de tantas demandas em uma divisão tão desigual de tarefas deixou Flávia ainda mais insatisfeita. “Eu amo meus filhos, eles são a coisa mais importante da minha vida. Mas, ao mesmo tempo, às vezes é muito difícil enxergar a quantidade de coisas de que precisei abrir mão ao longo dos últimos 10 anos. Tudo que planejei, almejei, o dinheiro que economizei, a minha vontade de viajar, de conhecer coisas novas e pessoas novas, de me conhecer…”, desabafa.


Com tamanha sobrecarga, não é fácil encontrar tempo, foco e disposição para se dedicar a si mesma e encaixar os próprios sonhos entre tantas demandas urgentes. “A sensação que tenho às vezes é a de que não me conheço. Eu não sei quem eu sou. Eu sei quem a Flávia mãe é. A Flávia mãe é uma leoa que vai à escola, argumenta, reivindica melhorias, conversa com professor, olha 70 vezes por ano a carteira de vacinas. É a que lê milhões de livros sobre disciplina positiva, comunicação não violenta, mindfulness, como criar filhos melhores, como criar autonomia no seu filho… A Flávia mãe é uma mãe muito focada, é uma mãe que tenta ser a melhor mãe para os filhos”.


Mas, para além da mãe existe uma mulher cheia de desejos, personalidade e ideias, mas nenhum espaço para tudo isso. "A Flávia pessoa está só o pó, está destruída. Está com muita dificuldade de enterrar os sonhos que ela teve a vida inteira. Está passando por um milhão de crises de ansiedade, e muitas não têm nada a ver com as crianças ou com a maternagem, mas com os cursos que não pode fazer porque não tem grana, as coisas que gostaria de realizar e não consegue, a falta das amigas... Eu tenho amigas que são irmãs, mas a gente não consegue se encontrar e isso pesa demais porque me sinto cada vez mais sozinha”.


Exausta, Flávia conta que se pudesse escolher fazer qualquer coisa, simplesmente não faria nada.


"Eu queria poder fazer nada. Deixar a cabeça vazia, ler um livro que eu escolhesse, e não os das pilhas de educação e pedagogia", desabafa.

Questionada sobre quais mudanças faria na própria vida, ela não titubeia: “Colocaria uma empregada na minha casa para diminuir minha sobrecarga mental, que é muito grande. Eu me organizaria mais para tentar ter mais tempo pra mim. E eu me valorizaria mais. Acho que o fato de me valorizar impactaria em todas as outras coisas”.


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