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Como criar filhos antirracistas

Atualizado: Fev 5

Pais contam o que fazem para criar crianças livres de preconceitos e contribuir para uma sociedade mais igualitária. Reconhecer o racismo em nós é o primeiro passo



Por Luciane Evans


Foi na sexta série do ensino fundamental, aos 11 anos de idade, no meio de uma aula de biologia sobre a teoria da evolução, que a jornalista Raquel Santiago conheceu o racismo. "Uma colega de classe olhou para mim, disse que eu era feia e parecia um macaco", recorda. Naquele dia, Raquel chegou em casa assustada e contou para a sua mãe sobre o ocorrido. A mãe, que estudou até a quarta série, se abaixou e olhou nos olhos da filha. "Você é a pessoa mais linda do mundo e é a minha filha", disse, com a firmeza das mães.


As palavras maternas carregadas em um abraço caloroso nunca mais saíram da memória de Raquel. A postura da mãe é o combustível para que ela fortaleça, agora, aos 40 anos, as suas três filhas Marias. Sim! O racismo vivenciado por Raquel há 29 anos ainda existe fortemente em uma sociedade como a nossa. E muitos pais, negros ou não, abraçaram a luta de criar filhos livres dos preconceitos.


Para isso,para criar crianças cidadãs, denúncias ou repúdios ao racismo não bastam. É preciso ir além, construindo todos dias uma nova consciência para nós e para os nossos filhos. Vivemos numa sociedade em que o racismo é estrutural, sendo urgente o uso de práticas antirracistas. E a raiz da mudança está na infância.


"É urgente entender que a luta antirracista é responsabilidade de todos nós e que precisamos preparar nossas crianças para mudar essa história. Nós temos pressa!", avisam Deh Bastos e Paula Batista, que criaram o grupo Criando Crianças Pretas, e são consultoras sobre o assunto. Elas promovem reflexões na internet, bate-papos em escolas, empresas e instituições.

Partindo das crianças pretas que foram, as duas sugerem reflexões sobre o racismo por meio de material prático. Deh é mãe de José, de 1 ano, e Paula, que é mestre em Divulgação Científica e Cultural, é madrasta de duas crianças. Juntas defendem que para essa luta é preciso, antes de tudo, reconhecer o racismo que há em nós, adultos.


Deh Bastos e Paula Batista desenvolveram o projeto Criando Crianças Pretas, que já alcançou milhares de seguidores, estudiosos e influenciadores como Lázaro Ramos

Reconheça a existência do racismo


Conforme escreve Djamila Ribeiro, autora do Pequeno Manual Antirracista, "reconhecer o racismo é a melhor forma de combatê-lo" e é preciso não ter medo das palavras "branco", "negro", "racismo", "racistas". Djamila é filósofa, mestre em Filosofia Política, escritora, ativista e referência no feminismo negro no país.  Para ela, o racismo é um sistema de opressão que nega direitos.


A partir do momento em que, nós, pais, reconhecemos e falamos sobre isso, damos o primeiro passo para construir junto dos nossos filhos uma nova história.


E o caminho é longo. "Infelizmente, as crianças com as quais convivemos hoje ainda sofrem racismo como sofríamos na nossa infância. O que muda é que antigamente éramos criados para aceitar e não responder a essa violência e, hoje, com acesso à informação que as famílias e as crianças têm, é possível falar sobre o assunto e orientar as crianças para o empoderamento e enfrentamento da questão com autoestima", ensinam Deh e Paula, do Criando Crianças Pretas.


Primeiro, segundo ela, os pais precisam entender seus privilégios e todo o sistema que beneficia pessoas brancas e marginaliza pessoas pretas. "Isso só poderá ser ensinado para uma criança quando os adultos tiverem essa consciência", afirma Deh, que acredita que, a partir disso, haverá a transmissão dessa compreensão de forma natural ao explicar, por exemplo, que "as instituições não tratam todas as pessoas de forma igual".


Uma das formas de saber mais sobre essa história é ler. Há muitos livros que nos mostram como o racismo foi sendo construído no nosso país e no mundo. Na obra de Djamila Ribeiro, por exemplo, ela reconhece ser impossível não ser racista tendo sido criado numa sociedade como a nossa. "É algo que está em nós e contra o que devemos lutar sempre", escreve. Ela aponta como a história dos negros foi sendo contada por muitos e muitos anos no Brasil, tornando o país estruturalmente racista.

A autora defende que ser antirracista é assumir uma postura incômoda. "É estar sempre atento a nossas próprias atitudes e dispostos a enxergar privilégios." O racismo é estrutural e está, de acordo com Organização dos Estados Americanos (OEA), intrínseco nas sociedades ocidentais. No país, existe desde os primórdios, com a colonização e o estabelecimento de um regime escravocrata, no qual a população negra era vista como mercadoria.

Embora muitas famílias optem por não falar sobre o racismo com os filhos, estudiosos dizem ser necessário abordar o assunto. "A criança observa em volta e, provavelmente, já possui alguma opinião ou visão sobre as diferenças sociais e de raça que ela vê na sociedade. Não há uma resposta pronta, cada pai sabe como dialogar com o seu filho", comenta Deh Bastos, indicando que o assunto pode ser iniciado por meio de uma pergunta da criança ou de uma vitória com brinquedos. "Mas é necessário agir", reforça.


Segundo ela, uma forma de começar é falar sobre injustiças, "inserindo uma visão sobre a escravidão e todo o reflexo disso na sociedade hoje". "A criança provalmente já tem uma visão sobre essa questão, então descubra e busque orientar para uma visão antirracista e realista", recomenda.


Raquel Santiago e seu marido Leonardo fortalecem suas filhas com informação e cobram das escolas conteúdos que abordam a diversidade brasileira

Cobre das escolas a valorização da diversidade


É na escola que a criança enxerga o mundo e tem contato com o diferente, que vai desde a comida do colega até a história que ele carrega. É preciso que as instituições de ensino saibam trabalhar a diversidade dentro da sala de aula. Porque é também nas escolas que atitudes racistas ocorrem com mais frequência.


A Lei de Diretrizes e Bases da Educação determina ser obrigatório o ensino da história africana, afro-brasileira e indígena nas escolas. Porém, conforme comentam Deb Bastos e Paula Batista, a legislação tem sido respeitada na rede pública, mas a maioria das escolas particulares não tem nem conhecimento dela.


"E mesmo nas escolas públicas, os professores não têm formação específica para abordar o tema. Fora isso, muitas vezes, os temas da lei são tratados sem falar sobre racismo. Nossa consultoria antirracista busca justamente trazer um conhecimento para a comunidade escolar sobre os efeitos do racismo na infância, já que identificamos que é na escola que as crianças negras sofrem os primeiros episódios de racismo. Infelizmente, instituições como a escola acabam reproduzindo o racismo estrutural. Os pais podem e devem cobrar a aplicação da lei no conteúdo escolar", afirmam.


É o que faz, sem cansar, a família da jornalista Raquel Santiago, seja pelo livros que compra, na informação que busca e até na briga que enfrenta. Outro dia, sua filha mais velha, Maria Cecília, de 4 anos, ao fazer o dever de casa junto com o pai Leonardo, disse que o lápis rosa era "cor de pele". "Meu marido, que é professor e tem didática para ensinar, explicou a ela que aquilo não existia. E ensinou sobre a diversidade nas cores de pele das pessoas", conta.


Raquel levou o ocorrido para a reunião pedagógica da escola. "Maria Cecília começou a adjetivar as pessoas pela cor da pele, e vi que a instituição não soube trabalhar o assunto dentro da sala de aula. Percebi que não existia, numa escola particular, uma sintonia com os tempos atuais", critica Raquel, lamentando que uma avó chegou a dizer que sua neta não passava por isso "porque tinha traços finos".
Raquel Santiago investe em livros que abordam questões raciais. Sua filha Maria Cecília adora se ver nas histórias

Além disso, a jornalista conta que os livros trabalhados pela escola continham princesas europeias, que pouco representavam as crianças brasileiras. "Eram só personagens de olhos azuis. Eu procurei os professores e disse que a minha filha precisava de livros que tivessem uma maior diversidade. Mas eles me ignoraram", conta. Raquel tirou Maria Cecília da instituição e a transferiu para uma escola pública, onde acha que esse assunto será melhor tratado.


A ativista, feminista, assistente social e doula, Lauana Nara Chantal de Castro, diz que há escolas que se propõem a trabalhar durante todo o ano políticas étnicas raciais. Porém, ela reconhece que em algumas há dificuldades em saber lidar com questões relativas ao racismo, machismo, homofobia, gordofobia e transfobia. "É mais fácil esconder do que problematizar. As escolas, muitas vezes, não reconhecem que fazem parte do problema que é estrutural. Elas não podem ser silenciar nem dizer que não somos todos iguais", observa.


Livros com personagens negros que fogem dos estereótipos são algumas das atitudes simples que podem ajudar as novas gerações, assim como os brinquedos que também contemplem a diversidade nas cores da pele.


Informe-se, dialogue, fortaleça e dê o exemplo


“Olha, mamãe, ela também é rainha como a gente”, aponta Odara, sempre que vê na rua uma mulher negra com o cabelo crespo como o seu e o da sua mãe Lauana Nara, que é ativista, feminista, assistente social e doula em Belo Horizonte.


Algumas vezes, a menina, que tem apenas 4 anos, já manifestou ter a vontade de ter o cabelo liso igual ao de uma coleguinha. "Isso corta o meu coração porque eu já tive esse desejo na infância. Então, digo a ela que o nosso cabelo é uma coroa porque somos rainhas", ensina Lauana. 

Ela lembra que, quando criança, mesmo tendo pais militantes em movimentos sociais, o que lhe deu uma infância mais politizada, sua mãe alisava seu cabelo para que "fosse mais aceita" pela sociedade. "Apesar de ela sempre ter usado o dela crespo, comigo era diferente. Ela me levava toda semana ao salão", diz.


Com 12 anos, tentaram recuperar os cachos de Lauana, mas não deu certo. "Tiveram que cortar meu cabelo bem curtinho. Passei três meses sem sair de casa, indo só para a escola e chorando todos os dias."


Lauana lembra também de ver os garotos escolhendo as meninas mais bonitas da sala, sem que ela estivesse na lista. "Lembro que um dia estávamos todos entrando correndo para dentro da sala de aula e, quando foi a minha vez, fecharam a porta na minha cara. Não conseguia falar dessas situações vividas com a família, porque sempre achei que conseguiria me defender e fingia que não ligava para o que acontecia. Ainda bem que a gente cresce e vai buscando ferramentas de defesa e de afirmação", diz.


Além de valorizar a beleza natural da filha, Lauana combate o racismo por meio de material lúdico, livros, brinquedos, filmes. “Aqui em casa , a maioria das coisas infantis é referente à negritude. Meus filhos se veem representados a todo momento e, quando assistem a produções em que a maioria dos personagens é branca, eles falam: ‘mãe, não vi uma pessoa negra nesse filme’”, conta.


A assistente social e doula Lauana Nara diz trabalhar autoestima dos filhos para enfrentar preconceitos. "O racismo hoje está mais perverso e camuflado."

O filho mais velho de Lauana, Caio Zulu, de 9 anos, já sabe diferenciar bullying de racismo. "Eles sempre estudaram em escolas onde quase sempre eram os únicos negros. Zulu já chega para mim e diz ‘só tem eu de negro na sala’. No último ano, ele ficou muito feliz porque havia ele e mais dois negros, além da professora”, conta Lauana, que diz sempre trabalhar a autoestima dos filhos, dizendo o quanto eles são bonitos e inteligentes.


Numa comparação com a infância vivida, Lauana Nara diz que o racismo continua e de uma maneira ainda mais perversa. "Foi ganhando formas camufladas que se sofisticam." É o caso, por exemplo, da estratégia do “negro único”, conforme define Djamila Ribeiro, em seu livro Pequeno Manual Antirracista.


É o que fazem atualmente muitas empresas ao contratar uma pessoa negra e considerar que determinado espaço foi "dedetizado contra o racismo". A autora sugere, inclusive, observarmos sobre a proporcionalidade de negros nos cargos mais altos da empresas onde trabalhamos e como a questão racial é tratada durante a contratação. "A baixa presença de pessoas negras no ambiente de trabalho, ou mesmo distantes de cargos de gerência, pode deixar o espaço altamente suscetível a violência racista”, escreve Djamila.


Por outro lado, Lauana enxerga que, aos poucos, tem havido evolução em alguns aspectos. "Atualmente, um ou outro na família já tem um discurso racial ou assume sua identidade negra, e isso vai servindo de espelho para a nova geração. Na minha infância isso não existia. Neste aspecto temos avanços, mas temos muito que lutar ainda”, avalia.


Meninas negras e o racismo


As mulheres negras sofrem no Brasil opressão de gênero e de raça. Os corpos negros femininos são ultra-sexualizados e, muitas vezes, as mulheres negras "ficam à margem das escolhas dos homens negros e brancos", conforme escreve a autora Djamila Ribeiro. Elas também sofrem mais abusos e violências. Como preparar a nova geração para essa realidade?


Deh Bastos e Paula Batista defendem que essa educação pode ser direcionada para os meninos. "É preciso mudar a forma como os homens enxergam as mulheres negras. Muitos, na época da adolescência, são ensinados pelos mais velhos que mulheres negras são sujas e alguns acham que é "vergonhoso" ficar com mulheres negras. Nós sempre estamos ensinando as meninas que elas são lindas, inteligentes e capazes, é a sociedade que precisa mudar o olhar sobre as mulheres negras. A solidão da mulher negra é o reflexo explícito do racismo estrutural somado ao machismo", dizem.


Para Lauana, trata-se de uma luta constante. "A menina sofre o racismo e o machismo. É preciso trabalhar autoestima e valorizar sua beleza, seus traços. Temos que politizar a todo momento”, defende.


Raquel Santiago diz trabalhar muito a autoestima das filhas, porque, ao longo da vida, sente que tem que "sempre fazer o seu melhor e ser forte". "Pelo fato de estar calejada perante a vida, começo a fortalecer minhas filhas desde já, falando para elas sobre a nossa história, as cores das pessoas, respeito e empatia", diz, resumindo que ser antirracista é, antes de tudo, não ter nenhum tipo de preconceito nem intolerância.


"Eu tive três filhas porque tenho certeza de que elas vão colaborar para um mundo melhor. A minha preocupação como mãe é que elas sejam pessoas com dignididade, tenham empatia e se importem com o próximo. Ensino a elas que sozinhas não vão contribuir com nada", diz, mostrando que o racismo é uma luta de todos.






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