• Cria Para o Mundo

Com os filhos mundo afora

Para ficar mais tempo ao lado da cria e estreitar as relações, pais se tornam nômades, viajam mundo afora com os filhos, colecionam histórias para a vida toda e aconselham: vá!


Por Luciane Evans


Acredita-se que, depois que os filhos nascem, vão embora as aventuras da vida. Ficam na memória as viagens mundo afora, os lugares inusitados e a liberdade de se aventurar sem se preocupar com nada. Em partes, isso tem um pouco de verdade, afinal, a cria depende de nós e fica difícil ir para o Sul da Bahia, por exemplo, sem um pouco de planejamento.


Mas, por outro lado, é possível, sim, voltar às estradas, desbravar mundos e se aventurar por aí carregando os filhotes nas costas. "Mas isso é para quem tem grana, babá e é jovem”, dirão os mais desanimados. Não. São muitos os pais que abandonaram a vida que tinham, juntaram dinheiro e estão realizando o sonho de conhecer lugares e culturas ao lado dos filhos, vivenciando com eles histórias para uma vida inteira.


Apostaram na qualidade de vida e estão mais preocupados com os caminhos a seguir do que em cumprir calendários escolares. São pais que reconhecem ser privilegiados por conseguir ver seus filhos crescerem e por crescerem junto com eles. Alguns fazem viagens longas, outros nem tanto. Mas todos dizem que a vida em família passou a ser de mais diálogo, de mais proximidade e de menos consumo.

"Sabe aquele comentário comum e recorrente nos aniversários do filho? 'Meu filho já está completando X anos, cresceu tão rápido e eu nem 'vi' o tempo passar..?' Nestes quase dois anos de viagem, vimos, presenciamos, participamos ativamente das descobertas, aprendizagens e mudanças dos nossos filhos", destaca Gisele Kakuta, mãe do Rafael, 8 anos, da Sofia, de 5, e esposa do Rodrigo. A família está na estrada desde 2018 e diz ser imensurável o valor disso.


A ideia, segundo ela, é "caminhar pelo mundo, conhecê-lo com nossos próprios olhos", com menos filtros, menos pré-conceitos. "Queremos apresentar aos nossos filhos outros sotaques, outros sabores, outros modos de viver para que se tornem mais abertos ao novo, à riqueza da diversidade, à amplidão do mundo, à liberdade de escolher seus próprios caminhos".

Para os pais que fizeram da estrada um modo de vida, há, sim, dias de desespero, de cansaço extremo, principalmente por estarem 24 horas ao lado da cria e sem rede de apoio.


"Não ter família, escola, tio, tias para serem rede de apoio e ficarem um final de semana com eles é bem puxado. Mas, para nós que escolhemos esse estilo de vida, a nossa proposta é mesmo essa. Não é fácil, mas a recompensa é sempre muito boa”, garante Ana Cristina Torres, que está na estrada com os filhos e o marido Marcão desde 2014.



Uma mãe, uma filha adolescente e a coragem de ir


O sonho de viajar por aí era antigo e estava adormecido para Renata Mello. Nos últimos anos, ela viveu casamento, maternidade, divórcio e o turbilhão de uma vida no Rio de Janeiro. Mas, prestes a fazer 50 anos, mudou de rota.


Estava em um emprego de que não gostava, morava com a mãe e a filha, enfrentava o trânsito caótico da capital fluminense e se trancava em um escritório. “Havia uma série de fatores dos quais não estava gostando”, lembra.


Faltava pouco menos de dois anos para fazer 50 anos e Renata resolveu fazer do sonho algo real. Ela tinha uma grana guardada, refez cálculos, pesquisou, leu livros, passou a seguir viajantes nas redes sociais e decidiu se aventurar.


Mãe da adolescente Marina, na época com 13 anos, Renata refletiu sobre o caminho que faria. “Era setembro de 2016 quando perguntei à Marina se ela toparia viajar comigo. Ela disse que sim, e comecei a juntar dinheiro. Consegui juntar o dobro do que planejava. Seria o sabático dos 50 anos”, conta.


A partir do momento em que a viagem passou a estar nos planos, a visão de mundo da Renata também mudou. “Minha vida estava chata, estava cansada, não tinha privacidade em casa e meu trabalho era chato. Depois que decidi viajar, passei a agradecer por morar com a minha mãe, por ter um emprego para juntar dinheiro. Tudo que estava ruim ficou bom”, diz.


Ela queria uma rota que fosse segura para as duas, já que estariam sozinhas pelas estradas. “Pesquisei muito e optei pelos Estados Unidos. Lá há essa cultura de viajar e, por tudo que li, não era perigoso para duas mulheres. Minha irmã estava morando em San Diego e fomos para lá para que, de lá, conseguíssemos comprar o carro para a nossa viagem. Foram dois meses de preparo já em terras norte-americanas.”



Mas uma viagem entre uma mulher de 50 e uma jovem de 13, mãe e filha, tem dias bons e também ruins. Foram sete meses de estrada, numa convivência intensa entre as duas, numa busca por um sonho e relações mais verdadeiras entre elas.

Com o carro escolhido ( Thunder, F250 4x4, V10, ano 00), elas saíram da Califórnia rumo ao Alasca. "Marina estava começando suas amizades de adolescência. E, com a viagem, ela rompeu com esses novos amigos. Vi que ela sentiu falta da galera dela", conta Renata, que confessa ter vivenciado muitas divergências entre elas. "Eu estava realizando o meu sonho e ela, muitas vezes, de má vontade. A Marina não quis participar da programação da viagem, e queríamos fazer coisas diferentes."


A adolescente diz que sua mãe é mais agitada. Durante a viagem, muitas vezes, Renata queria fazer caminhadas enquanto Marina queria ficar quieta, vendo a paisagem. “Mas foi uma experiência que serviu para estreitar nossas relações. Fiquei mais próxima da minha mãe”, avalia. Renata conta que Marina passou a falar mais sobre a própria vida e a dividir segredos. "E eu também dividi muitas coisas com ela, que passou a ver mais o meu lado e a me entender melhor", conta.


Antes de partirem, Renata conversou com os responsáveis pela escola da Marina e soube do conteúdo que seria dado naquele ano. "Foi como se ela estivesse indo para um intercâmbio. Seguimos o calendário brasileiro de estudo e ela fez o homeschooling."


Para Marina, a viagem expandiu seu olhar e até mesmo seu estudo. "Aprendi a estudar sozinha, pois não havia um professor." Quando voltou para a escola, ela enfatiza que obteve as melhores notas do seu boletim.


Viajar com adolescente


O que chamou a atenção da Renata pelas estradas é que há muitas famílias viajando com crianças, mas com adolescentes isso é mais raro. "Você vê pais viajando com adolescentes de férias, feriado. Mas no dia a dia, não tem. Ou é casal jovem ou adultos com crianças bem pequenas."


Foram sete meses pela estrada. E Renata conta que buscava estacionar sempre em locais seguros.

“Quando você viaja com um parceiro, são dois adultos. Quando você está sozinha, a preocupação é você. Quando há você e seu filho, há o seu medo por você e por ele.”

Houve episódios de receios, como um em que, depois de enfrentar uma estrada tensa, cheia de zigue-zagues, elas chegaram em um camping para dormir, onde havia um grupo de pessoas. "Queria ver gente, conversar, tomar uma cerveja. Parei perto deles e um cara gritou: 'não estacione aqui. Vá embora'. Tinha passado pelo estresse da estrada e quando achei que iria relaxar, veio essa grosseria. Tive uma crise de choro muito grande e Marina tomou conta de mim", conta Renata.


Ela diz que sempre foi muito segura de si e sempre teve controle das situações. "Naquele momento eu não tinha ninguém para partilhar e me senti sozinha."



Uma coisa que a surpreendeu é que muitas pessoas se assustavam com o fato de ela estar viajando com uma adolescente. “Achei que nos EUA isso seria natural, mas não é. Eles também se assustam quando não há a presença masculina de um namorado, um marido ou irmão.”

O melhor da viagem para Renata é que, além de estreitar as relações com a filha, ela realizou um sonho. "Eu tinha esse desejo e realizá-lo é uma sensação muito boa. Eu quero, eu planejo, eu vou. Não procrastinei", orgulha-se.


Hoje as duas estão no Rio de Janeiro e Renata diz que depois de tudo que viveu não voltou a mesma pessoa. Ela vai começar a trabalhar com turismo, já que não consegue mais "pensar em trabalhar em um escritório". Ela quer se aventurar novamente, mas desta vez, sem Marina. "Quero acabar de criar minha filha. Ela precisa de uma estabilidade até o vestibular ou final da faculdade. Aí, ela poderá fazer um intercâmbio enquanto faço mochilão pela Patagônia ou pela Ásia", planeja.


Leia mais sobre a história da Renata seguindo o perfil @poraicomrenata




Dois anos na estrada, dois filhos e um livro a caminho



Sergio Rodrigo Severino, mais conhecido como Rodrigo, já tinha viajado de Florianópolis até o Alasca de carro. Gisele Kakuta já tinha feito mochilão pela Ásia, Europa, Américas e África do Sul. Quando casaram, em 2009, a lua de mel foi percorrer o Sul da Bahia, Chapada Diamantina e Chapada dos Veadeiros. É claro que, com filho, eles se contentaram com as aventuras vividas, não é mesmo? É claro que não.


“Viagem e filhos sempre estiveram nos nossos planos desde solteiros. Juntá-los é o maior dos nossos sonhos”, conta Gisele. O primeiro filho, Rafael, chegou em dezembro de 2010 e, já no primeiro ano de vida, mudou de São Paulo para Florianópolis para "crescer num quintal maior.”


E isso implicou mudança drástica, como o pedido de demissão de Gisele da Editora Abril. “Trabalhava como jornalista e era o emprego dos sonhos. Mas, mesmo assim, pedi demissão em 2012 para nos mudarmos para Florianópolis com a proposta de alterar nosso estilo de vida, com mais tempo juntos com nosso filho e uma segunda gestação.”


Para isso buscaram novas opções de trabalho. "Depois de 20 anos atuando como jornalista, mudei de profissão, me matriculei na faculdade de Pedagogia e iniciei numa escola como estagiária". Rodrigo, que trabalhava como editor de vídeo, e chegou a cobrir a Copa do Mundo no Japão, em 2002, também abriu mão da carreira para colaborar na pequena confeitaria familiar.


Sofia nasceu em 2013 e, com apenas cinco meses, a família se mudou para o Panamá, onde Rodrigo trabalhou por 4 meses.  "Aproveitamos e esticamos a viagem por mais 2 meses. Passamos quase um mês no Havaí. Depois, durante mais 1 mês, alugamos um motorhome e seguimos pelos parques dos EUA. Foi nosso test drive na vida nômade e adoramos”, conta Gisele. Na época, Rafael tinha 3 anos, e Sofia, meses de vida.


Era forte o desejo de desfrutar de mais tempo e experiências junto dos filhos. "Não sentimos falta de viajar sozinhos. Fomos pais com aproximadamente 40 anos. Aproveitamos bastante antes de o Rafael e de a Sofia nascerem. Quando decidimos formar uma família, nós dois já tínhamos em comum a vontade de aproveitar o máximo de tempo com nossos filhos. Por isso, nos mudamos de São Paulo para Florianópolis e mudamos de área de trabalho", conta.


Desde de outubro de 2017, eles estão na estrada. Saíram de Florianópolis e querem chegar até o Alasca. Atualmente, estão na Califórnia. Rafael está com 8 anos e Sofia 5. “Nós planejamos esta viagem. Compreendemos que é curta esta fase das crianças de nos acompanharem com entusiasmo. Logo, eles serão adolescentes e é comum se voltarem mais para os amigos”, comenta Gisele, para quem um longo tempo como este viajando é um modo de viver a vida em família. "Nossos filhos nos acompanharem faz parte disto".



São sete dias da semana, 24 horas por dia, atendendo o "manhêêê, paiii". "Mas agradeço

todos os dias por esta oportunidade preciosa. Sabe aquele comentário comum e recorrente nos aniversários do filho? "Meu filho já está completando X anos, cresceu tão rápido e eu nem 'vi' o tempo passar.."? Nestes quase dois anos de viagem, vimos, presenciamos, participamos ativamente das descobertas, aprendizagens, mudanças dos nossos filhos”, destaca Gisele.


Ela conta com orgulho como foi maravilhoso acompanhar o processo de alfabetização da Sofia, que iniciou a viagem com 4 anos. "Ela começou a desenhar as letras, a associá-las aos sons em iniciativas próprias, de forma espontânea, movida pela curiosidade e pelo espelhamento no irmão mais velho. Acompanhamos este lindo momento em tempo integral, vivenciamos os detalhes desta descoberta, vibramos com ela. Momentos como esses revigoram pai e mãe e, diante da grandeza deles, nos fortalecemos pra dar conta de tudo sem a rede de apoio", diz.

Gisele diz que os "perrengues" também existem. “Certa vez, embarcamos nosso carro-casinha num cargueiro para atravessar da Amazônia colombiana até Letícia, na fronteira com o Brasil. Uma viagem de 15 dias pelos rios da região, numa balsa somente para cargas, sem espaço de circulação de passageiros. Ficamos receosos por causa das crianças, mas decidimos viajar dentro da nossa casinha, pela experiência de estar no coração da Amazônia e acompanhar o transporte da nossa casa."


Mas logo no segundo dia, Rodrigo quebrou o braço, o que foi ainda mais complicado para eles. "Como este transporte é somente para cargas, desembarcamos algumas vezes da balsa por causa da vistoria da Marinha colombiana. Estas vistorias nem sempre eram em locais fixos e, quando chegavam de surpresa, tínhamos que desembarcar às pressas num bote. Teve vez que ficamos neste pequenino bote em meio ao gigante Rio Putumaio aguardando a vistoria da Marinha no cargueiro. Em outra ocasião, tivemos que pegar o bote e ir com ele até uma cidade ribeirinha (Leguizamo). Foi tão às pressas que nem deu tempo de colocar os chinelos", lembra.


No Canadá, certa vez, eles dormiram numa área recuada da estrada, onde havia outro motorhome e era indicado pelo guia de viajantes de motorhome. "De manhã, o nosso carro não funcionou. Estávamos na beira da estrada, num lugar isolado, sem sinal de internet e muito frio. Conforme o tempo ia passando e não conseguíamos resolver, ficávamos mais preocupados em precisar passar mais uma noite ali. Por fim, o carro ligou e partimos aliviados".


No Parque Yellowstone, nos EUA, eles pegaram bastante neve e derraparam com o carro. Por pouco não tombaram ribanceira abaixo. "Acabamos atolados e demoramos para conseguir sair dali."


"Tudo isto já está no adulto que se tornarão"


Para os filhos, eles dizem que esse modo de vida é "uma grande oportunidade para conhecermos, aprendermos, descobrirmos outros modos de vida dos animais, das plantas, das pessoas."



No primeiro ano de viagem, eles adotaram o unschooling (um dos métodos de ensino domiciliar). Sofia ainda estava com 4 anos, mas Rafael já estava no primeiro no do Ensino Fundamental. Ele saiu da escola em outubro de 2017.


"Fizemos uma pausa na viagem e ele retornou à escola em setembro de 2018, já no segundo ano do Ensino Fundamental. Na avaliação da professora, Rafael estava muito bem e tinha plena condições de acompanhar e concluir o ano letivo, mesmo fora da escola durante o último bimestre letivo de 2017 e os oito meses letivos de 2018. Em 2019, viajamos o ano todo. Rafael e Sofia nem foram matriculados. Conhecemos o conteúdo curricular e aproveitávamos para abordá-lo em situações da viagem. Algumas vezes, sentávamos para fazer as atividades dos livros de matemática e língua portuguesa, que levamos para o Rafael. A aprendizagem da Sofia foi totalmente espontânea. A partir do interesse e da curiosidade dela sobre as letras, números e outros temas, abordávamos o conteúdo".


Segundo Gisele, o primogênito sentiu muitas saudades dos amigos e, principalmente, da família. "Isto também foi uma oportunidade de muitos aprendizados, como compreender o tempo vivido e afastado das pessoas queridas, recordar e valorizar quando estamos juntos."


"Eles podem não se recordar do que viram, podem não reter os ensinamentos de geografia e história que a viagem nos proporcionou. Mas viveram sensações intensas diante de paisagens deslumbrantes, diante de povos com culturas diferenciadas, diante da vida selvagem de animais que desconheciam, diante de tantas descobertas. Tudo isto passou a fazer parte do ser que eles são. Tudo isso já está no adulto que se tornarão".

O conselho que dão aos que querem fazer o mesmo é pesquisar, estudar a viagem e entender que cada família terá seu ritmo e prioridades. "Quando partimos, tínhamos a poupança bem justa para as despesas e, se tivessémos imprevisto com custos altos, teríamos que regressar. Também não conseguimos equipar o carro e a casinha como gostaríamos. Mas decidimos partir sem esperar o momento ideal, a situação ideal. Nossa tendência é querer sempre melhorar, mas tem uma hora que é preciso partir", ensina.


Para 2020, eles vão produzir um livro para compartilhar essa vivência. "É vida em família, é educação, é resgate dos verdadeiros valores que nos movem (ou deveriam nos mover) para nós mesmos e para transmitir para os nossos filhos. Temos outras ideias e também estamos abertos a propostas, como bate-papos com pais, com equipe de trabalho, por exemplo".


Para saber mais sobre eles, entre no instagram @atartarugaanaveascriancas




O pré-natal em cada país e o mundo como quintal



Depois de morar 5 anos em Lisboa e rodar o mundo pegando carona e dormindo onde desse, Ana Cristina Torres e Marcos Gadaian sentiram que havia chegado o momento de ter filhos e de ter uma vida "normal". Assim, quando ela engravidou, seis meses depois de eles voltarem para São Paulo, o plano era simples e, teoricamente, até comum entre pais de primeira viagem: alugar um apartamento, abrir o próprio negócio, investir no emprego. Mas, felizmente, não deu certo.


O apartamento não ficou pronto a tempo nem o espaço onde Cristina pretendia abrir uma cafeteria. Ela já estava com um barrigão de 7 meses quando conseguiram alugar uma casa no Butantã, e Caetano nasceu ali. "Mas o Marcão trabalhava muito. Saía cedo e só voltava à noite, quando conseguia dar banho e colocar Caê para dormir", conta Cristina.


Com vontade de ver o filho crescer e aproveitá-lo a cada momento, Marcão e Cristina mudaram os planos e, depois de um convite do irmão da Cristina para irem ao Canadá, o casal sentiu de novo a vontade de estar na estrada. E, claro, como amantes do mundo, não passou pela cabeça deles irem para o Canadá de avião. "Tinha que ser de carro", disseram.


Com 1 ano e 7 meses, Caetano colocou os pezinhos na estrada e começou sua vida de viajante. "O Caetano tinha um ano e a ideia era passar pela Patagônia , onde faz frio e venta muito". Em outubro de 2014, eles saíram do Brasil e no caminho para Ushuaia, na Argentina, foram descobrindo como era ficar 24 horas juntos, em um motorhome.


"Percebemos que seria muito intenso. Fomos descobrindo como é viver assim, gastando menos, sem ter que pagar hotel."Cristina conta que, ainda que eles estejam em lugares turísticos onde qualquer pessoa pode pegar um avião e ir, eles vivem experiências incríveis como dormir em lugares fantásticos.


Em 90% das vezes, eles ficam de graça nos lugares. Quando precisam pagar um camping, por exemplo, Marcão, que fotografa, oferece o serviço de fotografia em troca da hospedagem.


Quando estava no Chile, Cristina engravidou e descobriu a gravidez no Peru. "Entrei em contato com a parteira do meu primeiro parto e, por e-mail, ela me orientava sobre exames que deveria fazer. Então, fui fazendo o pré-natal por onde passava. Eu buscava os melhores hospitais da região. Era sempre muito engraçado ter que explicar a quem me atendia que morava em um motohome”, lembra.

Pelos planos do casal, o bebê (eles só souberam o sexo quando nasceu) poderia nascer no Panamá ou Costa Rica. "Mas a irmã do Marcão teve um câncer arrebatador e a família nos pediu que voltássemos ao Brasil. Neste momento, estávamos na Colômbia e eu estava grávida de 7 meses. Estacionamos nossa casa no aeroporto de Bogotá, e fomos para São Paulo. Chegamos, já fomos para o hospital visitá-la. Ela faleceu no dia seguinte à nossa visita", recorda.


A morte da irmã do Marcão foi um marco para aos nômades, que decidiram ficar mais um tempo no Brasil para dar suporte à família. "Tereza quis nascer brasileira, na casa da minha mãe. Foi uma experiência bem linda", lembra Cristina.


Quando a bebê fez três meses, eles conversaram com o pediatra e resolveram voltar para casa, ou melhor, para a estrada. "O médico foi super sensato e nos disse que em qualquer lugar do mundo há crianças pequenas. E se estávamos com vontade de ir, deveríamos ir."


Eles voltaram para Bogotá e, com a recém-nascida, curtiram o mar do Caribe, no Norte da Colômbia. "Ficamos um ano e meio por lá. Até um ano de idade, a Tereza nunca tinha colocado uma meia nos pés. Ficava só pelada. Foi um pós-parto maravilhoso, bem diferente do meu puerpério em São Paulo com Caetano", compara.


"Eu me sentiria um pouco mal de criá-los em São Paulo, cidade grande e caótica"


Ao mesmo tempo em que ficar 24 horas ao lado da família é a realização de um sonho para Cristina, ela reconhece que não é tão fácil quanto parece. "Não ter família, escola, tio, tias para serem rede de apoio e ficarem um final de semana com eles é bem puxado. Mas, para o que queremos como estilo de vida, a nossa proposta é mesmo essa. Não é fácil, mas a recompensa é sempre muito boa."


Cristina conta com orgulho ver cada passinho e aprendizado deles. "Não é uma babá, uma professora que divide a atenção com 20 ou 30 alunos. Somos nós, pais, que estamos ali, respondendo cada dúvida, cada pensamento, e isso é o mais rico."


Ela confessa que, na loucura do dia a dia, às vezes se perde, mas tenta se lembrar da oportunidade que está tendo de estar ao lados dos filhos. "Tento sempre me lembrar de como é bom estar com eles, de como é bom podermos guiá-los para eles serem quem são, sem serem moldados pela sociedade".


Ela se considera privilegiada por poder acompanhar os filhos de pertinho. "Estou tendo a oportunidade de fazer isso porque vivo numa bolha com eles. Eles podem ser quem eles são. Para muita gente, esse tipo de vida pode ser ruim, mas não vejo nada de ruim nisso. Eles são saudáveis, criativos, sabem brincar com o pouco que têm. Sobem em árvores, brincam com gravetos que acham. Vivemos com pouco, com o que cabe no carro, cientes de que aquilo que não cabe tem que sair".

Os dois, segundo os pais, não vivem o consumismo. "É raro também eles ficarem doentes. Tivemos que ir ao médico uma única vez, quando Caetano era bebê e teve uma alergia no Chile. Tenho uma farmacinha em casa e os remédios perdem a validade sem uso", orgulha-se, lembrando que os filhos estão sempre ao ar livre.


Eles não têm uma rotina específica, mas há um ritmo seguido pela família. Eles acordam por volta das 8h30, sem despertador, e tomam café juntos. "Conversamos, fazemos os planos do dia e saímos pra rua para brincar. Pela manhã, o Marcão fica com eles e eu arrumo a casa, faço o almoço. À tarde, trocamos. Marcão trabalha com as suas coisas, como venda de fotos online ou nosso aluguel do apartamento no Brasil, e eu fico com as crianças".




Todos os dias, depois do café da manhã, Caetano faz uma atividade de ler e escrever. "Cada dia tem algo diferente. Mas o que eles mais aprendem não são com essas atividades, mas, sim, quando estão em contato com a natureza. Se estamos diante de um céu bem estrelado, falamos sobre constelações, planetas. De um tema, podemos ir para outros, como física, matemática, geografia".


Caetano fala espanhol, inglês e português. Aprendeu sozinho. "Ele conversa com qualquer pessoa. Faz amizade fácil, tem uma liderança natural dele. É bonito vê-lo crescer", afirma. 


Para Cristina, essa experiência estará impressa em cada parte do corpo deles. "Eu não mudaria nada disso. Eu me sentiria um pouco mal de criá-los em São Paulo, cidade grande e caótica, onde as pessoas vivem estressadas, preocupadas".


Para 2020, a família pretende vir para o Brasil e morar por uns dois anos no sul da Bahia, para que as crianças saibam como é viver em solo brasileiro.



Para saber mais sobre eles, entre no instagram @onossoquintal