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Cadê o pai dessa criança?

Atualizado: Ago 24

Brasil tem 11 milhões de mulheres que criam seus filhos sem a presença paterna. Neste Dia dos Pais, entrevistamos mães solos sobre suas lutas e glórias em um país machista




Por Luciane Evans

Elas não são guerreiras ou, muito menos, possuem uma força especial para darem conta de tudo. São mulheres que choram, se sentem só, cansadas, têm raiva, medos e angústias. Se multiplicam em 3, 4, 5... para conseguir dar banho, brincar, pôr para dormir, acompanhar a escola, trabalhar, educar e alimentar seus filhos. Mesmo assim, a primeira pergunta que lhes fazem é: "cadê o pai dessa criança?"

Vivemos em uma sociedade para qual a presença de um homem na família é sinal de felicidade, independentemente de qualquer coisa. Prova disso é que, nos últimos dias, a empresa Natura, em homenagem ao Dia dos Pais, veiculou propaganda com ator Thammy Miranda, filho transexual da cantora Gretchen, na campanha "Meu Pai Presente". Thammy sofreu ataques preconceituosos daqueles que não o consideram pai por ser trans.

Os ataques levantaram a discussão: o Dia dos Pais é para quem?

Embora seja uma data comercial, a luta por nomeá-la para Dia da Família é ponto forte para a desconstrução da ideia tradicional de núcleo familiar, deixando o dia mais próximo da realidade brasileira, na qual há uma epidemia de abandono paterno.


Cerca de 80% das crianças brasileiras têm como primeiro responsável uma mulher. São 11, 5 milhões de mães solo no Brasil que não contam com a presença nem auxílio dos pais de seus filhos. São 5,5 milhões de meninos e meninas sem o nome do pai no registro de nascimento, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Quem defendeu o ator contra os ataques transfóbicos e machistas usou exatamente o argumento de que ser pai pouco tem a ver com ser homem, mas, sim, com a presença na vida dos filhos.

Disso as mães solos têm conhecimento de sobra. Conversamos com elas, as mulheres que criam seus filhos sem a presença paterna, para abrir a discussão sobre essa realidade que é tão cruel e, ao mesmo tempo, naturalizada no Brasil.

Angie Cunha, mãe solo e idealizadora do projeto @maternidade.solo.real diz que o Dia dos Pais é apenas uma data comercial. "Valores de pai não se medem por um dia de homenagem e, sim, no dia a dia do que você é para seu filho. Deve ser comemorado por quem é na prática um pai de verdade. Quem apenas colocou no mundo e abandonou não merece homenagens. Não dá para chamar de pai um cara que posta uma foto no Dia dos Pais e no resto do ano deixa a criança passar fome, sem amor e sem auxílio algum", critica.

A atriz e autora do @negramanhê_sou Naiara Augusta sugere que o Dia dos Pais deveria ser nomeado como Dia dos Pais Presentes Afetiva e Financeiramente. Negra e mãe solo em Belo Horizonte, ela reforça que 60% das mulheres negras estão criando sozinhas seus filhos. Para elas, o preconceito e a luta são ainda maiores em relação ao abandono paterno.

"Eu sou uma das que, por meus princípios de igualdade, jamais aceitaria me doar integralmente para quem só dispensa 20% de sua capacidade de se esforçar para que a família e a criança convivam harmonicamente”, defende Shayana Busson, mãe solo e professora de história.


Abandono, ausência e o termo mãe solo


Há diferenças significativas entre abandono e ausência paterna. "Entende-se por ausência algo que acontece em inúmeras famílias, muitas vezes ocasionado por circunstâncias da vida, como é o caso das viúvas ou casais de mulheres", comenta a psicóloga, doutora em educação e feminista, Anna Cláudia Eutrópio.


Por outro lado, o abandono é uma escolha, uma decisão tomada por quem decidiu não vivenciar a criação dos filhos.


O termo mãe solo, tão usado nos dias atuais, também depende de diversos contextos.

"É um termo que não tem vínculo nenhum com o estado civil de uma mulher ou de gênero", explica a psicóloga Alessandra Viegas, que é mãe solo e idealizadora da rede Mãe Solo de Belo Horizonte.

Ela diz que, quando a divisão de tarefas em uma família não é justa e a conta não fecha para um lado, essa mulher é mãe solo. "É um sentimento dela e ela se reconhece assim. Você pode ser mãe solo mesmo casada, numa relação em que a outra pessoa é apenas provedor e não se envolve nas dinâmicas diárias dos filhos nem emocionalmente com ele. Essa pessoa não precisa ser necessariamente um homem, um marido", esclarece Alessandra.

Para aquelas que são casadas com um homem e não têm a divisão igualitária na criação dos filhos, enxergar-se como mãe solo pode ser mais difícil. "A sociedade espera que nós mulheres sejamos mães acima de qualquer outra função em nossa vida. Então, essas têm dificuldades até de se identificar como mãe solo, porque acreditam que estão fazendo o seu papel na maternidade", diz.


Há também a mãe solo por adoção, que é aquela mulher que decidiu ter um filho e não tem um companheiro ou companheira para dividir essa responsabilidade. "Há mãe solo viúva, e mãe solo separada de um homem que não quer paternar", cita Alessandra.

Outra possibilidade é a mãe solo por separação, que, com o fim do casamento, fica com a guarda do filho e o pai o vê algumas vezes no mês, sem compromisso ou interesse por exercer a paternidade responsável.


Emoções


Os sentimentos também são diversos para cada história. "O termo mãe solo é muito abrangente e consegue capturar a mulher em condições diferentes de solidão e de realidades", complementa Alessandra.

As emoções, inclusive, ajudam a entender mais as várias maternidades existentes. Para uma mulher que optou por ser mãe solo, segundo comenta Alessandra, há uma aceitação maior da condição de criar o filho só. Já aquelas que não escolheram essa realidade, se sentem injustiçada, anulada e há um sentimento de raiva. "Porque há um pai que deveria exercer sua função, mas, simplesmente, sai de cena. Isso é um gerador de angústia, ansiedade, raiva. Algumas até adoecem."


Somado a isso, há a cobrança da sociedade para que essa mulher dê conta da casa, dos filhos e do trabalho, conforme critica Angie Cunha, que com a página @maternidade.solo.real recebe o desabafo de várias mães sobrecarregadas. "Mãe solo não é heroína, não tem super-poderes. Ela não tem opção e, pela criança, se vira em mil, às vezes à custa da própria saúde mental, tendo problemas como depressão e ansiedade", alerta.


Impactos


Uma das maiores preocupações das mães solos é como o abandono paterno pode impactar na vida adulta de seus filhos. Uma questão que, segundo explica Alessandra Viegas, é complexa, uma vez que "não é fórmula de felicidade ou de sucesso uma família composta por um homem, uma mulher e uma criança".

Ela acredita, inclusive, que tudo vai depender da construção da história dessa criança com a mãe. "Não há uma lista de impactos que vai ocorrer em todo filho de mãe solo. Existe, sim, uma forma de como a família vai lidar com a ausência ou abandono”, esclarece.

Anna Cláudia Trópio ressalta que quando há a história do pai que existiu e não está mais presente, seja porque encontrou outra família ou não quis assumir a gravidez daquela mulher, há um ressentimento da mãe. "Pode haver um impacto na construção da própria história da pessoa, inclusive, o da fantasia de que se fez algo errado para gerar o abandono", conta, explicando ser algo no nível do inconsciente.

Para Anna, é necessário enfrentarmos isso enquanto sociedade e passarmos pela desconstrução do modelo patriarcal. "É preciso construir modelo de paternidade associado ao cuidado. É necessária a construção de uma narrativa verdadeira de um abandono paterno, explicitando que foi uma decisão do adulto e que não tem nada a ver com a criança nem o adolescente."

"Colocar o adulto como responsável pelos seus atos facilita que os demais participantes, como as crianças, enxerguem que não fizeram nada de errado. É importante que as famílias construam narrativas que deixam explícita a decisão do adulto", diz Anna, lembrando que o abandono é uma questão de escolha e a ausência pode não ser.

Conheça essas histórias


Para este Dia dos Pais, conversamos com as mulheres que esperavam dividir com o pai dos filhos a responsabilidade, dores e alegrias de criar uma criança. No entanto, a realidade foi outra para elas. Nessas entrevistas, elas contam o que é ser mãe solo num país machista, os medos, preconceitos e sonhos que carregam.




"A sociedade está pouco se lixando para mães solo. Somos julgadas como putas, como aquela que deu o golpe da barriga ou que não soube escolher bem o pai dos filhos. Eu fui casada por quase 12 anos, quando iria imaginar que passaria por tudo isso sozinha? Eu não escolhi ser mãe solo, fui obrigada, não tive opção”, dispara.

Leia a história de Angie Cunha aqui





"A culpa está em carregar esse peso sendo mulher negra e periférica, diante de uma sociedade racista, machista e sexista. Está na sobrecarga da mulher negra na educação solo de um filho, sendo que a maior parte delas possui mais de dois filhos. Está nas dores para ensinar seus meninos e meninas a se defenderem do racismo e a combaterem o racismo institucionalizado..."

Leia a história de Naiara Augusta aqui





"Decidi ir embora da cidade, não sem antes tentar um acordo de separação com ele. Sem sucesso. Ele simplesmente não me perguntou onde eu arranjaria dinheiro para dar comida para Áyron. Eu estava desempregada. Ele nunca me perguntou se eu teria fogão, geladeira ou colchão"


Leia a história de Shayana Busson aqui











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