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Ato de amor e resistência

Atualizado: 7 de Out de 2019

Documentário De Peito Aberto estreia em BH no dia 10 e traz reflexão sobre as dificuldades e desamparo das mulheres que tentam exercer seus direitos e os do bebê na amamentação


Filme acompanhou seis mães durante os primeiros 180 dias de vida de seus fihos, e constatou: dar o peito no Brasil é ato politico

Por Luciane Evans


É a sogra que diz que seu leite deve ser fraco e não está sendo suficiente. É a creche que recusa dar ao seu bebê o leite armazenado, aquele para qual você dedicou um bom tempo para retirar. São, inclusive, os muitos médicos que empurram a fórmula láctea a todo tipo de bebês e desacreditam no seu poder de dar o peito. “Amamentar é lutar contra tudo e contra todos. É um ato político”, dispara a documentarista Graziela Mantoanelli, para quem a amamentação também foi de resistência e coragem.


Graziela, depois de passar por muitas dificuldades para dar peito a sua filha Clara e, inclusive, enfrentar uma depressão no puerpério, resolveu dar vozes às mulheres reais e contar como é amamentar no Brasil, sem maquiagens ou romantismos. É dela o documentário De Peito Aberto, que estreou no país no dia 3 de outubro com a missão de levantar uma discussão necessária e urgente sobre os desafios do aleitamento materno.


Em Belo Horizonte, o longa chega ao Cine Belas Artes no dia 10, graças ao movimento de mulheres mães da capital mineira que, por meio das redes sociais, incentivou o cine a transmitir o documentário.

“Foi muito interessante. As mães mineiras começaram a marcar o cinema nas nossas postagens e, logo, as portas foram abertas para nós”, comenta Graziela. A principio, ele estava previsto para estrear em BH no último dia 3, mas foi adiado para a próxima quinta.


O entusiasmo em torno do longa é porque ele traz um lado da amamentação pouco divulgado, mas tão comum entre aquelas que decidiram por amamentar. O filme acompanhou a saga de seis mães de diferentes realidades durante os primeiros 180 dias de vida de seus bebês. E comprovou o que muitas mulheres dizem: dar o peito é ato politico. Isso porque, conforme explica Graziela, o desmame precoce no Brasil é influenciado por diversos fatores que vão de encontro ao preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS): a amamentação exclusiva até os seis meses de vida do bebê.


Reconstruir a cultura da amamentação


A média brasileira de aleitamento exclusivo é de 54 dias. Uma diferença gigantesca para os 180 dias recomendados. Quem tenta cumprir as diretrizes da OMS tem batalhas árduas pela frente, que vão desde as emoções, passando pela maternidade e trabalho, licença maternidade, políticas públicas até os interesses privados por trás do desmame precoce.


Os problemas e dificuldades se tornam, muitas vezes, fatores de desistência de muitas mães em cumprir a recomendação mínima da OMS, o que gera culpa e desamparo. Graziela reforça que a sociedade não é empática com as mães. “Há uma série de embates. Há o preconceito daquele que chama o segurança do shopping porque a mulher está amamentando na sua frente, das empresas que não dão o suporte para a mulher amamentar quando retorna da licença maternidade”, enumera.


Ela também relata que, quando teve sua filha, trabalhava como atriz e, até mesmo no meio artístico, sofreu preconceitos ao tentar amamentar no trabalho. “Para ser uma boa profissional, você tem que fingir que não é mãe", critica.


"Queria mostrar a realidade e o que acontece na madrugada com essas mães”, diz Graziela

Graziela, então, passou a trabalhar em casa com produção cultural. Foi quando estava fazendo um filme sobre alimentação que veio a ideia do documentário. “Fomos entrevistar a Bela Gil, no Rio de Janeiro, e ela contou a história da alimentação apontando o leite materno como o primeiro e mais rico alimento”, conta.


Como não queria fazer um filme para convencer as pessoas disso, já que todo mundo está ciente dos benefícios que o leite materno traz, ela trouxe às telas a amamentação sem maquiagem ou romantismo. "Queria mostrar a realidade e o que acontece na madrugada com essas mães”, revela.


Mais do que uma identificação das mulheres com o que é dito no filme, o objetivo do De Peito Aberto é reconstruir a cultura do aleitamento "do mesmo jeito que o Brasil está reconstruindo a cultura do parto", provoca Graziela.



Interesses por trás do desmame precoce


O documentário pretende também ajudar as mulheres no seu poder de escolha, já que nem sempre o desejo delas é o de amamentar. “Sou favor do aleitamento, mas uma coisa que acho fundamental é dar às mulheres o poder da escolha – afinal, o corpo é delas. Cada uma deve decidir se quer amamentar ou não, mas para isso temos que ter informações precisas, realidade que não acontece com a maioria das mulheres.”


De Peito Aberto traz paras as telas entrevistas com especialistas renomados, como a terapeuta argentina especializada em maternidade Laura Gutman e o pediatra espanhol Carlos González, que são a favor do aleitamento e críticos severos do sistema que tenta desencorajar a mulher que amamenta.

Aliás, a indústria das fórmulas infantis e a relação delas com os médicos é outra questão levantada pelo longa. “Aqui em São Paulo, podemos contar nos dedos os profissionais da medicina pró-aleitamento”, diz. Quando sua filha Clara nasceu, há 6 anos, Graziela foi orientada por um pediatra a dar fórmula a bebê que estava com 20 dias de vida.


“A Clara nasceu prematura de 35 semanas e chorava muito para mamar. O médico, então, me mandou preparar uma mamadeira de 120 ml, sendo que ela não pesava nem 2,5 kg. Ali, vi que tinha uma coisa errada”. Graziela procurou outra médica, particular, e foi incentivada a amamentar. Clara mamou até 3 anos.




Lançar documentário também é resistência


Assim como a batalha pela amamentação, Graziela enfrentou a saga de produzir um documentário no país. “Foram dois anos tentando lançar o longa e já estava quase desistindo”, diz. O documentário nasceu em 2015, se transformando em uma grande campanha de financiamento coletivo, com 700 mulheres. O valor arrecadado foi suficiente para custear os oitos meses de filmagem, e depois, a grana para tratamento, montagem, trilha sonora, saiu do bolso da Graziela e do marido, Leonardo Brant, produtor do filme.


Tentando levar o De Peito Aberto para as salas de cinema sem sucesso, ela decidiu apresentá-lo somente às mulheres benfeitoras. “Abrimos uma sessão pra elas e a procura foi maior. Então, conseguimos fechar com uma distribuidora”, comemora, comparando a luta de amamentar com a de produção audiovisual no Brasil. “É tão difícil quanto”, conclui.


Em Belo Horizonte, De Peito Aberto estará em cartaz no Cine Belas Artes a partir do dia 10 de outubro.


Assista ao trailer aqui