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As vozes dos filhos adotivos

Jornalista Alexandre Lucchese lança livro com relatos dos filhos do coração e levanta reflexão sobre a adoção na perspectiva de quem é adotado


Alexandre Lucchese é filho adotivo e reuniu 12 relatos de homens e mulheres que foram adotados. (Foto/Divulgação)

Por Luciane Evans


Durante muitos anos, nas histórias contadas sobre adoção, a família que recebia o novo membro era quem compartilhava expectativas, superação, sonhos e dificuldades. Era raro, por muitos motivos, os filhos adotivos compartilharem publicamente suas emoções e perspectivas sobre a adoção.

Agora, a geração que foi adotada há cerca de 30 anos quer dividir suas histórias, tornando o debate sobre ser adotado e adotar ainda mais interessante. "É um assunto que, geralmente, é mais abordado pelos pais e pelas autoridades. Não que seja um tabu, mas é uma questão da maturidade do tema", diz o jornalista e escritor Alexandre Lucchese.

Ele faz parte da geração que tem falado e compartilhado reflexões sobre adoção. Filho adotivo, Alexandre tem 38 anos e, nos últimos anos, mergulhou no tema, reunindo relatos de pessoas com a experiência de viver em uma família que não é sua família biológica. Com essas vivências, Alexandre escreveu o livro Vida de Adotivo, lançado nos últimos dias, com venda pela internet, e tem como o diferencial o ponto de vista dos filhos.


A obra propõe outros adotivos a compreenderem melhor suas próprias questões, bem como auxiliar pais e outros familiares a se aproximarem de dúvidas e angústias que até mesmo quem foi adotado tem dificuldade em reconhecer. 

"A minha geração, talvez, seja a primeira que esteja falando sobre esse tema com mais profundidade", diz. Isso porque o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que regulamentou a adoção no país, tem 30 anos, e o Cadastro Nacional de Adoção (CNA) tem apenas 12 anos.


"É um tema que foi se estruturando na sociedade com o tempo. Com a legislação, os pais ficaram mais preparados, o processo também. As coisas foram tendo mais maturidade, a ponto de nós podermos discutir sobre isso", avalia.

Alexandre tem um filho biológico, de 10 meses, e define família como afeto e encontro. "É busca, carinho e cuidado. Há filhos que crescem dentro de uma família biológica e não são completamente adotados", enfatiza.

Pluralidade

Em cada história sobre adoção há tristezas, alegrias, frustrações, esperanças que pertencem a cada indivíduo e sua vivência. A geração que quer falar tem muito a contar. Alexandre, que tem a própria história e já ouviu tantas outras, diz que os filhos adotivos da sua geração não foram silenciados.

"Nós não nos incluíamos, não íamos atrás de falar sobre o assunto como estamos falando agora. Estamos nos ouvindo e nos fazendo ouvir." Para o seu livro, ele buscou a pluralidade dos relatos, já que acredita não existir um "jeito único de ser adotivo, de lidar com determinadas questões" e tem certeza de que não há as mesmas questões sempre.

Embora cada relato seja único, Alexandre percebe que, entre os filhos adotivos, há o certo receio do abandono. "O de criar vínculos e, de repente, ser deixado por eles. Ainda que a adoção não seja um abandono, para alguns é como se fosse."

Para Vicente de Almeida Campos, de 32 anos, que foi adotado quando bebê e só soube em 2020 a sua história, as famílias não deveriam nunca esconder a verdade das crianças que foram adotadas, por mais que isso doa. "Sei que meus pais adotivos tentaram me poupar de sofrimentos, mas seria melhor se tivessem sido transparentes desde sempre", afirma.

Alexandre comenta que esconder nunca é bom. "As pessoas acabam vivendo em um mundo de fantasias. É bom contar a história mesmo para os bebês, porque as crianças vão crescendo ouvindo seus pais falarem sobre a adoção e isso vai se tornando natural para elas. E as famílias acabam se acostumando a falar sobre o tema, porque, para elas, isso também pode gerar ansiedade”, diz.

Família biológica

Alexandre foi adotado desde o seu primeiro dia de vida. "O meu pai adotivo é médico e acompanhou o pré-natal da minha mãe que queria doar um bebê. Eu nasci, meu pai fez o meu parto e me encaminhou para a minha família", conta.

Ele cresceu sabendo a sua história e pensava que não tinha interesse sobre o tema, até que, em um determinado momento, começou a se questionar sobre a vida e viu que o assunto era, sim, importante para ele. "Comecei a fazer terapia e decidi ir em busca da minha família biológica e a conheci. Foi um processo bem interessante. Melhorou, inclusive, a minha relação com a minha família", revela.

Esse "saber mais sobre a própria história" despertou em Leila Donária recentemente, quando ela se preparava para ser doula de adoção, numa aula de constelação familiar. Leila cresceu sabendo que foi adotada, mas nunca se interessou em saber mais detalhes sobre isso.

Leila Donária é adotada, tem um filho e adotou uma menina

"Sempre senti pela minha genitora uma gratidão imensa por ela não ter me abortado e por ela ter me dado a vida. Sempre que a minha mãe tentava falar sobre ela, eu não queria ouvir", comenta Leila.


Com a constelação familiar, ela pensou no quanto a mãe biológica poderia ter sofrido a sua ausência e quis saber mais sobre essa história.


Ela conta que Ruth, a sua mãe adotiva, era gerente em um hospital e soube que um bebê, que tinha acabado de nascer, tinha sido entregue para a adoção.

"A minha genitora era viúva e tinha cinco filhos. Ela morava com o pai e os irmãos, e contou à minha mãe que tinha medo do que eles poderiam fazer com a criança, então, me entregou para a adoção assim que nasci", relata Leila. Ruth, na época solteira e com cerca de 40 anos, quando a viu pela primeira vez, se apaixonou e quis adotá-la. Com três dias de vida, Leila já tinha a sua nova família.

Preconceitos

À medida que o país está se amadurecendo sobre o tema e os filhos adotivos estão falando mais sobre suas experiências, o preconceito está diminuindo, conforme observa Alexandre.

"As pessoas têm mais informação e estão conhecendo mais famílias que adotaram seus filhos. No entanto, há ainda a discriminação pela cor da pele. Percebo que crianças negras adotas por brancos circulam em ambientes que podem sofrer preconceitos", diz. Em sua pesquisa, conseguiu o relato de um jovem, maior de 18 anos, que foi adotado por um casal homoafetivo. "Ele sofreu mais preconceito por ser negro numa sociedade racista do que por ter dois pais."

"Na minha casa, o fato de eu ser uma filha adotada nunca foi motivo de cochicho ou de preconceito. Quando eu me lembrava que não era filha biológica, era um reforço sobre o quanto eu fui querida e desejada, e da forte conexão entre mim e minha mãe Ruth", orgulha-se Neila.

No entanto, em sua história como mãe adotiva, Leila sofreu preconceitos. Recentemente, ela adotou uma menina de 9 anos. "Eu e meu marido conversávamos sobre isso desde sempre. Tivemos o nosso primeiro filho biológico, que tem uma síndrome rara. Tínhamos a certeza de que queríamos a adotar. Entramos, em março de 2019, na fila da adoção, quando ainda buscávamos o diagnóstico dele. Em novembro recebemos a ligação de que nossa filha estava a caminho."

A rapidez do processo é, conforme reforça Leila, por ser uma adoção tardia (de crianças maiores). "Sofri muito preconceito ao adotar uma criança maior porque as pessoas não conseguem enxergar a adoção tardia com sucesso. Sempre tem a ideia de personalidade construída, além disso, as pessoas sempre têm uma história para contar ruim sobre o assunto, mesmo que você não esteja perguntando", critica Leila, que finaliza o processo de adoção de sua filha agora em 2020 e diz estar muito feliz.

No Brasil, boa parte das pessoas que adotam tem preferências que fogem da realidade da maioria das crianças à disposição. A maioria prefere os menores de 3 anos e com a pele branca. De acordo com dados recentes do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), há 4.368 crianças disponíveis para a adoção no Brasil, e 42.795 pretendentes.