• Cria Para o Mundo

As transformações que chegam com a maternidade

Atualizado: 14 de Nov de 2019

A chegada de um filho traz mudanças físicas, psíquicas e emocionais para a mulher. É preciso rede de apoio e abandono da idealização do "ser mãe" para se reencontrar. 





Por Nathalia Ilovatte e Luciane Evans


A rotina não é mais a mesma, o humor oscila, as prioridades mudam. A noção de tempo é outra, os relacionamentos saem do eixo, o corpo fica irreconhecível e aquela no espelho vira uma mulher completamente estranha. Levante a mão a mãe que não sentiu esse turbilhão de mudanças com chegada de um filho. 


Com um bebê no colo, a roupa cheirando a leite e a sensação de que a vida toda saiu do lugar, o mantra “vai passar” costuma ser repetido à exaustão, se não pela puérpera, então pelas amigas que tentam apoiá-la. E, de fato, cedo ou tarde esse vendaval acaba passando. Mas o que ninguém conta é que tudo aquilo que ele tirou do lugar não volta para a exata posição em que estava antes. 


Um estudo da Universitad Autonoma de Barcelona desenvolvido em parceria com a Leiden University, da Holanda, e publicado em 2016 constatou que a massa cinzenta diminui consideravelmente em áreas específicas do cérebro das mulheres quando elas se tornam mães. As mudanças ajudam a identificar as necessidades do bebê, ficar atenta a ameaças e criar vínculos com a criança.


“Isso é chamado de poda sináptica”, explica a psicóloga clínica Cristina Veríssimo, especializada no atendimento a mulheres.  “É um processo parecido com o que acontece no começo da infância e início da adolescência. Essa poda sináptica não indica uma perda de capacidade, pelo contrário, mostra que uma área do cérebro se tornou mais especializada”.


Diante da comprovação científica, fica difícil negar a reviravolta que um filho promove na vida da mãe. E não há crime algum em admitir isso para si mesma e para a sociedade. 

 

“Considerando essas mudanças, é possível pensar no quão factível é uma mulher passar por transformações com relação à sua vida e estilo de vida”, pondera a psicóloga, para quem o nascer como mãe e se ligar afetivamente a uma criança pode ressignificar toda a vida de uma mulher “e fazê-la questionar escolhas e padrões antes tão naturalizados”.

O ponto principal para o fluir dessa travessia está na desromantização e na desconstrução do que foi idealizado sobre a vida materna e a relação com a cria.  “Vivemos num contexto que romantiza a maternidade e afirma existir um instinto materno, no qual o amor e o laço com a criança vão acontecer a partir do positivo. O que não é verdade. A maternidade é um laço a ser construído, e que pode ou não acontecer”, esclarece Cristina. 


Da mesma forma que uma criança não nasce “pronta”, uma mãe não se faz da noite para o dia, conforme enfatiza a psiquiatra e psicanalista Gilda Paoliello. Como não há um padrão materno, Gilda explica que cada mulher pode viver de uma forma a chegada de um filho. “Ela pode estar relativamente tranquila, mas se entristecer, ou mesmo se deprimir, pelo descompasso com as suas expectativas."


Essas mudanças, segundo a médica, têm, sim, influências hormonais, mas não é só isso. “Cada mulher vive esse momento com suas próprias características de personalidade. E cada uma precisa de um determinado “tempo de delicadeza” para aprender a conviver com sua nova realidade, que inclui um novo ser”, aconselha a psiquiatra.





Mudanças se intensificam no puerpério

Embora tudo comece na gravidez, esse processo se intensifica no famigerado puerpério, o período logo após o nascimento do bebê, quando os hormônios ainda não estão estabilizados, as emoções oscilam e a mulher se recupera, física e psicologicamente, da intensa experiência de gestar e parir. 


O puerpério, conforme esclarece a  ginecologista e obstetra Carolina Giarolla, começa uma a duas horas após a saída da placenta no parto e tem seu término imprevisto. “Além disso, enquanto a mulher amamentar, estará sofrendo alterações de gestação”, afirma Carolina, que trabalha  como médica na Santa Casa de Misericórdia de Lavras, no Sul de Minas. 


No aspecto físico, ela concorda que as transformações para a mãe que gera um filho são intensas.

“Pode demorar meses para que o corpo da mulher volte ao que era antes. O útero, por exemplo, gasta de 3 a 4 meses para retornar ao seu estado de antes da gestação”, afirma a ginecologista, destacando que as alterações do humor, ocasionadas por questões hormonais,  são fenômenos transitórios e que o mais importante para a mulher "nesse momento de transformação é a rede de apoio".

Além de médica, a ginecologista há pouco se tornou mãe de Alice e confessa estar sentindo as transformações da maternidade, tanto em aspectos pessoais quanto profissionais.


Maternidade trouxe mudanças na relação profissional da médica ginecologista e obstetra, Carolina Giarolla.

“Já não era `agarrada` a dinheiro. Agora, menos ainda. O meu tempo é de acordo com o da babá.” Ela conta que com as suas pacientes está mais atenciosa e empática. “Antes, nas consultas, não falava sobre sono do bebê, introdução alimentar, entre outros. Agora, falo sobre tudo isso, inclusive, sobre o puerpério, em que tento ajudar ao máximo.”  


Numa visão comportamental, a psicóloga Cristina Veríssimo acredita que o puerpério pode ser um luto, pois acontecem perdas simbólicas: o parto não ser como o planejado, a mulher não ser assistida por profissionais que desejou, não haver a participação esperada do companheiro, ela precisar refazer seus planos de vida profissional, perder o tempo para si com as demandas da criança e ver as transformações com o próprio corpo. 


 “Junto a essa fase, vem um longo período de elaboração das perdas que essa mulher viveu, na qual ela resgata cenas anteriores marcantes que fundaram sua identidade feminina, que nesse momento está em questionamento e transformação. É uma fase em que há muito a ser vivido,  pensado, sentido, transformado. Junto com isso, também existe uma criança com demandas enormes, que exige física e emocionalmente essa mãe”, observa a psicóloga.

Rede de apoio é fundamental


Não se trata, portanto, de romantizar a maternidade. É fato: para melhor ou pior, a vida se transforma. “Muitas mulheres relatam mudanças importantíssimas em suas vidas após a maternidade: capacidade de doação, valores mais perenes, amadurecimento, projetos de vida mais realísticos mas sem perder a capacidade de sonhar, posições menos egoístas”, comenta a psiquiatra e psicanalista Gilda Paoliello. 


Por outro lado, a médica diz que muitas outras mulheres se sentem inseguras ou até mesmo ameaçadas por este novo ser com o qual passam a dividir a vida. “Às vezes se sentem invadidas, às vezes revoltadas por não terem tempo para si mesmas, por todos se darem o direito de palpitar das formas mais discrepantes sobre sua vida, quando ela mesma nem ao menos se reconhece”, diz.


As especialistas ouvidas pelo Cria Para o Mundo reforçam o coro de que é preciso uma rede de apoio para essa mulher que está recebendo um filho. “É importante ela ter esse amparo, tão essencial para criar suas crianças e para poder seguir com a própria vida. Além disso, descobrir formas de se reconhecer e cuidar emocionalmente, como através da terapia, para entender como é essa mulher reinventada e para onde ela pode seguir. A partir disso, é possível construir resistência para seguir com seus novos planos e desejos, apesar de todo campo tóxico existente ao redor”, analisa a psicóloga Cristina.


A psiquiatra Gilda acrescenta que é preciso a mulher ter consciência de que não se nasce sabendo o que é ser mãe. “Esta é uma construção que ela fará, a partir da experiência da maternidade, que se distancia muito da idealização. Então, o tempo será fundamental para este aprendizado, e é bom lembrar também que a angústia de enfrentar a nova condição de vida estará presente”, avisa, dizendo ser natural se sentir solitária, amedrontada, sem saber o que fazer quando o bebê não para de chorar.


“Mas ninguém disse isso para você! Então converse, fale para quem está por perto o que está sentindo, peça socorro, não se cale, porque não é fácil ser mãe”, alerta a psiquiatra.




Novos caminhos para se reencontrar


Se a mudança é inevitável, reiventar-se parece ser a única opção para levar uma vida plena. Muitas mulheres, assim, acabam fazendo do limão uma limonada.  “Muitas vezes a mulher se vê sem espaço para se reinserir na própria vida e a única saída existente é reconstruir a vida num ponto completamente novo, para, assim, conseguir se sentir pertencente novamente”, diz a psicóloga Cristina Veríssimo. 


Para a metamorfose pós-maternidade não há caminho certo ou errado. E embora o ditado pregue que mãe é tudo igual, é preciso humanizá-la. Cada mulher é um indivíduo único, de personalidade própria, cheio de anseios e que merece traçar os próprios rumos. É certo que a mudança virá para todas, querendo ou não. Mas cabe a cada uma descobrir o que fazer com isso.


“Justamente por existir um ideal romântico de maternidade, é importante a mulher trabalhar seus desejos e escolhas a partir dela mesma, para não se ver imposta a seguir um caminho que não é genuinamente o que deseja construir”, aconselha a psicóloga. 

Segundo ela, a busca por um caminho para se reinventar é interna. “Especialmente com as demandas atuais, em que a mulher deve ser uma mãe que se entrega inteiramente à sua cria, mas também precisa trabalhar fora, dar conta da casa e do parceiro, ter um corpo perfeito, uma alimentação equilibrada e etc. É um conjunto extremo de deveres que, muitas vezes, não permite à mulher entender seus próprios processos, sua individualidade, sua subjetividade”, explica. 


Há quem queira parar de trabalhar, há quem sinta a necessidade de redirecionar a carreira mas faça questão de se manter ativa no mercado de trabalho. Há quem opte por sair da cidade grande por uma vida mais pacata, e tem mães que concluem que o melhor para a família é morar num trailer e rodar o mundo.


Qualquer que seja a escolha, ela só precisa ser, de fato, uma escolha da mulher, e não uma imposição social. “Refletir sobre a origem desse ímpeto antes de tomar qualquer decisão pode ser uma forma de se encontrar com ela mesma e se reestruturar de forma saudável com sua vida”, afirma Cristina.


Mulheres dividem os questionamentos e transformações que a maternidade trouxe



"Como mãe, sou a melhor para os meus filhos. Como pessoa, estou destruída"


“A sensação que tenho às vezes é que não me conheço. Eu não sei que eu sou. Eu sei quem a Flávia mãe é. A Flávia mãe é uma leoa. É uma mãe muito focada, que tenta ser a melhor mãe para os filhos”, explica, “Mas a Flávia pessoa está só o pó, está destruída. Está com muita dificuldade de enterrar os sonhos que ela teve a vida inteira". Leia mais





"Eu achei que não fosse conseguir abandonar minha vida de antes"


“Eu nunca me vi mãe e dona de casa, eu sempre estudei e trabalhei. Eu achei que não fosse conseguir abandonar essa minha vida de antes de ter filho”, explica, “Para mim foi uma transformação muito forte, eu mudei da água para o vinho. E quando eu aceitei isso e abracei a causa, a minha vida começou a fluir diferente. Eu estava brigando comigo mesma e com as coisas que vida insistia em me mostrar". Leia mais



"Chutei o balde. Pedi demissão e falei: vamos aprender a viver com menos"


Com 1 ano e meio, o caçula de Sandra parou de falar. O menino, que vinha se desenvolvendo dentro das expectativas e já se comunicava falando algumas palavrinhas, regrediu do dia para a noite. Ciente do que se passava, a mãe procurou atendimento especializado e Cauã recebeu o diagnóstico de autismo. “Aí eu chutei o balde. Pedi demissão e falei: vamos aprender a viver com menos". Leia mais



"Prefiro morar sozinha com a minha filha. É uma libertação"


Depois de um puerpério difícil e solitário, a licença maternidade chegou ao fim e Flávia decidiu se separar do marido. "Eu notei que não dava mais para morar junto porque havia um descompasso gigante sobre percepções e divisão de tarefas. Isso sempre foi um grande problema no relacionamento, e se intensificou com a chegada da Larissa”, relata a jornalista. “Pedi a separação”. Leia mais