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"As pessoas não entediam que eu não queria engravidar"


Teresa Bottan e Thiago Pereira entraram para a fila de adoção aos 33 anos e adotaram Gigi

Por Luciane Evans


Por ter muitos casos adotivos na família, a economista Teresa Bottan cresceu achando a adoção tão comum quanto a gravidez biológica. Tanto que não passava pela sua cabeça um dia engravidar e, sim, adotar. E, quando ela e o marido Thiago entraram na fila da adoção, veio a pressão psicológica de amigos, familiares e até de funcionários do fórum: por que adotar ao invés de parir?


Os dois eram jovens, com 33 anos, e isso aumentava a pressão para a tentativa de dar à luz a filhos biológicos. “As pessoas me diziam que eu deveria engravidar, que é bom saber que está gerando uma vida, sentir essa vida crescer dentro de você. Até a psicóloga do fórum me mandou fazer terapia”, conta.

Mas, mesmo com essa pressão, ela resistiu. “Nunca me abalei muito com isso porque eu e meu marido tínhamos muita certeza da nossa escolha. Tendo ele ao meu lado, não me importava com o resto do mundo”, conta. Eles demoraram exatamente um ano para entrar na fila de adoção. “A burocracia e a demora nos fazem ver se é realmente o que queremos e o quanto estamos dispostos a aguentar para que dê certo”, avalia. 


Eles não sentiam falta de ter um filho, como muitos relatam. “A espera foi mais ‘dolorida’ para as avós que sonhavam em ter um neto logo. Cheguei a ouvir `se eu fosse você eu engravidava, assim logo teria um filho` e então eu respondia que não tínhamos pressa”, recorda.


Então, num fim de tarde de uma sexta-feira, do dia 31 de agosto, o fórum ligou para o marido de Teresa e disse que havia uma menina de 1 ano e 9 meses negra e com bom estado de saúde, compatível com perfil do casal.


“Perguntaram se queríamos conhecer a história dela. Eu chorei por uma hora seguida, ela era meu sonho ”, diz. Naquele fim de semana, Teresa não dormiu e veio medo do que o futuro lhe reservava. Ao ver Gigi pela primeira vez, três dias depois do telefonema, Teresa confessa não ter tido o sentimento de dizer “achei minha filha”. “Nosso sentimento foi: tão pequena e já viveu coisas que eu nunca viverei, quero cuidar dela e dar a ela a chance de vida nova “, afirma.

Com a chegada da Gigi , Teresa disse ter emagrecido 5kg em 15 dias. Isso porque, ao contrário da mãe biológica, a de coração nem sempre está preparada materialmente para a chegada de um filho . Com Teresa não foi diferente. “Eu tive que fazer tudo: comprar roupas, arrumar quarto e tudo mais. Tinha que ser o mais rápido possível porque não sabíamos em quanto tempo ela iria para a nossa casa”, afirma.


Foram 15 dias de adaptação com a Gigi e Teresa diz ter parado de viver a sua vida para a viver a dela. “Os meus dias giravam 100% entorno dela e das coisas dela. Um ano depois, eu ainda tento retomar coisas simples que eram do meu cotidiano como fazer a unha, fazer exercícios físicos.”


E esse foi, segundo Teresa, o seu maior sofrimento na maternidade. “Para mim, foi muito difícil deixar de viver a minha vida pra viver a dela”, diz. Ela diz ter participado de grupos de apoio a mando do fórum. “Quando eles mandaram a gente fazer, eu achei besteira. Mas depois que terminamos os encontros acabei achando bem legal, produtivo e esclarecedor”, defende.


Outro medo de Teresa era de que, no início, alguém reconhecesse Gigi na rua. Hoje, essa história é diferente. Teresa criou uma página no instagram (@gigibope) para contar sobre a vida de Gigi e ajudar outras pessoas a adotar.

“O que costumo dizer é que não adianta você parir um filho e não adotá-lo. As pessoas acham que as crianças adotadas são diferentes, faço o diário público para mostrar que a criança nada mais é que uma criança, igual a qualquer outra”