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“Aqui temos a gentileza como princípio básico”

Danielle Camilato é mãe de Manu, de 5 anos, e de Leo, de 3 anos. Ela, o marido e os filhos moram em Auckland, Nova Zelândia

Foto: Arquivo Pessoal

"Antes de ser mãe eu morei por 2 anos na Itália, em uma cidade chamada Como. Isso foi quando eu ainda estava na faculdade, fiz uma graduação sanduíche por lá.


A experiência de morar fora antes de ser mãe foi completamente diferente, não só por eu não ser mãe antes, mas também pela fase de vida em que eu estava. Eu não tinha dinheiro para ir estudar na Itália, toda a minha família fez um esforço enorme pra que eu conseguisse ir e eu tive que me virar por lá para conseguir ficar.


Graças a Deus sempre encontrei pessoas pelo caminho que me ajudaram muito, desde pessoas que me deram emprego até casa para morar quase de graça. Foi uma época difícil e de muito aprendizado para mim, mas ao mesmo tempo, eu só tinha eu mesma pra cuidar.


Muitas pessoas me perguntam se eu moraria na Itália, ou por que eu não quis ficar por lá, mas o fato é que, para mim, a Itália é muito parecida com o Brasil nos aspectos que mais me incomodam, então apesar de amar a Itália para viajar, e de morrer de saudades de lá, ela não seria a minha primeira opção hoje.


Depois que voltei da Itália para o Brasil, comecei a namorar o meu marido e, quatro anos depois, nos casamos (em 2012). Tivemos nossa primeira filha em 2015, e nosso filho em 2017. Agora estou grávida do terceiro.

Eu sou do Espírito Santo, apesar de ter passado parte da minha infância em Rondônia, e desde que comecei a me entender por gente eu quis mudar para São Paulo. Então fui fazer faculdade lá. Amo cidades cosmopolitas e que funcionam 24/7 - Nova Iorque ainda é a minha favorita, de todas.


Então, depois que voltei da Itália e casei, achei que fosse morar em São Paulo por muito tempo. Tanto eu como meu marido tínhamos mudado de cidades quando crianças e, com isso, crescemos longe de avós e primos, então gostávamos do fato dos nossos filhos crescerem perto da família, embora não fosse tão perto assim, já que os pais dele moram em outra cidade e os meus pais ainda moram no Espírito Santo.


Depois de casados, compramos um apartamento na planta, tivemos nossos filhos, reformamos o apartamento e nos mudamos um pouco antes do segundo nascer. Nosso plano era morar naquele apartamento por uns 10 anos e depois vendê-lo para comprar um maior, mas depois de virar mãe, São Paulo começou a não parecer tão atrativa assim. Tudo era muito caro, eu passava muito tempo no trânsito, e as crianças, muito tempo na escola. As opções de lazer eram todas pagas ou lotadas, e começamos a nos incomodar com o fato de estarmos criando nossos filhos em um apartamento apertado, na frente da TV a maior parte do tempo. E aí, para ajudar, a situação política e econômica do Brasil começou a ir de mal a pior.


Paramos para pensar sobre como estaríamos dali a 10 anos e percebemos que, com o que estávamos dispostos a sacrificar de tempo para a parte profissional, não iríamos ter a qualidade de vida que gostaríamos em São Paulo. Chegamos a pensar em mudar para o interior, mas ainda seria o Brasil, ainda viveríamos com medo da violência e não teríamos as vantagens de São Paulo (apesar de difícil, em São Paulo ainda temos muito acesso a cultura e lazer). E, acima de tudo, não gostávamos nem um pouco do rumo político que o Brasil estava tomando.

Foto: Arquivo Pessoal

Então, começamos a conversar com amigos que moravam fora e nossa primeira pesquisa mais aprofundada foi sobre o Canadá, mas o clima sempre foi um problema para mim. Aprendi com a experiência na Itália que esse negócio de clarear 8h30 da manhã e escurecer 4h30 da tarde me deixa pra baixo, preciso de sol. Por isso, conversamos com um casal de amigos que moram aqui na Nova Zelândia e eles foram fundamentais para a nossa escolha. O único defeito daqui era a distância, mas até isso nossos amigos desmistificaram, afinal de contas, dependendo de onde, o Canadá pode ser até mais longe.


Uma vez que estava decidido que viríamos para cá, começamos a nos planejar. Sabíamos que precisávamos ter uma reserva boa de dinheiro tanto para vir quanto para caso precisássemos voltar. Nós decidimos que viríamos como turistas, para passear e procurar emprego (isso é permitido na Nova Zelândia, mas eu não recomendo), e caso não conseguíssemos o emprego, voltaríamos para o Brasil para esperar o visto de residência.


Chegamos aqui em 8 de março de 2019 e trouxemos apenas 6 malas. Vendi ou doei tudo nos últimos seis meses antes da viagem. E ficamos 20 dias em um AirBnB, só explorando a cidade. Nesse período conseguimos alugar uma casa por um período maior, e eu entrei em um processo seletivo. Caso passasse, a empresa me daria o visto de trabalho e poderíamos ficar.


Foi o que aconteceu, e no dia 13 de maio de 2019 comecei a trabalhar nos correios daqui, sempre na área de TI. Com isso, as crianças começaram a frequentar o daycare por meio período para que meu marido conseguisse focar na busca de emprego. A adaptação deles foi bem mais fácil do que eu esperava, mesmo com a diferença da língua. Não foi nada diferente de quando eles foram para a escolinha no Brasil, e eles aprenderam o inglês muito rápido.


No geral, nossa adaptação foi bem tranquila e acredito que tenha sido pelo fato de que aquela era uma mudança que desejávamos muito, então sempre estivemos abertos para as diferenças culturais e acredito que as crianças acabam seguindo pelo mesmo caminho.


Quando os pais estão seguros, elas também ficam seguras e acabam se adaptando melhor. Mas é claro que depende da personalidade de cada um.

Ao virmos para cá, nossas expectativas eram principalmente ter mais qualidade de vida, o que para nós significa ter acesso a lazer, educação, saúde e segurança de qualidade sem precisar ter muito dinheiro pra isso, além de poder ter mais contato com a natureza. Essas expectativas não só se concretizaram como a cada etapa somos surpreendidos. Quando minha filha entrou na escola, que é pública, eu fiquei chocada com a estrutura e com o estilo de ensino daqui. Muita gente não curte muito, acha muito solto, mas para mim, que acredito que crianças aprendem brincando e que aprender a resolver problemas é mais importante do que saber o nome das capitais dos estados de cor, está ótimo.

Foto: Arquivo Pessoal

Obviamente que nada é perfeito, culturalmente tem coisas muito diferentes, a comida é muito diferente e a saudade da família sempre aperta, mas foi uma renúncia que estávamos dispostos a fazer pra poder ter um pula-pula no quintal, a praia a 5 quilômetros de casa e um playground público a 200 metros.


Na época da mudança, nosso maior medo era não conseguirmos emprego aqui e termos que voltar para o Brasil, mas aí encaramos esse período como umas férias, e caso não desse certo teríamos vivido uma super aventura com as crianças e voltaríamos pra começar tudo de novo, o que provavelmente envolveria se planejar para a próxima mudança.


Outra coisa que eu tinha medo era que as crianças sofressem, mas depois de um tempo, vendo outras pessoas que passaram por tantas mudanças com filhos pequenos, aprendi a não ter pena dos meus filhos. Serei sempre grata à @robertaferec (escritora e palestrante) por um bate papo sobre isso que tivemos logo que mudei para cá, e que mudou minha visão completamente em relação a isso.


Em vez de olhar para tudo como uma grande mudança e disrupção na vida deles, comecei a olhar para o que estávamos proporcionando para eles. Quem tem a chance de, antes dos 5 anos de idade, aprender outro idioma e conhecer outras culturas e pessoas de todos os lugares do mundo?

Outro ponto positivo da Nova Zelândia é o quanto fomos bem recebidos em todos os lugares. Nunca senti preconceito aqui. Principalmente no trabalho, no começo eu sofria com o inglês, e mesmo assim todo mundo sempre me ajudou e confiou no meu trabalho, independente de eu ser daqui ou não. Nunca vou esquecer que, na minha última entrevista com um dos general managers da empresa, eu fiquei perplexa com a postura dele em relação a eu ser mãe e a ter o inglês como segunda língua. Ele deixou muito claro que para ele as duas coisas eram pontos positivos. Nunca me senti tão acolhida por ser profissional e mãe ao mesmo tempo no Brasil (apesar de nunca ter sido discriminada por isso também).


Com certeza morar fora também tem vários pontos negativos, e o principal é a saudade da família e dos amigos. Por mais que a gente tente se planejar para ir ao Brasil ou trazer alguém uma vez por ano, nem sempre é possível (tipo agora, que se bobear ficaremos 3 anos sem voltar). Além disso, a vida fora dos nossos costumes e das pessoas próximas não é fácil e pode ser muito solitária, requer muito esforço pra se enturmar e não se sentir tão sozinho.


Outra coisa que sempre pensamos e que não chega a ser ruim, mas é estranho, é que os nossos filhos não terão identificação cultural com a gente. Sabe quando toca Balão Mágico em um casamento e todo mundo lembra da infância e sai dançando loucamente? As músicas da infância deles serão outras, as referências culturais serão outras.

Foto: Arquivo Pessoal

Mesmo assim, não temos planos de voltar. Eu nunca digo nunca, pois não sabemos o dia de amanhã. Mas, por enquanto, vamos para o Brasil só para visitar e matar a saudade. Porque o que gostamos como estilo de vida combina muito mais com aqui do que com o Brasil.


Além disso, aqui vive-se com mais proximidade com a natureza, tem-se a gentileza como princípio básico, o conceito de comunidade, a aptidão ao risco (as crianças são muito incentivadas desde pequenas a explorarem seus próprios limites, fazerem coisas que no Brasil seriam consideradas perigosíssimas), e o que se ensina para as crianças aqui é algo que eu imagino que só conseguiria proporcionar aos meus filhos aqui, mesmo."


Danielle Camilato tem 36 anos, mora em Auckland, Nova Zelândia, é formada em Engenharia de Computação, trabalhou por 10 anos em TI e acaba de começar um curso de Psicologia para mudar de profissão e seguir carreira em Psicologia Clínica e Pesquisa na Nova Zelândia.