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"Aplausos não retribuem o que estamos passando"

Enfermeira infectologista desabafa sobre ser chamada de heroína em um momento em que os hospitais e os profissionais de saúde precisam de tanto mais

Foto: Manuel Peris Tirado/ Unsplash

Estamos há 40 dias em isolamento social para conter a propagação do novo coronavírus. A quarentena, como todos já devem ter entendido, serve para evitar que uma quantidade ainda maior de pessoas se contamine, desenvolva sintomas graves, precise ser internada, e o sistema de saúde entre em colapso por não dar conta de atender tanta gente. É o que está acontecendo em cidades do norte da Itália, em Nova York, e mais recentemente, em Manaus e no Rio de Janeiro, onde há uma fila de 350 pessoas esperando por um leito de UTI e os médicos têm que escolher quem vai usar respirador, já que há apenas um equipamento para cada 30 pacientes que precisam dele.


A pandemia tem escancarado as deficiências do nosso sistema de saúde, por trazer para outros recortes sociais os problemas que até então só eram recorrentes para populações periféricas e de baixa renda. Mas também tem deixado claro o quão necessário ele é. Gratuita e para todos, uma estrutura como o Sistema Único de Saúde salva vidas quando os planos de saúde e os hospitais particulares se eximem tornando inviável arcar com a conta de um atendimento médico.


É preciso defender o SUS. E, mais do que isso, é preciso defender investimentos e uma valorização efetiva do SUS. Para tanto, aplausos pré-agendados na janela de casa, embora bem intencionados, não bastam.


Convidamos a enfermeira infectologista Mariângela Liborio, profissional do SUS, para contar como ela e muitos enfermeiros se sentem sobre serem aplaudidos e chamados de heróis em um momento em que precisam de tanto mais do que isso. Veja abaixo o depoimento:

"Sou enfermeira há mais de 20 anos. Estudei pra caramba desde que entrei na faculdade em 93. Nunca parei de estudar. Muitas especializações, um mestrado concluído e um doutorado já engatilhado, com uma formação em neurociência no meio do caminho, porque afinal, o cérebro é espetacular, convenhamos, e eu tenho interesse por ele.

Agora me encontro como enfermeira de um serviço especializado em infectologia, minha área principal de atuação, bem no meio da pandemia. Trabalho paramentada dos pés à cabeça, torcendo para essa paramentação funcionar, porque na minha casa tem dois filhos e um marido que não precisariam se expor ao vírus caso eu não fosse o que sou: enfermeira.

Esqueci de dizer que trabalho no SUS... E também que hoje, 22/04/20, seria meu primeiro dia de férias, que foram canceladas tão logo começaram os casos da COVID-19.

Tenho tantos colegas afastados na equipe que é até difícil de contabilizar. E também já tive perdas.

Quando vejo alguém reclamando de estar em casa na quarentena tenho sentimentos dos quais não me orgulho. Eu queria poder ter essa opção e não tenho, e sei que é fundamental para conter a pandemia. Comparado com outras pessoas que estão no mesmo barco que eu (porque claro, quem não tem o que colocar na mesa tem o desejo de voltar a trabalhar super legitimado), eu vejo pessoas em casa, trabalhando no conforto e segurança dos seus home offices, ou simplesmente sem trabalhar e recebendo seus salários, e nessa hora eu penso: só aplaudir e nos chamar de heróis não vai jamais retribuir o momento que estamos passando e os riscos que estamos enfrentando. Sabe quando um "produto" ou uma "marca" é reposicionada no mercado? É isso que eu espero que aconteça com a saúde, mais especificamente com a enfermagem. Esse reconhecimento precisa ser traduzido em condições de trabalho, EPI de qualidade e em quantidade adequada, salário justo e a tão almejada jornada de 30 horas (sim, porque só quem passa a vida cuidando sabe o que essa pequena redução significaria), mas eu vou além. O enfermeiro precisa participar de discussões de políticas públicas e ter o seu saber valorizado. Não somos pessoas que gostam de cuidar, apenas. Somos profissionais capacitados, com muito estudo e muita autoridade na pasta saúde. Estamos presentes desde o nascimento de todo e qualquer brasileiro até o momento de sua morte, e uma sociedade que não consegue atribuir valor a isso precisa se retratar urgentemente. A enfermagem é a espinha dorsal do sistema de saúde. Isso se deve ao fato de 50% da força de trabalho mundial em saúde ser constituída por enfermeiros, técnicos, auxiliares e obstetrizes. Não valorizar esse profissional compromete o sistema de saúde do mundo inteiro, do nascer ao morrer. Por fim, a média salarial de um enfermeiro de acordo com o site salario.com.br é R$ 3.440,04. Deixo esse valor para reflexão de quem lê, de forma que agradeço os aplausos, mas não são eles que reconhecem o meu valor."