• Cria Para o Mundo

"Ainda não é hora de relaxar"

Atualizado: Out 16

A pediatra Jessica Nicole defende uma flexibilização consciente neste momento da pandemia e diz ser arriscado misturar crianças de núcleos familiares diferentes



Por Luciane Evans

Pediatra há 12 anos, Jessica Nicole é paraense, feminista, defensora da criação com apego e da amamentação, e uma ativista pelo empoderamento feminino materno. Atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS) há 14 anos e há cinco anos iniciou o atendimento domiciliar em Belém e arredores, atendendo bem de pertinho as famílias diversas da Amazônia.


Em sua página no instagram, ela dá dicas de cuidados com a saúde infantil e aborda temas de interesse dos pais e responsáveis. Sobre o novo coronavírus, Jazz, assim chamada, tem alertado seus seguidores sobre os riscos da flexibilização sem consciência.


Recentemente, Jazz puxou a orelha das pessoas em Manaus, que não estão se importando mais com o vírus e não temem uma reinfecção. Nesta entrevista para o Cria Para o Mundo, ela é cautelosa ao abordar como deve ser uma flexibilização consciente.

É possível flexibilizar neste momento da pandemia? Como?

Flexibilização ponderada, sim. Já podemos sair para lugares amplos, porém, sempre evitando as aglomerações e mantendo o distanciamento social do núcleo familiar com outros núcleos (dois metros, pelo menos).

Há pais que acham que fazer o teste rápido pode ajudar nos reencontros familiares. Qual a sua opinião a respeito.

O único parâmetro que guia a eficácia dos testes são os sintomas. Mesmo uma pessoa contaminada pelo vírus pode ter seu exame (falso) negativo quando coletado no dia errado. Sem sintomas, o valor dos testes é insignificante. Principalmente os testes rápidos.

Dá para as crianças encontrarem seus avós? E primos?

Sempre depende. Em uma casa onde as crianças não estão se expondo a risco e os pais estão conscientes e usando máscara; e os avós estão fazendo o mesmo, a visita pode acontecer, porém, sempre com os mesmos cuidados: uso de máscara, lavagem frequente das mãos, etc.

Não é recomendado que dois núcleos familiares diferentes (primos, tios) façam essa aglomeração, principalmente na casa dos avós que pertencem ao grupo de risco. Quanto mais gente junta, mais perigosa essa reunião e mais difícil manter o distanciamento seguro.

Dá para voltar a ir a pracinhas e parques?

Tenho recomendado que crianças voltem a brincar no playground do prédio naqueles condomínios que reservam um horário para cada família. Infelizmente ainda não é seguro misturarmos as crianças de núcleos familiares diferentes. Buscar parques mais amplos e mais vazios para que consigamos manter o distanciamento das outras pessoas é fundamental.

Há crianças que moram com idosos ou pessoas de grupo de risco. Quais devem ser as medidas de flexibilização sem riscos nesses casos?

Os cuidados são os mesmos de desde o início da pandemia. Quem sair de casa, deve deixar os sapatos fora, colocar as roupas para lavar e ir tomar banho antes de qualquer contato com quem ficou na casa. Todas as pessoas devem ter os mesmos cuidados, pois quem não é de risco pode ser portador e levar o vírus consigo para quem pode ter as formas graves da doença. É importante que todos continuemos seguindo os cuidados.

Muitos pais estão dizendo que seus filhos estão com medo de sair de casa ou estão tímidos ao reencontrar outras crianças. Como trabalhar essa situação com eles?

É difícil que as crianças não reproduzam o medo que nós adultos também temos. É bem difícil avaliar quando estaremos totalmente seguros. Se nós mesmos ainda temos medo, como cobrar que as crianças também não os tenham? Elas apenas reproduzem o que veem, o que aprenderam. De qualquer forma, infelizmente, ainda não é hora de relaxar totalmente.

Qual o seu recado para os pais que estão flexibilizando sem cuidados?

Apesar do que parece, a pandemia ainda não passou. A covid-19 não é uma simples gripe. Ela é capaz de deixar sequelas por um longo tempo, além de poder levar nossas pessoas amadas para sempre. Sem políticas públicas eficazes, só nos resta fazer a nossa parte. Use máscara. Lave as mãos e mantenha o distanciamento social.