• Cria Para o Mundo

“A Prefeitura de Belo Horizonte não conhece a realidade de Venda Nova”

Ativistas ocupam a maternidade Leonina Leonor, refutam informações da prefeitura e reivindicam o direito ao parto seguro das mulheres da região

Rosa Maria Goreth, Sônia Lansky, Mônica Aguiar, Maria da Glória e Maria Lina, as mulheres do Movimento Leonina Leonor é Nossa

Por Nathalia Ilovatte


No prédio construído em 2009, em Venda Nova, para abrigar uma maternidade pública referência em parto humanizado, um grupo de mulheres acampa desde a tarde de quinta-feira (28). A ocupação é uma demonstração de resistência à decisão da Prefeitura de Belo Horizonte, que anunciou no mesmo dia que não vai inaugurar a Maternidade Leonina Leonor, e teve início quando integrantes do Movimento Leonina Leonor é Nossa constataram que a estrutura de maternidade está sendo desmontada.


“Nós chegamos para uma visita rotineira e nos deparamos com a depredação da maternidade. Está tudo quebrado”, explica Mônica Aguiar, coordenadora geral do Centro de Referência da Cultura Negra de Venda Nova e representante do movimento.


Mônica, que é mãe de 6 filhos e também tem duas netas, conta que as ativistas, indignadas com a situação do prédio e até então sem qualquer informação sobre os motivos da obra, acionaram o Conselho Municipal de Saúde, procuraram a vereadora Sônia Lansky (PT) e decidiram permanecer na maternidade fechada e sem energia elétrica. Passaram lá a primeira noite de ocupação. “Vamos ficar aqui. A prefeitura tem que entender que essa maternidade é importante para nós, e que se trata de uma questão de reparação”, afirma.


O desmonte da maternidade Leonina Leonor gerou repercussão nas redes sociais quando as vereadoras Sônia Lansky (PT) e Iza Lourença (PSOL) publicaram vídeos mostrando que, das 6 banheiras instaladas em quartos para partos, 5 já foram retiradas.


Após a divulgação das imagens, o Cria Para o Mundo entrou em contato com a Prefeitura de Belo Horizonte, que no início da noite de quinta-feira (28) respondeu por meio de nota que, após estudos, constatou “não haver demanda para uma nova maternidade”. E que, portanto, o imóvel construído para atender 500 partos por mês será transformado em um Centro de Atendimento à Mulher que oferecerá “consultas de pré-natal de alto risco, consultas ginecológicas de mastologia e climatério, ações de planejamento sexual e reprodutivo, com enfoque em adolescentes e mulheres em situação de vulnerabilidade”.


As mulheres do Movimento Leonina Leonor é Nossa discordam da decisão. “A Prefeitura de Belo Horizonte não conhece a realidade de Venda Nova”, rebate Mônica, “ela está negando uma situação que existe, de fato, na nossa região”.


Ativistas refutam informações da PBH


Ela argumenta que Venda Nova, além de populosa, tem muitas mulheres na faixa etária de fertilidade, a maioria negras. “Isso que a prefeitura está falando é mentira. Tem demanda, tem o sofrimento na peregrinação em busca de vagas, tem postos de saúde com números expressivos de gestantes”, afirma.


Outro ponto levantado por Mônica é que, ao lado da maternidade Leonina Leonor, há o Centro de Especialidades Médicas, onde antes funcionava a UPA. “Ali há atendimento à mulher e há salas ociosas. Aqui (na Leonina Leonor) também poderia funcionar maternidade, centro de atendimento especializado e atendimento de alto risco. O que não dá é para as mulheres continuarem saindo de Venda Nova para serem atendidas no Odilon Behrens, no Odete Valadares, percorrendo uma distância muito grande e que fica maior ainda por causa do trânsito na região”, pontua Mônica. “A mulher que mora no bairro Mantiqueira leva tanto tempo para chegar ao Sofia Feldman que, se já estiver em trabalho de parto, ganha neném no meio do caminho”.


A vereadora Iza Lourença (PSOL), que é da região de Venda Nova e está engajada na defesa da maternidade, concorda com Mônica. “A prefeitura deve apresentar dados que comprovem que não há demanda para uma maternidade na região de Venda Nova, porque os últimos levantamentos feitos pelo Conselho Municipal de Saúde demonstraram que 70% das mulheres de Venda Nova precisam sair da região para ter seus filhos, quando já foi comprovado que ter o filho perto de casa é o melhor para a saúde da mulher e do bebê”, explica.


A vereadora do PSOL afirma que, segundo dados do Conselho Municipal de Saúde, a região de Venda Nova concentra o maior índice de mortalidade materna e infantil de Belo Horizonte, e que um Centro de Atendimento à Mulher é necessário no local, mas pontua que ele não deve excluir a maternidade, que também é de suma importância. “Se a prefeitura considera importante abrir um centro de atendimento à mulher, eu estou de total acordo e a Leonina é grande o suficiente para comportar as duas coisas”, argumenta.


Iza Lourença critica a maneira como as decisões foram tomadas pela PBH. “Infelizmente, o que estamos vendo é um autoritarismo do governo, que, sem debate com ninguém, decidiu acabar com uma maternidade pronta há mais de dez anos, decidiu jogá-la a baixo. É um lugar onde já foram gastos cerca de R$ 10 milhões e agora está sendo gasto mais dinheiro público para destruí-lo. É um absurdo completo”, diz. O imóvel onde deveria funcionar a maternidade Leonina Leonor custou R$ 4,9 milhões aos cofres públicos e, de acordo com reportagem do G1, custaria mais R$ 5 milhões para abrir.