• Cria Para o Mundo

"A maternidade engole a gente"

Joanna Maranhão vive licença-maternidade em Belo Horizonte e, nesta entrevista, fala sem pudores sobre puerpério, carreira, criação de filhos, perda gestacional, machismo e sonhos


Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


Melhor nadadora feminina brasileira em Olimpíadas e um dos grandes nomes do esporte no país, Joanna Maranhão é uma mulher que quebra tabus.


Em 2008, trouxe a público a violência sexual que sofreu aos 9 anos de idade. O agressor era seu treinador. Após tanto tempo calada e carregando a culpa pelo crime do qual foi vítima, Joanna transformou o trauma em luta: falou abertamente sobre o assunto, fundou uma ONG para conversar com crianças sobre sexualidade e conscientizar adultos a respeito do tema, dividiu sua dor, amparou outras vítimas e virou lei. Desde 2003 está em vigor a Lei Joanna Maranhão, que determina que o prazo para prescrição de crimes sexuais contra crianças e adolescentes só comece a contar quando elas completarem 18 anos.


Após tantas conquistas importantes dentro e fora das piscinas, hoje Joanna se dedica a um novo desafio: a maternidade. Em agosto, a atleta deu à luz Caetano, seu bebê arco-íris. E junto com ele, veio a necessidade de ficar mais perto do marido, o judoca Luciano Corrêa, que integra a equipe do Minas Tênis Clube.

Ao Cria Para o Mundo, Joanna Maranhão falou sobre curtir Belo Horizonte, dividiu os perrengues e as delícias da maternidade, e também conversou sobre perda gestacional, puerpério, depressão, criar meninos em uma sociedade machista, ser mãe no meio esportivo brasileiro e os planos que deseja concretizar em 2020.


O que lhe trouxe a BH? O que está achando da vida aqui?

Vim passar a licença-maternidade, uma vez que meu marido trabalha aqui. A gente já está nessa tem alguns anos e é uma cidade que eu gosto muito de morar. Está sendo um  desafio muito grande porque somos só nós dois. Temos amigos, mas é muito diferente de quando você tem família, de quando sua mãe mora perto, ou seu pai. Não temos isso. Os pais do Lu moram em Brasília, os meus moram em Recife. Então é um desafio. 


É muito difícil e é muito mais estressante do que eu poderia imaginar quando você não tem essa rede de apoio para a maternidade. Mas, de alguma maneira, é algo que faz com que a nossa família fique mais coesa. Somos nós três e temos que saber lidar com isso. Mas o motivo é esse, é o lugar que meu marido trabalha, estou de licença-maternidade e eu preferi passar essa licença com nós três juntos.


Como você e sua família gostam de curtir a cidade?

No momento, não estamos conseguindo curtir muita coisa, porque não saímos tanto com o bebê. Mas eu gosto das praças, gosto de ir à  Praça da Assembleia no final de tarde e passear com Caetano. Gosto de ir ao Parque Municipal em dia de domingo e dar uma passadinha rápida na Feira Hippie. Por lá não fico muito tempo, fico menos do que eu gostaria. Eu eu amo a feira, mas é muita gente e as pessoas fumam, e aí eu vou para o Parque Municipal, onde dou uma volta com Caetano. Esses são geralmente os nossos programas de fim de semana. 


E as saídas durante a semana, quando elas acontecem, são para consultas médicas ou fazer um lanche. Gosto de ir à Pão de Queijaria e ao Mercado Central. Este é um lugar que eu amo mas não fui ainda com Caetano porque é um local muito fechado e ainda não tive essa coragem. Aos poucos ele vai ganhar mais autonomia e a nossa ideia é que ele vá nos acompanhando em todos os lugares. Ele já é uma criança que não estranha, vai para o colo de todo mundo, é muito observadora. Quando a gente sai para um lugar onde há muita gente é até mais difícil fazer com que ele durma. Ele fica muito excitado, mas isso é bom, né? É bom sempre o estimularmos para o mundo, para que não seja aquela criança que fica em casa, que não convive com ninguém.



Em 2019 você se tornou mãe, e a gente sabe que isso pode ser uma ruptura e também um renascimento na vida de uma mulher. Como a maternidade tem lhe transformado? Quem é a nova Joanna?

Eu nem sei quem eu sou ainda. Mas, definitivamente, uma pessoa muito diferente de quem eu era. A maternidade é uma ambivalência, uma dualidade constante, porque ao mesmo tempo em que quero ser muito leoa e ficar o máximo de tempo com ele, eu preciso de momentos só pra mim. Então, quando eu tenho duas horas no meu dia para sair e fazer exercícios, eu respiro de alívio por estar distante dele realmente, porque eu volto melhor pra ele.

 É essa dualidade o tempo inteiro. A  de olhar para aquela criança e pensar que ela é a coisa mais linda do mundo, a mais importante da minha vida e dar a minha vida por ela;  e, em alguns momentos, estar tão cansada a ponto de pensar no que é que eu estou fazendo da minha vida.

Você não consegue estipular uma rotina, porque a criança o tempo todo muda. Nenhum dia é igual ao outro. Tem três noites que eu consigo colocá-lo para dormir na hora que ele geralmente dorme, mas eu só consigo dormir 5 horas depois, tendo uma crise de insônia fortíssima porque vem um jogo de preocupações do futuro: “vai virar o ano, como que vai ser… “.


E a minha cabeça não consegue relaxar. E aí, quando são 5 horas da manhã, aquela criança já descansou, já acordou e quer a mãe dela, independentemente da mãe dela ter dormido ou não. Então nesses momentos eu penso: “putz, o que eu fiz da minha vida?”.  Mas aí vem aquele sorriso, você vê a criança se desenvolvendo. Caetano está começando a pegar as coisas, está começando a se sentar, está começando a descobrir o mundo à maneira dele, à maneira de uma criança de 4 meses. E isso é algo que não tem preço. Mas dizer que é somente essa coisa bonita, não, não é. É muito estressante. É tudo muito: é muito lindo e muito estressante. 


Como tem sido o seu puerpério?

Eu tinha muito medo do puerpério, mais do que eu tinha do parto. Já tinha lido relatos, e tinha muito medo do baby blues se transformar numa depressão pós-parto. Eu li muito sobre isso e uma coisa que a gente aprende quando tem depressão é que cada pessoa é uma, não existe essa coisa de receita de bolo, sabe? O que foi bacana para uma mulher no puerpério e fez com que esse processo ficasse mais leve para ela não significa que vai dar certo para mim. Isso é algo que na depressão ficou muito claro para mim, quando algumas pessoas vinham com uma receita de bolo. Lógico que existem coisas que você pode fazer que aliviam a dor e sofrimento de quem está passando por isso, mas é muito pessoal. 


E por eu ter passado por esse processo de autoconhecimento e de mergulho dentro de si, comecei a perceber quando vou ficando muito mal. E aprendi a pedir ajuda, sabe? Com o meu marido mesmo, tem vezes que eu filmo Caetano se acabando de chorar e mando para o Lu, que está no trabalho, e digo: “não estou dando conta mais”.

 Então ele já sabe que quando ele chegar em casa vai ter que me dar um suporte um pouco maior, porque não está dando. E Luciene, que fica aqui em casa comigo, fica até às 16h. E tem hora que eu falo: “segura ele que eu preciso dar uma volta, preciso fazer um exercício, preciso ir na farmácia, preciso fazer alguma coisa", porque é muito estressante realmente.  Eu nunca me conheci no puerpério, óbvio, mas o fato de eu ter essa vantagem de já ter passado por esse processo depressivo e de autoconhecimento me ajudou a encontrar esses mecanismos que tornassem o puerpério um pouco mais leve.


A divisão de tarefas para cuidar de Caetano está igualitária?

De maneira nenhuma a divisão é igualitária. Primeiro porque ele passa o dia inteiro trabalhando fora, sai às 7h e chega às 21h. Tem a Luciene que organiza as coisas de casa, faz comida, lava a roupa e eu fico exclusiva do Caetano praticamente o dia inteiro. A única hora que a gente consegue dividir mais é nas madrugadas. Agora Caetano está começando a dormir de 20h às 5h da manhã. Acordamos sempre no meio da noite pra ver como ele está, então eu falo: “Luciano, vai lá”. E, no início da manhã, que é sempre a parte mais pesada pra mim, eu dou de mamá e entrego: “ Luciano, toma!”, para ele assumir. 


E isso inclusive foi uma conversa que a gente teve nessa semana, em que eu falei pra ele que ainda que ele esteja trabalhando muito, está muito pesado pra mim. Principalmente,  psicologicamente, porque ele viaja muito. Lu trabalha com alto rendimento e trabalhar com alto rendimento significa uma dedicação exclusiva no trabalho, só que em casa também preciso uma dedicação exclusiva.

 

Então até adoeci na última semana, porque no final de semana passado (8/12) ele teve muita coisa, da manhã até à noite. Foram muitos compromissos com o judô, e eu fiquei com Caetano praticamente sozinha. Luciene não trabalha final de semana. Acabei adoecendo, porque física e emocionalmente eu estava exausta. Porque a criança precisa que eu chegue pra ela com a melhor energia possível, então, às vezes, você tem que tapar todo o seu cansaço, todo o seu estresse, para lidar com isso.

Então o fardo é infinitamente maior para mãe e sempre vai ser, não tem jeito. E outra coisa: dizer que o pai ajuda é muito errado. O  pai não ajuda, ele cumpre com as obrigações dele. Ele não ajuda a mãe, ele tem o mesmo tanto de obrigações que a mãe tem. Temos que mudar o hábito de falar: “ah, ele me ajuda muito”. Não é ajuda, são as obrigações que ele tem como pai.


Como é estar longe da família em um momento desses?

É super difícil. Essa semana, quando amanheci com febre, Luciano saiu para trabalhar, a Luciene também teve que sair e só ia voltar meio dia, e eu fiquei com ele das 8h até quase meio dia. Eu estava com febre e usei  uma máscara. Estava desesperada porque não tinha tomado café, tomado banho, morrendo de medo de passar algo para ele, passando muito mal a ponto de não conseguir ficar em pé com ele, de tão fraca que eu estava.


Liguei para a minha mãe chorando, e ela disse: ‘não, calma, vai dar tudo certo’. Recebi muitas mensagens de muitas mães falando 'Joanna, o seu leite está produzindo anticorpos para não passar para ele, fique tranquila. Só toma os devidos cuidados de não tossir perto dele'. Só que isso é muito difícil quando você está sozinha em casa com a criança, né?  Mas deu tudo certo, graças a Deus. Luciene veio e assumiu tudo, eu só dava de mamá e entregava para ela.


Luciene é a minha principal rede de apoio aqui. É uma rede de apoio paga, mas a questão de ser paga é uma vírgula, porque ela cuida do meu filho como se fosse eu. É incrível. Essa mulher foi um achado. E a gente conversa muito, a filha dela também tem um bebê de 8 meses e tem que deixar com outra pessoa para ir trabalhar. 


Dia desses estávamos conversando sobre como que a coisa é tão mais pesada para a mãe. O meu marido viajou e ela ficou comigo, dormindo aqui em casa. Isso significa que das 16h  até às 20h, que é o tempo que ela fica com o neto dela até a filha dela chegar, teve que pagar para outra mulher ficar.

Então, são sempre mulheres. É uma rede de mulheres, somos sempre nós que estamos cuidando dessas crianças, majoritariamente, sendo pago ou não, é sempre uma aldeia de mulheres. 

E como eu tive que chamá-la para ela ficar comigo, ela teve que encontrar alguém para ficar com o neto dela. Essa mulher provavelmente também tem algum outro compromisso.  Entendeu como a coisa é? Como é muito maternal, mesmo. Cuidar de criança é uma coisa que majoritariamente mulheres fazem.



Como é o seu trabalho no projeto Emancipa Esporte? Democratizar a natação é um sonho para você?

É um sonho, mas é um sonho que está estagnado, porque tivemos que parar com o projeto. Primeiro porque eu estou sem professor e também porque a piscina está sem água, e eu sem tempo para viabilizar. São muitas ideias que eu tenho de como fazer com que as aulas retornem, principalmente agora que as crianças têm maiozinhos e touquinhas, todos iguais. A coisa mais linda do mundo! Mas infelizmente eu não estou tendo tempo para me dedicar. 

Só quando passar a licença-maternidade, voltar ao trabalho e decidir se Caetano vai ficar com a babá em casa ou se vai para uma creche. Me corta muito o coração porque eu acho que esse projeto tem que ter continuidade o tempo inteiro, mas é a maternidade.


A maternidade engole a gente e exige da gente muita coisa.  Quando perdi o meu primeiro bebê, as crianças estavam pedindo muito a minha presença e eu fui lá, expliquei pra eles por que eu não estava indo, e eles compreenderam completamente. E agora, depois que eu tive o bebê, também fui lá e conversei, e elas entenderam. Mas eu também entendo que preciso estar um pouco mais presente.


Você também desenvolve um trabalho de combate à pedofilia com a ONG Infância Livre. Você sente que se tivesse sido acolhida por um projeto como o seu, a dor dos abusos teria se estendido por menos anos da sua vida?

Eu não tenho dúvidas de que se tivesse sido acolhida, se eu tivesse verbalizado para a minha família na época, as coisas teriam sido diferentes. Eu teria tratado aquela dor com a cabeça de uma criança, e aí tudo estaria muito mais leve e não estaria essa ferida tão sangrenta e purulenta que estava quando eu comecei a mexer nesse vespeiro na adolescência, quase na fase adulta. Estudos mostram que quando a criança verbaliza isso e começa a tratar isso, quanto mais cedo, menores os traumas na fase adulta. Às vezes é justamente por ter essa compreensão de quão duro é esse processo de enfrentamento na fase adulta que eu tento com o projeto conversar com essas crianças de maneira sutil. 

Quando eu estou falando com crianças, não descrevo o que aconteceu comigo. Só digo  sobre a necessidade desse diálogo, como tem que ser o mais aberto possível, quando não existe abertura em casa tem que ser na escola, que não tem que guardar segredo pra si.

Digo também que o toque no corpo deles só pode ser consensual e feito por eles, só eles podem dizer que sim ou que não. Que há  ugares que tem que dizer que não.

A minha fala é muito mais dura e muito mais aberta quando descrevo sobre isso aos adultos. Aí eu realmente não meço as palavras, para terem noção da gravidade. E buscamos tanto dar esse acolhimento e esse acolhimento hoje é muito mais eu, Joanna, pessoa física, com mulheres que me procuram pelas redes, pra falar, pra desabafar. Às vezes mulheres casadas, com filhos, e que nem o marido sabe. Aí querem conversar comigo porque encontram em mim esse apoio que nunca tiveram.


Se em uma palestra estou falando pra 100 pessoas e 3 saem dali compreendendo o papel que têm de chegar em casa e ler um livro infantil sobre o tema para o filho,  sobrinho, neto, o meu trabalho foi feito. Ali tem uma criança que caso alguma coisa venha a acontecer ela vai saber pedir ajuda. 


Como você e seu marido pretendem criar o Caetano em um mundo tão machista?

Quando descobri que Caetano era um menino, essa foi a minha primeira preocupação. Eu e o meu irmão, que é padrinho dele, olhamos um para o outro e dissemos: ‘o desafio agora é maior’.  Como a médica já tinha dito que havia muitas chances de ser uma menina, eu estava imaginando uma menininha, feminista e para quem eu iria ler Chimamanda.


 Acho que com homem é  mais difícil esse processo de desconstrução. Eu me pego pensando sobre quando ele estiver na escola, com os amiguinhos dele, repetindo  o comportamento de todo mundo para se inserir, para ser aceito. Me pego pensando em como isso vai contrastar com a educação que ele recebe em casa. 


Eu já recrimino quando as pessoas falam que "Caetano é muito macho porque não chora quando toma vacina" ou quando dizem "roupa de menino, roupa de menina"; "brincadeira de menino e de menina" ou "para de chorar porque homem nao chora”.  Homem chora, sim. Caetano tem todo o direito de colocar o seu sentimento e frustrações para fora, seja por meio do grito ou do choro.

Hoje vai ter que ser por meio do choro, porque é a única maneira que ele tem de se comunicar comigo.  Mais pra frente vai ser a fala, e não quer dizer que ele tem que recriminar o choro dele. Ele tem total liberdade para chorar. Não quero que ninguém tire isso dele. Ele tem que falar, chorar, falar sobre as suas frustrações.  


Penso também sobre qual modalidade Caetano vai fazer. A dança, por exemplo, eu me apaixonei por ela já na fase adulta. Não tive chance de fazer e gostaria muito que o meu filho tivesse esse contato com a dança desde muito cedo. Seria qualquer tipo de dança: balé clássico, hip hop... qualquer tipo para que ele tenha contato com essa arte.  Teve uma pessoa que, quando comentei sobre isso e falei sobre o balé, me olhou diferente. E não tem nada a ver. Eu e Lu vamos descobrir isso junto. E ao descobrirmos como vai ser desconstruí-lo, consequentemente vamos nos desconstruindo também. 


Como mãe, você sente que é importante falar sobre consentimento e sexualidade com as crianças pequenas?

Extremamente importante. É lógico que, se eu falar com o Caetano sobre isso agora, ele não vai entender nada. Mas eu não deixo ninguém fazer brincadeira com o órgão genital dele. Ao brincar de "cadê o pintinho ?", por exemplo, o sinal que vai se passando à criança é o de que se trata de uma região que se pode tocar, brincar. Se o avô faz, o pai faz, a mãe faz, quando um estranho fizer e for uma pessoa abusiva, ele não vai saber diferenciar, já que fazem isso desde quando ele nasceu. Então, o órgão genital dele é para higiene, para avaliação médica e para ele fazer as necessidades dele. Podem ficar com raiva de mim. De alguma maneira estou educando meu filho sexualmente desde cedo.



Caetano é um bebê arco-íris. Você teve medo durante a gestação por já ter vivenciado a perda do primeiro filho? O que aconselha?

Eu passei 9 meses com muito medo, muito medo. Eu fiz mais de um  ultrassom por mês. Comprei o aparelho doppler porque eu precisava escutar o coração dele quando estava dormindo. Lembro que, com 19 semanas, eu fui grávida para a casa da minha mãe e lá há dois cachorros grandes. Um deles pôs a pata na minha barriga, foi até leve, mas eu tive uma crise de choro achando que tinha perdido o bebê. 


Eu não queria fazer a virada olímpica  na natação porque achava que poderia perder. Por mais que eu tivesse acesso às informações e soubesse que aquilo não estava fazendo mal nenhum para o meu filho, o medo existia. 


No parto, quando eu cheguei a 10 centímetros de dilatação e parei de sentir contrações, eu cheguei a pensar que alguma coisa poderia dar errado. Você não se sente merecedora. Você vê mães parindo e pensa que não chegar ali. Pensa que está ali para sofrer e, de alguma maneira, vai acontecer de novo.

Eu fui realmente acreditar que pari e sou mãe quando Caetano estava no meu colo. 

Nas primeiras semanas, eu ficava acordada e ficava olhando se ele estava respirando. Por várias vezes, eu pensava que não era real e alguma coisa poderia acontecer com ele. Pensava "eu não estou vivendo isso. Não estou vivendo a maternidade". 


E isso é o que uma perda faz. Quando a gravidez é desejada, a perda te dilacera e faz  com que você se sinta indigna.  

Eu sugiro aos pais que estão esperando seu bebê arco-íris fazer terapia. Sei que é uma coisa cara, mas eu aconselho. Tem mulheres que passam pela gestação sem ter maiores problemas. A minha gravidez foi de baixo risco, mas deixei de fazer um montão de coisa porque tinha medo. Eu contava as semanas pra passar logo. Quando via as grávidas que estavam com 3 ou 4 semanas na minha frente e tinham seus bebês, eu pensava: 'nossa, ainda falta'. É muito louco. 


Em julho de 2018 você anunciou sua aposentadoria da natação. Essa decisão teve alguma relação com o seu desejo de ser mãe? A gravidez e a perda gestacional também impactaram essa decisão?

Sim, definitivamente sim. Quando me descobri grávida pela primeira vez , estava voltando a nadar. E a minha ideia era ir nadando até os 9 meses, diminuir o ritmo no final da gestação, parar quando o bebê nascesse e depois voltar. Seguir nadando até os 9 meses seria bom pra mim e para o bebê. E existia a possibilidade de eu voltar a nadar. Só que perdi o bebê. Aí, parei para pensar sobre todo o processo de curetagem e da depressão. Já estava com idade avançada e com tanta dor dentro de mim que pensei: 'não quero mais'.


E também tinha uma coisa muito importante. O fato de eu estar em paz com a natação, aliás, estou. Estou tão em paz que a natação hoje já faz parte da minha vida. Tem muita gente que deixa de ser atleta e vai lutar muay thai, pedalar, correr… e não quer saber de nadar. Não queria isso pra mim e não queria essa ojeriza à natação. Hoje ela faz parte da minha vida, é uma das atividades físicas que escolhi para voltar à minha forma física.

Quero que o Caetano me veja nadando 400 medley. Que bom que as coisas hoje estão equilibradas e em paz. Mas, naquele momento, ter que lidar com voltar a nadar, a depressão da curetagem, a perda. Era muita coisa.

O esporte brasileiro é um meio machista, especialmente para as mães? Você acredita que seria difícil seguir a carreira após a gravidez?

Seria muito difícil, mas seria interessantíssimo tentar. Há poucas mulheres que conseguem fazer isso. São as mulheres fora de série, que são aquelas que passaram pelo funil e estão entre as cinco melhores do mundo dentro das suas respectivas modalidades. Seria um desafio para mim entender que, na água, não conseguiria entregar a mesma coisa que entregava antes, porque teria que sobrar um pouco de energia para cuidar do meu filho.


Seria interessante também para ver como a minha rede de apoio iria atuar. Minha mãe, minha sogra, marido, Luciene... Eu teria que ter uma rede de apoio muito forte, porque seria necessário viajar muito. E a criança teria que ir também. Eu até cheguei a pensar sobre isso. E quando fosse para um campeonato? Minha sogra teria que ficar com ele no quarto ao lado porque na véspera eu teria que dormir uma noite inteira. Seria desafiador, mas seria interessante.




Como a maternidade é encarada pelas mulheres atletas brasileiras ?

Encarada como algo que tem que esperar a carreira passar. É praticamente impossível as coisas acontecerem concomitantemente dentro do cenário brasileiro. Muito difícil mesmo. Acho que Maurren Maggi tem um filho. A Sheila do Vôlei tem gêmeas e voltou agora, mas já não consegue ser como antes. Ela está no Minas e deve ir para a Seleção. Até gostaria de conversar com ela para saber como ela lida com isso.


Recentemente vimos histórias de mulheres como a Allyson Felix, que bateu o recorde de Bolt após se tornar mãe e perder patrocínios importantes por conta disso. Você sente que estamos mais perto de tornar o esporte mais igualitário depois de exemplos como o da Allyson, o da jogadora Sydney Leroux, que foi ovacionada ao voltar ao campo após uma licença maternidade de 3 meses, ou o das jogadoras de futebol espanholas que conquistaram auxílio-maternidade após tempos sofrendo com cláusulas antigravidez nos contratos? Ou esses ainda são casos pontuais e o caminho a ser percorrido é muito mais longo? 

Acho que são casos pontuais e que têm sua devida importância em termos de representatividade. A gente não pode dizer que isso é uma regra, porque não é. São mulheres fora de série que conseguem fazer isso. Tem uma menina do pentatlo moderno que acho que foi campeã olímpica em Londres, teve filho e voltou ao Rio e medalhou. Acho que ela é da Lituânia. E tem o seu devido poder de a gente olhar e pensar: "é possível". Ou "o que essa mulher fez para que fosse possível?". 


Mas, para essa realidade se tornar uma coisa corriqueira, é muito difícil, ainda mais em um país como o Brasil.

No meu esporte, por exemplo, não temos nem técnica mulher. Toda comissão técnica é composta por homens. Tudo é homem. A gente só vê homem. Os homens se enxergam em todos os lugares dentro da natação de alto rendimento no Brasil. A gente não se vê. Só se vê umas nas outras. Como a gente vai se ver mãe nesse universo? É praticamente impossível. 

O que você espera para 2020? 

Eu espero me readaptar à rotina 'mãe e trabalho', sem deixar que isso me engula por inteira, tendo alguns momentos para mim. E desses momentos, que eu insira os meus exercícios físicos, indo para a academia, parque, piscina, e pense somente em mim.


E, paralelamente, há o sonho de um mestrado para o qual tinha passado. Estava tudo pronto e a ideia era começar quando Caetano tivesse um mês. Mas ele nasceu e teve sintomas de lúpus neonatal. Tivemos que fazer vários exames nele. Exames cardíacos e dermatológicos, e testes de sangue em mim também. Caso ele tivesse lúpus, eu que teria passado para ele. Então tivemos que adiar esse sonho e foi uma coisa que cortou na minha carne.

No puerpério já fui aprendendo que, ao termos filhos, temos que abrir mão de nós por eles.

Foi um sonho que adiei, mas existe uma janela, uma possibilidade, ainda que menor do que a que eu tinha antes. Mas ela existe e eu vou buscar por ela mais uma vez. Quem sabe agora vai dar certo?