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A maternidade ao lado de outra mulher

Atualizado: Jan 15

Casais homoafetivos contam sobre o caminho da gravidez, a amamentação compartilhada, os desafios e alegrias de dividir a criação de filhos ao lado da parceira amada.


O casal Lilianne Dantas e Patrícia Luna, mães dos gêmeos João e Joaquim, compartilham a amamentação: "É incrível ser o alimento de alguém", orgulha-se Patrícia (à esq). (Foto:Deborah Ghelman)

Por Luciane Evans


As possibilidades de configuração familiar são diversas, mas o caminho para alguns temas que envolvem uma família homoafetiva ainda é tabu no país. A maternidade dupla, vivenciada entre duas mulheres, é um assunto pouco falado pela mídia, pela classe médica e também na literatura, embora seja um tema tão pulsante para essas mães quanto para os casais heterossexuais.


Nem "um Google" é capaz de responder simples perguntas: como é a dupla maternidade? Quais são as dores e as delícias de um maternar ao lado de uma outra mulher?


É por meio das redes sociais que as respostas são evidentes. No meio virtual, casais de mulheres estão quebrando o tabu ao contar, sem segredos, sobre o amor, desejos e desafios da maternidade homoafetiva. Por meio delas, o caminho sobre a gestação e até a amamentação compartilhada tem sido o canal de informação para as mulheres lésbicas que sonham em ser mães.

No início deste ano, o casal Lilianne Dantas e Patrícia Luna, mais conhecidas como Paty e Lili, postaram nas redes sociais a foto do nascimento de seus filhos gêmeos, João e Joaquim, numa cena emocionante: as duas amamentavam juntas na sala de parto.


Na página delas no Instagram, foram quase 400 comentários de amigos, familiares e de outras mulheres emocionadas com o registro. A foto viralizou e houve quem estranhasse o fato de as duas darem o peito aos bebês, sendo que apenas uma gestou. Houve também comentários preconceituosos: "e quando perguntarem pelo pai?", escreveu um seguidor.


Essas duas questões são recorrentes quando o assunto é maternidade homoafetiva. A dúvida sobre a indução à amamentação é devido à pouca informação divulgada sobre o assunto. Já a "preocupação" com a paternidade é o reflexo de uma sociedade para quem a concepção de família ainda está ligada às figuras do pai, mãe e filhos. O curioso é que não se vê essa "preocupação" quando o assunto é o abandono paterno.


Para a falta de informação há solução. Em 2017, quando o casal Marcela Tiboni, 36 anos, e Melanie Zuccherina, 29 anos, decidiram que havia chegado a hora de terem filhos, elas não sabiam nem por onde começar, tamanha falta de informação sobre o assunto.


"Tentei encontrar livros que pudessem nos orientar e não existia no Brasil. Havia entrevistas com casais, mas que contavam a história de uma forma breve. Somente pela internet conseguimos nos informar. Por meio do Facebook, pedimos indicações de médicos, e foi o que nos ajudou", conta Marcela.


Essa falta de conteúdo voltado para os casais de lésbicas que decidem engravidar foi a motivação para Marcela escrever o livro “Mama: um relato de maternidade homoafetiva", lançado em 2019, e um dos únicos sobre o assunto no país. A obra é o relato de Marcela sobre a sua vivência. As duas são mães de Iolanda e Bernardo, hoje com 1 ano e 3 meses.


Sobre o preconceito, Marcela diz ser uma mulher branca e moradora de um bairro classe média de São Paulo. "Nessas condições, as coisas são muito veladas. A realidade seria diferente se eu fosse mulher, negra, lésbica e da periferia. Além disso, no nosso casal, não há uma mulher que tem um estereótipo extremamente masculino. Nessas configurações de casais homoafetivos há um preconceito maior."


Ela resume que os maiores preconceitos sociais têm a ver com isso: presença masculina, "principalmente vindo dos homens, porque para eles é um absurdo vivermos numa relação sem um deles"; e a relação religiosa, "que diz estar errado duas mulheres serem mães".



Lilianne Dantas e Patrícia Luna optaram pela Fertilização In Vitro (FIV), usando o óvulo de cada uma. (Foto: Deborah Ghelman)

Caminhos da gestação


Quando um casal de mulheres decide por ter filhos há vários caminhos, que vão desde uma fertilização ou até uma adoção. A ginecologista e obstetra Ana Thais Vargas explica que o primeiro passo para a gestação com duas mães é escolher o óvulo fecundado. "Pode ser de uma, da outra, de cada uma delas ou de uma doadora", diz.


Caso seja acertado que os óvulos serão do casal, uma das duas ou as duas vão fazer o processo de estimulação de ovulação. "Nessa etapa, para que haja uma hiperovulação, remédios são injetados nessas mulheres como estímulos. Depois disso, são coletados os óvulos viáveis para a fecundação", diz Ana.


Outro passo é a escolha do doador de esperma. Pode ser um conhecido, ou pelo banco de sêmen nacional ou internacional. Os óvulos são fertilizados e fecundados, e surgem os embriões. Geralmente, são colocados dois embriões no útero da mulher que vai gestar. Esse procedimento é chamado de Fertilização In Vitro (FIV) e tem que ser feito em clínicas de fertilidade. "Existem poucas no Brasil que atendem o público de baixa renda", avisa a médica, reconhecendo que os valores são altos.


Só os remédios para a estimulação dos ovários custam em média R$ 5 mil. O tratamento todo pode chegar a R$ 20 mil. "Na inseminação artificial, o médico insemina a mulher durante o seu período de ovulação, por meio de uma seringa com sêmen doado".


Nos dois casos, as clínicas, segundo a ginecologista, emitem documento certificando que o casal fez tratamento e pode registrar a criança normalmente.


A especialista ressalta ainda haver o modo caseiro, feito sem acompanhamento médico. O sêmen pode ser doado por um homem conhecido ou não, e a mulher o injeta na vagina e espera deitada pela fecundação. "É como se fosse uma relação sexual, porém, com um doador que a mulher pode não conhecer o histórico de doenças", alerta.


Além disso, desde agosto de 2019, mulheres lésbicas que optaram pela forma caseira estão recorrendo à Justiça para conseguir registrar seus filhos. Isso porque o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) endureceu as normas para registros por filiação socioafetiva (maternidade por meio dos laços de afeto). Antes, era possível registrar o bebê direto no cartório, agora, isso tem sido feito via processo judicial.


O casal Marcela Tiboni e Melanie Zuccherina optou em doar óvulos e, com isso, teve gratuidade no tratamento para engravidar. (Foto:Divulgação)

"Um casal heteronormativo pode, num sábado à noite e num momento de loucura, tomar uma garrafa de vinho, ter uma relação sem camisinha e ver o que acontece. Conosco, não havia essa possibilidade. Tinha que ser uma coisa agendada, organizada e que demoraria bastante tempo", conta Marcela Tiboni.

Ela e Melanie Zuccherina decidiram ter filhos quando já estavam há 4 anos juntas, tinham adotado cachorro e estavam felizes em suas carreiras. "Era o momento certo". Na época, Mel tinha 28 anos e Marcela, 35. Por meio do Facebook, conseguiram indicação de clínicas, médicos e passaram a conhecer o processo.


O primeiro medo foi o de não serem bem recebidas na clínica em São Paulo, que tinha caráter social. "Desde o primeiro momento, toda equipe nos tratou como duas mães. O primeiro passo foi entender qual de nós gestaria. Depois, se íamos usar os óvulos da mãe gestante ou se faríamos o método 'ROPA', no qual a mulher usa os óvulos da outra para gestar. Optamos em usar os óvulos da Mel na barriga da Mel", explica Marcela.


Uma amiga do casal indicou a ovodoação compartilhada. Trata-se de um procedimento usado em clínicas de reprodução do país em que uma mulher, com menos de 35 anos, doa seus óvulos para receber, em troca, o tratamento de Fertilização In Vitro (FIV).


“Não foi a gratuidade que nos fez optar por esse caminho, mas o desejo da Mel de que, se a gente também precisaria comprar um sêmen de um homem que doou de forma generosa, ela também queria ajudar alguém que tivesse qualquer tipo de problema para engravidar”, conta Marcela.

Elas deram início ao tratamento em novembro de 2017 e, em janeiro de 2018, tiveram o positivo. Segundo conta Marcela, sobraram dois embriões entre os fecundados e os dois vingaram.


Elas, que não queriam gêmeos, levaram um susto quando souberam que seriam mães de dois. "No momento em que descobrimos isso, vieram a ansiedade e o medo. Ao mesmo tempo em que fomos tomadas por um amor pleno e já não conseguíamos pensar em só um bebê. Eram os dois", relata Marcela.


Para o casal Lilianne Dantas e Patrícia Luna, juntas há 9 anos, a decisão veio depois do casamento, em 2017. Elas sempre quiseram ser mães e aos poucos foram se preparando para isso. "Temos um perfil de receber muitos amigos, ir para as festas, viajar... fomos diminuindo e nos preparando", conta Patrícia.


Ela diz que, aconselhadas pela clínica onde fizeram a FIV, em Recife, elas aproveitaram as saídas e amigos. "O tratamento começou bem próximo ao carnaval, e aproveitamos todas as festas que amamos. Estávamos preparadas para viver etapa por etapa sem grandes expectativas".


Segundo Patrícia, o maior desafio inicial é o financeiro. Atualmente, a FIV custa em média R$ 20 mil. Elas optaram pela ovodoação e as duas doaram óvulos. Na gestação foram usados óvulos das duas. "Os meninos são, geneticamente, um da Lili e outro meu".

Lili engravidou dos gêmeos João e Joaquim já na primeira tentativa. Elas contam que curtiram demais a gestação, melhoraram a alimentação e fizeram programas mais tranquilos. "Nosso maior medo era de os meninos não serem saudáveis ao nascer.

E a maior descoberta é a de nossa força. Geramos vidas, somos mães. Isso é a descoberta que nos encoraja pra qualquer desafio da vida", garante Patrícia.


Indução à amamentação


Tanto Lilianne Dantas e Patrícia Luna quanto Marcela Tiboni e Melanie Zuccherina quiseram dar o peito. Por meio da indução à lactação, aquelas que não gestaram puderam amamentar seus bebês e compartilhar com a parceira esse momento saudável e afetivo para a criação dos filhos.


Não há nessa história motivos para susto. Conforme explica a fonoaudióloga e consultora internacional de amamentação pelo Conselho Internacional de Avaliação de Consultores em Lactação (IBLCE), Kely Carvalho, trata-se de um procedimento que pode ser feito em algumas mulheres, como aquelas que têm seus filhos via barriga solidária, as que adotam bebês, as que não engravidaram em casais de mulheres ou aquelas que têm filhos e param de amamentar por algum motivo.


"A indução à lactação nada mais é do que promover a produção de leite num período que não coincide com um pós-parto imediato", define Kely, explicando que há vários protocolos para a indução à amamentação, que passam por tirar leite, uso de bombas, fitoterápicos e até, em protocolos mais amplos, o uso de hormônios em um período anterior à chegada do bebê.

Há os que preveem também o uso de galactogogos, que são remédios cujo efeito colateral é aumentar a prolactina – substância que ajuda na fabricação de leite nas glândulas mamárias. A ginecologista e obstetra Ana Thais Vargas esclarece que o primeiro passo no caso de um casal de mulheres é o uso de anticoncepcional naquela que receberá a indução.


"A medicação simula uma gestação no corpo dessa mulher, elevando os níveis dos hormônios estrogênio e progesterona. Ainda é usado o remédio para estímulo da produção de prolactina. Quando interrompemos a pílula, é como se o parto ocorresse, gerando a queda hormonal na mulher. Depois disso, ocorre a parte mais importante desse processo: uso da bomba elétrica que faz a sucção nas mamas e, quanto mais vezes usada, maior a produção do leite", explica a ginecologista.


Como a data do nascimento dos bebês é algo previsível, a mãe precisa organizar as etapas desse processo levando em consideração a previsão de nascimento do bebê. "Então, todo esse protocolo é baseado em etapas: começar e parar remédios, uso de bomba eletrônica, e estímulo da mama baseada na data prevista do parto da mãe que está gestando", comenta Kely.


Ela ressalta que todo esse acompanhamento tem que ser feito por médicos e consultoras de amamentação. "Não é toda mulher que pode fazer essa indução. Sabemos de alguns casos que têm indicadores de risco. Há medicações que podem ter efeitos colaterais e, por isso, fazemos um trabalho com cada mulher que nos procura", diz.


No caso, por exemplo, de adoção de bebê, não se sabe ao certo quando a criança chegará, por isso, nem sempre poderá ser usado o protocolo completo. "No caso de uma mãe que já está com um neném, o procedimento também será de uma outra maneira. E cada mulher responde de uma forma ao tratamento. Logo, é um trabalho individualizado", esclarece. 


No caso daquelas que optaram pela indução, Kely aconselha procurar o tratamento seis meses antes de o bebê nascer para que todos os recursos sejam usados. "Os casais de mulheres que acompanhei começaram a tirar leite, com uso de bomba, antes de o bebê chegar".

Foi assim com Marcela, que começou o tratamento bem antes de os gêmeos chegarem. Quando Mel estava com 7 meses de gestação, ela tomou a medicação, cujo efeito colateral foi o aumento no nível de prolactina.


"Mas o fundamental para a produção do meu leite foi o uso da bomba elétrica 5 vezes ao dia, por 15 minutos, ao longo de 12 meses. Depois de 10 dias que comecei a usar a bomba, começou a brotar leite e, depois de três semanas, já tirava 30 ml", conta Marcela.


Patrícia, que também induziu a amamentação enquanto a Lili gestava, diz que o segredo está na dedicação. "Quando falamos em lactação induzida muita gente tem a fantasia de que o tratamento medicamentoso é o ator principal da história, mas não é. A dedicação na bomba de amamentação é extremamente importante. Nós duas participamos de diversas rodas de parto, curso, além de encontros com a consultora de amamentação o que nos preparou para este momento tão especial."


Marcela Tiboni (à dir.) induziu a lactação e diz que o uso de bomba de amamentação diariamente foi o que mais ajudou na produção de leite. (Foto:Divulgação)

Não há mágica


A fonoaudióloga e consultora internacional de amamentação Kely Carvalho ressalta que a indução à lactação não é mágica e que nem todas conseguem um volume de leite suficiente para amamentar exclusivamente o bebê.


Muitos casais de mulheres reclamam que as pessoas, como forma de invalidar essa maternidade, costumam dizer que o leite induzido não seria saudável.


Kely explica que ele está muito próximo ao chamado leite maduro da mulher que amamenta e que gesta. "A única diferença é que essa mãe com a lactação induzida não vai produzir o colostro (primeiro leite produzido por quem gestou). Por isso que, quando há um casal de mulheres, é importante que o bebê mame nos primeiros dias de vida de forma efetiva na mãe que o gestou para que ele possa receber o colostro".


Independentemente desse detalhe, amamentar um filho, gestado ou não, é benéfico.


"A maioria das mães que induz não vai produzir quantidade de leite suficiente para uma amamentação exclusiva. Mas, no caso do casal de mulheres, o bebê pode contar com o leite materno da outra mãe que o gestou. Qualquer gota é importante para a saúde dessa criança. Amamentar é mais do que ofertar leite, tem a ver com relacionamento, vínculo, desejo", enfatiza Kely.

"Amamentando ou não, somos mães"


Marcela conta que tem conversado e escutado muitas mães que não gestaram sobre como se sentem. “Há a invisibilidade na maternidade porque não gestaram e não amamentaram. Minha amamentação acaba me validando no sentido de me colocar socialmente como mãe, mas acho isso horrível. Amamentando ou não, somos mães. E as pessoas não têm nada a ver com isso”.


Marcela e Mel amamentam os gêmeos até hoje, porém, o lado não tão legal da amamentação começa a despontar. Os meninos estão com 1 ano e 3 meses, e para Marcela já está na hora de regular a mamada. Já Mel quer continuar na livre demanda.


"Na cabeça deles isso pode estar confuso. Uma mãe está disponível o tempo inteiro e a outra não", enfatiza Marcela, para quem o processo de amamentação é muito gostoso e uma maneira de partilhar a maternidade de forma igualitária.


A amamentação entre elas já foi dividida entre bebês (cada uma amamentava um) e entre turnos (cada mãe amamentava em um horário da madrugada). "Atualmente os dois dormem juntos no mesmo quarto até as 2 horas da manhã. Quando eles começam a acordar e a pedir peito, cada uma leva um para outro quarto e dorme junto com ele", revela Marcela.



Marcela Tiboni e Melanie Zuccherina viveram juntas um puerpério intenso e se fortaleceram ainda mais como casal e mães. (Foto:Divulgação)

Parceiras em puerpério e divisão de tarefas


A maternidade homoafetiva, segundo os casais, tem uma parceria mais igualitária. Além da amamentação compartilhada, o puerpério e as tarefas na criação de filhos também são divididos.


"As pessoas me perguntavam quem iria fazer o supermercado, quem iria sair para trabalhar. É sempre quem estiver mais disposta naquele dia. Quando precisamos fazer compras, há dias que eu vou e ela fica em casa com os bebês, ou ela vai e eu fico, ou vamos os quatro", diverte-se Marcela, dizendo não haver sobrecarga para uma delas. "São as duas acabadas no fim do dia porque fazemos as mesmas funções".


Na casa da Patrícia e da Lili, o puerpério está só começando e elas disseram que esperavam pelo pior. "A privação de sono tem sido algo bem complexo. O pós-operatório da cesárea da Lilianne também é um processo que tá complicado: ela sente dor, não consegue se movimentar e teve anemia devido à perda de sangue. No mais, é só amor. É incrível ser mãe, é incrível ser o alimento exclusivo de alguém", alegra-se.


Com Marcela e Mel, o puerpério foi mais intenso. Elas choraram muito, se abraçaram, e até amamentaram os bebês olhando para uma TV desligada, respeitando o silêncio de cada uma. "Alguns profissionais diziam que eu não passaria pelo puerpério porque tem a ver com o parto, e outros diziam que eu teria por ter a ver com amamentação e chegada dos bebês. Eu tive um super puerpério. O meu durou meses e o da Mel durou mais de um ano. Vivemos juntas lado a lado", diz.


“É muita parceria, de entender que aquilo não é mimimi ou mulher querendo se fazer de vítima. Depois de vivermos o puerpério juntas, nada mais nos segura. Foi muito intenso", diz Marcela.


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