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“A mãe solo negra luta contra o racismo, machismo e o sexismo”

Atualizado: Ago 24


Por Luciane Evans


A maioria das mães solos no país é negra. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, elas representam 61%. A atriz e autora do @negramanhê_sou, Naiara Augusta, de Belo Horizonte, está nesse grupo e reforça que, para essas mulheres, o abandono paterno é algo ainda mais cruel, e boa parte delas já se sentiu culpada pelo abandono.


O sentimento, segundo Naiara, se aflora desde os primeiros meses de gestação com o afastamento do genitor.


"A culpa está em carregar esse peso sendo mulher negra e periférica, diante de uma sociedade racista, machista e sexista. Está na sobrecarga da mulher negra na educação solo de um filho, sendo que a maior parte delas possui mais de dois filhos. Está nas dores para ensinar seus meninos e meninas a se defenderem do racismo e a combaterem o racismo institucionalizado. A culpa pela ausência paterna implica cruelmente a vida da mulher negra", conclui.

Naiara tem uma história de resistência. Em 2017, quando acabara de entrar para a universidade, sendo a primeira mulher negra da sua família a ocupar esse espaço acadêmico, descobriu, em novembro, que seria mãe, colocando em jogo todos os seus sonhos e anseios.

"De onde eu venho, as mulheres negras, quando se tornam mães, não têm alternativa, a não ser deixar para trás os seus objetivos, anseios, estudos", diz. Dados recentes mostram isso. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2019, feita pelo IBGE, aponta que 10 milhões de jovens, de 14 a 29 anos, não frequentam a escola nem concluíram o ensino médio, sendo que, 7,2 milhões deles são pretos ou pardos, e entre as mulheres, quase um quarto (23,8%), deixou os estudos depois de ter engravidado.

Naiara conta que veio de uma família conservadora e seu pai ficou 7 meses sem falar com ela por causa da gravidez. "Decidimos, eu e o pai da minha filha, que teríamos o bebê. No entanto, no decorrer da gestação, percebi que essa decisão tinha sido só minha", conta. E, apesar de toda a dificuldade, Naiara continuou a universidade gestando Cecília.

Para ela, o machismo foi evidente no primeiro trimestre de gestação. "A pergunta sobre a paternidade é a primeira a surgir. A família, os amigos, as pessoas que eram próximas se afastam e, com isso, a solidão da maternidade é cruel."

Recorte histórico


A maternidade negra, conforme destaca Naiara, requer resgate na história. "A mulher negra escravizada deixava de amamentar seus filhos para servir de ama de leite aos da casa grande, e, muitas das vezes, seus filhos morriam de desnutrição. A mulher negra acalentava seus filhos aos prantos para não acordar a casa grande, sendo que muitas delas geravam filhos vindo do estupro de seus 'senhores'"

Naiara compara o passado com os casos recentes de violência policial nas favelas do Rio de Janeiro, onde crianças negras foram baleadas. "Hoje a mãe negra continua deixando seus filhos para servir a casa grande. Seus filhos continuam morrendo, dentro da própria casa onde deveriam permanecer 'seguros'. Consola seus filhos aos prantos, após uma abordagem policial. A mulher negra, mãe solo, luta todos os dias contra o racismo, machismo e o sexismo. Lutar contra todas essas opressões é, evidentemente, muito dolorido."


Para ela, a mulher negra sofre com o abandono em diversas áreas. Segundo o IBGE, no Brasil, 63% das casas chefiadas por mulheres negras estão abaixo da linha da pobreza. Em 2018, segundo o estudo, esse valor equivalia a aproximadamente R$ 145 mensais, por pessoa.


"Por isso que sempre frisamos a solidão da mulher negra. Nós, muitas vezes, romantizamos o relacionamento afrocentrado (entre parceiros negros) entre uma mulher e um homem heterossexuais. Ainda que não possamos anular todas as opressões que são depositadas para o homem negro, como o patriarcado que lhe sufoca e as dificuldades de ser homem negro e pai perante essa sociedade opressora, ele, diante da mulher negra, ainda mantém uma heterogeneidade por ser homem. Muitas vezes, reproduz a ausência paterna que teve em sua infância."

Cecília tem hoje 2 anos e Naiara faz de tudo para que ela mantenha contato com pai. "Tenho a impressão de que nós, mães solos, enquanto mulheres, nunca vamos suprir esse vácuo paterno. A Cecília desde bebê convive com a minha família, em que todos depositam todo o carinho de que ela precisa. Ela tem o afeto do meu pai e creio que, para ela, seja, ao menos, um pouco de uma figura paterna. Ela tem contato com o pai dela, por meio de ligações, até mesmo dentro da universidade, porque ela frequenta as aulas comigo desde o primeiro mês de nascimento. Na medida do possível, eu mantenho essa ponte entre eles, para que isso não cause danos de maiores proporções futuramente."



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