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"A gente tem que gritar o estrago que fazem pra gente"

Atualizado: 13 de Dez de 2019

Há 40 anos, Maria Francisca Pickerell teve sua primeira filha, em um parto cheio de violências obstétricas. As cicatrizes emocionais deixadas doem até hoje



Eu entrei em trabalho de parto às 22h do dia 9 de outubro de 1976. Minha bolsa estourou em casa.


Logo em seguida, fui levada para o hospital, onde meu marido não pôde ficar comigo, pois na época não era permitido. Assim, me vi sozinha e totalmente desamparada.


Passei a madrugada toda com fortes contrações e ninguém vinha me ver, por mais que eu solicitasse. Às 7 da manhã do outro dia, uma enfermeira chamada Bernadete passou casualmente por mim, e olhando meu rosto retorcido pelas dores, resolveu me atender. Levou-me para a sala de pré-parto e me examinou.


Eu já estava com toda a dilatação necessária para que minha criança nascesse, então ela, para apressar o meu parto, me aplicou uma injeção que só muito tempo depois eu descobri que era de ocitocina. Quem já tomou, sabe. Eu fiquei roxa de tanta dor. Como se não bastasse, fui cortada.


Eu fiquei em total estado de choque. Carreguei esse trauma por muitos e muitos anos em minha vida. Depois que a criança nasceu e me levaram para o apartamento, a alegria dos parentes era imensa, mas eu estava exausta e traumatizada, embora feliz pela chegada de minha primeira filha, que nasceu um dia antes do meu aniversário. Eu olhava pra mim e não acreditava que tudo aquilo tinha acontecido.

Não sei se fui vítima de violência obstétrica. Naquela época era normal usar ocitocina para apressar as contrações e adiantar o parto. E eu nunca planejei como seria meu parto, eu só sei que foi assim.


Depois de parir eu me sentia péssima. Era como se tivessem passado por cima de mim com um rolo compressor. Tudo isso deixou sérias consequências psicológicas. Mais tarde eu tive uma severa depressão e comecei a ter síndrome do pânico. Até hoje tomo antidepressivos.

Eu não quis mais parir, e só fui ter minha segunda filha 13 anos depois, já num segundo casamento.


No segundo trabalho de parto, quando as contrações se tornaram mais fortes, eu tomei 2 comprimidos de Buscopan. Estava apavorada, com medo de passar por tudo de novo. Quando minha filha estava com 2 meses fiz laqueadura para não correr o risco de outra gravidez.


Desculpa a franqueza, mas um parto é uma crueldade da natureza conosco. O pior é que tínhamos que fingir que estava tudo bem. Não nos queixávamos, nossas mães diziam que era assim mesmo e pronto.

A sensação de ser cortada (em um procedimento chamado episiotomia) é a de ser mutilada. A minha filha mais velha passou pela mesma coisa, só que o marido estava com ela. Também aplicaram ocitocina, também cortaram, e a enfermeira falou para ela não gritar porque só seria atendida quando fosse realmente a hora.


Essas coisas ficam gravadas na memória, embora a gente não queira. Às vezes acho que foi frescura minha e sinto culpa por não ter sido forte o suficiente. Às vezes penso que não é isso, e que a gente tem que gritar pro mundo o estrago que fazem pra gente.