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A fantasia não pode parar

Atualizado: Abr 1

Para amenizar o isolamento social usado como medida de prevenção ao coronavírus, mães contadoras de histórias divertem crianças com transmissões ao vivo pelas redes sociais

Nana diz que as mães estão emocionadas com o gesto dos contadores de histórias

Por Luciane Evans

Os olhos atentos das crianças, as palmas, as gargalhadas, as intervenções engraçadas e, às vezes, atrapalhadas. Essas são, sem dúvida, as reações que um contador de história espera ver e ouvir quando leva fantasia e imaginação para o público infantil. Mas essa tradição oral e presencial agora se reinventa.

Com a pandemia do Coronavírus (Covid-19), esses profissionais criaram um movimento nacional para continuar a contar suas histórias em tempo de isolamento social. Por meio de transmissões ao vivo em redes sociais, eles estão ajudando os pais a entreter os filhos durante a quarentena e, ao mesmo tempo, aproveitam para manter a profissão, que sofre consequências cruéis com o Covid-19.

Festas, encontros, piqueniques, celebração em empresas, apresentações em escolas e lançamentos de livros são os pilares para esses contadores de histórias que vivem disso. Com a pandemia, todos esses eventos foram adiados. As agendas desses contadores estão agora sendo preenchidas por compromissos gratuitos em redes sociais.

"É enxergar esse momento como uma oportunidade de se comunicar de forma diferente. Eu sempre adiei fazer esse trabalho online, justamente pela essência da contação de histórias, que é uma troca pessoal e uma tradição oral. Mas agora faz todo o sentido. A live é uma forma de nos aproximar", comenta a contadora de histórias, Anna Lirah.


Anna Lirah conta com a participação do filho Otto nas lives

Mãe do Otto de 5 anos, Anna é formada em Publicidade e Propaganda e se tornou contadora de histórias depois da maternidade. Conhecida em Belo Horizonte, ela diz que, a pedido das mães que conhecem o seu trabalho, resolveu se render às lives. E tem dado certo.


"A primeira que fiz foi com a história que criei, a da Dona Joaninha, e as crianças participaram bastante. Fiquei tão feliz que resolvi fazer outra live no outro dia, logo cedo", conta. A artista revela ter planos maiores para essas transmissões ao vivo: a de contar histórias em inglês para que crianças de outros países que estão em isolamento também possam se divertir.

"Este é um trabalho de amor. Não sei fazer outra coisa na minha vida, não sei escolher outro caminho. Com essas lives, ganhamos muito mais do que dinheiro. Ganhamos amor, alegria, carinho. E isso não tem preço. Nosso espírito fica muito agradecido e esperançoso de que as coisas vão se ajeitar. O amor vence", analisa Anna Lirah.

Horários variados ao longo do dia


Cada contador tem escolhido um horário mais adequado para começar suas transmissões ao vivo. Há quem só as faça na parte da manhã, outros que preferem o período da tarde. E tem profissional que se apresenta nos dois turnos. O anúncio dos horários é feito na página do Instragram com antecedência.


"É um movimento fantástico. Uma forma de acalentar, aquecer, fazer sorrir, deixar o dia um pouco mais leve e acalmar os corações que andam tão apreensivos com o que está acontecendo no mundo todo. Eu escolhi fazer minha live todos os dias às 14h, contando histórias e brincando com as crianças. Cada um fazendo a sua parte, cada um contribuindo para o bem estar do outro. E se por acaso eu conseguir arrancar um sorriso de uma criança e fazer a família brincar juntos, ganhei o dia”, comemora Rúbia Mesquita, que é contadora de história antes mesmo de ser mãe do Theo, de 1 ano.

Rúbia Mesquita escolheu fazer lives sempre às 14h

Ela diz que cresceu ouvindo os pais contarem histórias . "Como trabalhavam fora, a forma que encontraram de estarmos juntos e fortalecer o afeto entre nós era toda noite contar histórias para mim e meus irmãos", recorda. Ela formou em magistério, deu aula na educação infantil e foi convidada para contar histórias em um programa infantil na TVX.

Virou apresentadora por 11 anos, no programa ao vivo e diário. Hoje, ela faz palestras, é autora do livro infantil o 1, 2, 3 contos de uma vez, da editora Uni Duni e conta histórias para crianças, professores e funcionários de empresas. "São uma das melhores ferramentas para transmitir conhecimento, valores e chegar mais rápido ao coração das pessoas", diz Rúbia. Para ela, as lives têm sido uma experiência nova, embora parecida com o ao vivo da TV.

"A tecnologia conseguiu aproximar ainda mais as pessoas, e eu amo essa interação que as lives proporcionam. Fico sabendo na hora se a criança gostou, se errou a brincadeira, se está ligada no assunto. Eu termino uma live pensando no dia seguinte. Penso no que posso fazer para que quem esteja do outro lado se divirta e a troca de energia seja sempre a melhor possível."

Trabalhando com amor e com os filhos


Ao mesmo tempo em que entretêm crianças e adultos, essas contadoras de historias acataram as recomendações das autoridades de saúde e também estão isoladas com seus filhos, buscando divertí-los.

Anna Lirah tem feito as lives com a participação especial do filho Otto. "É um grande desafio fazer uma transmissão ao vivo com filho ao lado. Ele é meu único público presente. Ele quer participar, falar, dar opinião. E não faz sentido eu fazer uma live para crianças e excluir o meu próprio filho de experimentar.  É ele que dá sentido a tudo isso." Os dois, inclusive, gravaram um vídeo com uma música criada por Anna contra o Covid-19.

Nana também tem investido na arte de fazer brinquedos

Na casa da contadora de história Nana, em Betim (MG), os dias também têm sido de criatividade. Há 10 anos na profissão, ela tem dois filhos, Lucy de 1 ano e 9 meses, e Tiago de 6 meses. Onde apresenta, ela os leva junto. "Eles me acompanham em tudo. Está sendo difícil para a Lucy, porque vivemos na rua e, agora, tivemos nossa agenda totalmente adiada", diz, acrescentando que seu marido também é das artes e trabalha como mágico. "Somos praticamente uma trupe", brinca.


Nana tem aproveitado o isolamento social imposto pela pandemia para investir nas lives e também para fazer brinquedos. "É uma maneira de amenizar essa situação tão triste e, de certa forma, blindar as crianças das energias ruins." Ela define a situação como apavorante, "ainda mais para quem tem bebê em casa."

Rúbia Mesquita também se diz assustada. "Não são dias fáceis e não tem nada pior do que você não saber até quando vai durar tudo isso. E pensar que meus pais e minha avós são grupo de risco. Isso me faz ser ainda mais responsável. Preciso cuidar de mim, do meu filho, preciso cuidar deles. Quero que eles tenham saúde o suficiente para viverem muito bem e com a gente por muitos anos."

Rúbia diz estar canalizando todos os seus pensamentos e atitudes em fazer o bem. "Em poder contribuir com o dom que me foi dado. Assim fazer outras pessoas felizes, plantar sementes de amor, tranquilidade e de esperança por dias melhores."



Conheça 7 páginas de Instagram de contadores de histórias que fazem lives :


Anna Lirah


Carol Levy


Camila Genaro


Fafa Conta


Mãe que lê


Nana


Rubia Mesquita





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