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A diversidade põe o bloco na rua

Atualizado: Fev 27

Bloco Todo Mundo Cabe no Mundo é referência como carnaval inclusivo em Belo Horizonte. Por meio da alegria e boa música, convida todos nós a "pertencer"


Bateria é composta por cegos, surdos, cadeirantes, autistas, portadores de síndrome de Down e quem quiser participar


Por Luciane Evans


É de rua, do povo, do rico, do pobre, do branco, do preto, do amarelo, da mulher e do homem, das crianças... É democrático como dizem, mas nem sempre inclusivo como deveria. O carnaval, a nossa festa popular de maior força e potência, tem sido visto como uma importante ferramenta de inclusão e empatia para a sociedade.


É com essa proposta e se destacando entre os muitos grupos carnavalescos de Belo Horizonte, que o bloco Todo Mundo Cabe no Mundo tem feito história na capital, ao permitir, verdadeiramente, a ideia de que a rua e a festa são de todos, sem exceção.


Na bateria estão jovens e adultos com síndrome de Down, surdos, cadeirantes e aqueles com ou sem limitações aparentes. Na multidão, que já chega a 3 mil pessoas, a diversidade está presente em cada batida. Ali, os foliões se esbarram nas diferenças. E essa é a grande magia da festa, que este ano ocorre no domingo de carnaval (23/02), às 9h, na Rua Piauí 647, no Santa Efigênia, Região Leste de BH.


Esse abre alas realmente democrático começou em 2016, depois de o artista plástico Marcelo Xavier perceber que uma parcela enorme da população ficava de fora de uma alegria que é pública. "Se há uma festa na rua, que é pública, por que não está todo mundo?", questionou, na época.

Para dar essa resposta, ele foi trouxe poesia ao carnaval inclusivo. Marcelo, que além de artista plástico é escritor, cenógrafo, figurinista e autor de livros infantis, se diz um eterno apaixonado pela folia. E, na história de BH, sempre foi atuante. Participou da festa no Bairro Ipiranga, na década de 70; depois, com os blocos caricatos, na Afonso Pena, nos anos 80.


Nessa época, sem dinheiro, ele conta que ao lado de Mário Vale, fazia adereços com papel e plástico, sempre com uma dose de criatividade. "Sou de Ipanema, interior de Minas. Vim para BH na década de 60, me casei, tive filhos e daqui ninguém me tira", brinca, destacando que a festa do Momo da capital mineira teve como resistência ao longo dos anos a tradicional Banda Mole, que sempre manteve acesa a chama carnavalesca da cidade.


"O carnaval é a maior obra de arte de rua do mundo. Há um lado que gosta de nos desmerecer ao dizer que o país não é sério porque gosta de carnaval. Isso não tem nada a ver. É um privilégio termos essa festa popular para nos unirmos pela alegria”, destaca.



"A limitação está na sociedade, na cidade"


Marcelo estava pulando, dançando, curtindo as festas brasileiras quando soube que era portador de uma doença genética, que o deixa na cadeira de rodas há 15 anos. "Eu nasci com essa doença, mas, como uma bomba relógio, ela se manifestou por volta dos meus 50 anos. Minha mãe a teve, os irmãos dela também", explica. Depois do diagnóstico, ele diz ter passado um ano achando que a sua vida tinha acabado.


Com o passar do tempo, o "não andar" passou a ser um detalhe. "Quando você sente isso, muda tudo. E você começa a viver de novo, aceitando que a vida é outra." Quando Belo Horizonte retomou a alegria pelo carnaval para virar essa potência que é hoje, arrastando para as ruas 5 milhões de pessoas, Marcelo foi pressionado pelo genro Leo Medina a propor um bloco diferente.


Marcelo Xavier: "preconceito é veneno"

"Eu disse que topava o desafio, desde que fosse com o slogan ‘todo mundo cabe no mundo’, que foi o nome de um movimento criado por nós em 2010 e que combatia o preconceito", conta.


Na época, o movimento, que levava o nome de "Preconceito Zero - Todo Mundo Cabe no Mundo", reuniu centenas de pessoas em uma movimentação artística espontânea na praça Duque de Caxias, em Santa Tereza. O principal símbolo da iniciativa foi uma sombrinha, que deveria ser enfeitada da forma que o dono achasse melhor.


A sombrinha, inclusive, é também um símbolo de acolhimento. "A ideia enveredou pelo caminho da folia e tomou corpo no bloco, que está aberto para todos que quiserem participar de uma sociedade mais inclusiva", convida.


O hino do Todo Mundo Cabe no Mundo já entrega a que veio. "Nesse bloco ninguém anda, todo mundo voa a três metros do chão/ninguém vê a dura realidade, ninguém ouve a voz da razão." "Nosso hino se posiciona a favor da inclusão, estamos falando de cegos, surdos, cadeirantes...", revela Marcelo.

Para ele, o "preconceito é o veneno da sociedade" e há, sim, pessoas absurdamente preconceituosas. "É uma prova de ignorância e é inadmissível, principalmente, o racial", diz.

"Se você for aos nossos ensaios, você vai encontrar cadeirantes, cegos, autistas. É emocionante quando as famílias veem falar conosco sobre a alegria de estar no bloco", orgulha-se Marcelo, reconhecendo não estar fazendo nada de extraordinário.


"Não estamos fazendo uma coisa fantástica. É algo que deveria ser um princípio de todos. O preconceito começa na própria pessoa, na própria família. Se você não tem essa consciência do que é ter uma limitação, você se esconde em casa e se autocensura", avisa.


Ele diz que quando as pessoas chegam a um ambiente e veem outras na mesma situação, começam a ficar mais relaxadas. "A limitação está na sociedade, na cidade. Todo mundo tem. Existe aquela que é aparente, como a do cego, do cadeirante entre outros. E há aquela que não é. A limitação não tem limite", ensina.


Um convite poético a pertencer


A aposentada e poetisa, Maria Antônia Coelho Moreira, de 64 anos, é uma das folionas que não perde o Todo Mundo Cabe no Mundo, e o acompanha desde a fundação. Ela diz que quando Marcelo Xavier preconizou, em 2010, o "Preconceito Zero", abriu um mundo de possibilidades de se unirem pessoas de várias tribos, preferências e características próprias.

Maria Antônia frequenta o bloco desde 2016

"Quando a arte abriga a todos, os chamados 'especiais' se incluem. Veem, ali, oportunidades que nem sempre lhe são oferecidas no dia a dia", observa, definindo o bloco como convidativo.


Maria Antônia ressalta que na medida em que não há rigidez e essências comuns da sociedade no bloco, "há uma acolhida embasada na liberdade e empatia, e, daí, sem discriminar, a vida se torna um convite diário." "Assim vejo o bloco Todo Mundo Cabe no Mundo - um convite a pertencer", conclui.

Marcelo sente orgulho ao dizer que, entre os muitos foliões do bloco, há uma pessoa que vai com aparelhos médicos ligados ao corpo. "A família fica perto e essa pessoa se diverte muito. Quem tem contato com o Todo Mundo Cabe no Mundo passa a ter uma outra ideia de sociedade democrática e de diversidade", garante.


Em 2019, Fabíola Guimarães foi ao bloco grávida


A psicanalista Fabíola Guimarães sabe disso. No ano passado, ela foi grávida de oito meses atrás da música e da boa energia do Todo Mundo Cabe no Mundo. "É o meu bloco favorito. Trabalho com intervenção a tempo para bebês e crianças com risco psíquico, atraso em desenvolvimento e/ou síndrome. É super pertinente a forma poética como Marcelo leva isso pra rua", avalia.



"Para o meu filho é algo mágico e terapêutico"


Apaixonada pela folia desde pequena, a neuropsicóloga Fátima Mota é mãe de três garotos, sendo um deles, o Henrique, que tem 14 anos e é autista. "Pensei que estaria fadada a ficar em casa e assistir a essa festa pela TV", revela. Mas, no ano passado, ela disse que "tomou coragem" e se inscreveu com o filho Henrique para as oficinas do bloco Baiana Ozadas. "A acolhida e o carinho da escola e dos foliões foram emocionantes", recorda.


Henrique desfilou no bloco Baianinhas, tocando pandeiro. A partir daí, ele não parou mais. Foi convidado a integrar a oficina de percussão do bloco Seu Vizinho, do Aglomerado da Serra, e, desde abril de 2019, ensaia com o grupo. "Para ele é algo mágico e terapêutico. Todos respeitam as suas dificuldades e tentam ajudá-lo a tocar no ritmo certo", conta a mãe.


O bloco Seu Vizinho surgiu na Vila Marçola, no Aglomerado da Serra, para contornar algumas faltas de acesso na comunidade. De acordo com os organizadores, "há falta de acesso à alegria do carnaval, ao entretenimento, à cultura, ao direito de ir e vir, à geração de renda, ao direito de ter tempo livre para se divertir, remexer ‘e rebolar como quiser, sem ser desrespeitado e sem desrespeitar ninguém”, diz o texto de apresentação do bloco na página do Facebook.


Henrique toca na percussão do bloco Seu Vizinho


Atualmente, o Seu Vizinho é uma Escola de Artes Livre e Periférica com foco em música e produção cultural. Desenvolve oficinas artístico-culturais gratuitas que empodera crianças, jovens, adultos e idosos; faz apresentações por BH e em outras cidades, gera renda para comunidade e promove a cultura e os artistas locais. Este ano, o tema do bloco é a diversidade.


Fátima diz já ver resultados no desenvolvimento do filho, uma vez que a música resgata uma forma de comunicação.


"Ele, que tem grau severo de autismo, começou a seguir os comandos mais simples da percussão. Estamos muito felizes com essa inclusão. Mesmo porque a aceitação acontece de uma forma até mais ampla. O grupo abre as portas da grande comunidade da Serra para nós, que somos vizinhos dele do outro lado do asfalto", comenta.

No domingo de carnaval, Henrique sairá pela primeira vez no bloco Todo Mundo Cabe no Mundo, para qual Fátima está animada. "Vejo que o carnaval em Belo Horizonte fomenta, além dos dias festivos, um jeito de solidificar a cidadania, a cultura e a arte em nossa cidade. Para nós, essa participação nos blocos será tradição."


Ela enfatiza que a sociedade também ganha muito ao abrir alas para a inclusão. "Ganhamos com a aprendizagem da aceitação, ao criarmos um espaço de convivência e respeito, buscando o que há de melhor em nós: aceitação, amor e doação. Isso vai desconstruindo o paradigma de que o autista, por exemplo, é uma pessoa a quem devemos temer e nos afastar", afirma.



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