• Cria Para o Mundo

"A criança sente muito nossas angústias"

Atualizado: Abr 21

Thais Basile, criadora do projeto Educação Para Paz, diz que, neste isolamento social provocado pela Covid-19, pais devem lidar com os próprios medos e se permitir senti-los


Por Luciane Evans


Raros são os pais que, neste momento de isolamento social, têm conseguido trabalhar bem o seu lado emocional. Diante de medos, incertezas e da falta de controle que o novo coronavírus nos revela, é difícil manter a calma, inclusive, com os nossos filhos.


E não são poucas às vezes que nos sentimos, diante da impotência, culpados. A paciência vai embora e vem a culpa. Ela  chega quando não damos mais conta de brincar com as crianças; quando sentimos exaustos de tentar equilibrar casa, família e trabalho; quando aumentamos o tom; quando  simplesmente não conseguimos mais nos enganar e  fingir que está tudo bem.  Estamos com os nervos à flor da pele.


Mãe da Lorena, educadora parental, especialista em psicopedagogia e inteligência emocional, Thais Basile diz que esses sentimentos são normais, e defende que sejamos honestos conosco e com nossos filhos.

"É um período para apenas tentar aceitar as limitações e dificuldades, e tentar não se cobrar, mas sem esquecer que as crianças são o elo mais fraco dessa corrente e que não podem ser cobradas pela regulação emocional que nem a gente consegue ter", escreveu nas suas redes sociais.


Criadora do projeto Educação Para a Paz, Thais é hoje uma das vozes mais importantes sobre educação parental do país. Para ela, o caminho sempre está no acolhimento e no respeito com a criança.


Nesta entrevista para o Cria Para o Mundo, Thais diz que precisamos, neste momento, de autoconhecimento, porque ao entendemos nossos medos e angústias, teremos mais condições de exercer uma educação respeitosa.



Leia a entrevista


Como manter uma criação respeitosa em meio ao caos de sentimentos vivenciados pelos próprios pais nesta pandemia?

A primeira coisa é olhar para nós. Educação respeitosa se trata de se conhecer mais para ter mais autorresponsabilidade e descontar menos nossos problemas nos filhos. Não se trata de "se controlar", porque tudo que se controla uma hora explode.


É justamente para o nosso caos que precisamos olhar: o que é medo real (de adoecer e não poder cuidar, estar lá pros nossos, de não ter grana, etc) e o que é angústia (sobre o que esse medo está suscitando em nós, que quase sempre tem a ver com grandes feridas que carregamos da nossa própria história de vida, que estão sendo trazidas à tona por essa pandemia) e se permitir sentir. Chorar, escrever, colocar pra fora.


Muitos pais acabam perdendo a paciência e se culpam por isso. Até que ponto a falta de paciência pode ser traumático para as crianças?


 Trauma é algo que não dá pra mensurar ou projetar assim facilmente, porque cada um entende e elabora as situações de uma maneira específica. Com relação à perda de paciência, ela na verdade se chama irritação. Nossos medos e angústias mal processados (não elaborados, não sentidos e não expressados) são escondidos com a "capa" da raiva, daí vem nossa irritação, que faz a gente se sentir mais "no controle" quando estamos inseguros.


Provavelmente, se os gritos e a irritação estiverem acontecendo em caráter de exceção, e não de regra, não há problema, desde que o adulto peça desculpas à criança e tente lidar com seus medos e dores de outra forma.

Como estabelecer um limite para que a criança entenda que em alguns momentos o pai ou a mãe (ou ambos) vai precisar se dedicar a alguma atividade que não a inclui?


Ela entender não quer dizer concordar e fazer sorrindo, e isso é absolutamente normal. Crianças, principalmente em situações na quais se sintam inseguras, vão recorrer às suas figuras de apego para se sentirem melhor. São os adultos que precisam entender melhor suas feridas de abandono e negligência para que consigam deixar a criança por alguns momentos sem sentirem tanta culpa, e assim irão conseguir distraí-las, fazer um ambiente mais leve para que elas colaborem nesses momentos.


Com esse confinamento, muitos pais recorrem ao uso de telas para conseguir distrair as crianças e trabalhar. Até que ponto isso pode ser prejudicial para o desenvolvimento dos pequenos?


Em caráter de exceção é aceitável, sempre explicando para a criança, porque precisamos fazer o que é possível. Mas a Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomenda telas antes dos 2 anos de idade.

Como esse isolamento social (sem convívio com outras crianças da mesma idade e avós)  pode afetar o desenvolvimento das crianças na primeira infância? 


Não sabemos ainda. O melhor a fazer é minimizar, por meio de ligações de vídeo, falando bastante ao telefone com as pessoas amadas, mas, principalmente, lidando com nossos próprios medos de estarmos isolados, de adoecer e morrer, porque a criança sente muito nossas angústias.

As crianças estão mais carentes nesse período. Se ter  atenção negada por alguns minutos desencadear gritos, choro, jogar objetos no chão, o que fazer?


Acolher e direcionar o comportamento ('essa bolinha pode jogar, o brinquedo grande não'). O castigo só afasta mais a criança do adulto e piora ainda mais o comportamento da criança.

Como fica, neste momento, a relação escola, pais e professores? 


Precisa ser de muita união e conversa. Porque as escolas (particulares) estão muito preocupadas com inadimplência, os pais preocupados com seus filhos "ficarem para trás" e, nessa, quem sai perdendo é a criança, que muitas vezes tem muito conteúdo jogado em suas costas e não sabe lidar com a avalanche de emoções que o momento está trazendo nela e com a quantidade de tarefas.

Para uma criança que estava em adaptação escolar, como será depois que o isolamento acabar? E aquelas que já estavam acostumadas com a escola terão que passar por um novo processo de adaptação escolar?


Provavelmente sim, as escolas irão avaliar isso dependendo da criança e do tempo que ficaram afastadas.

A vida dos casais com filhos também precisa de um respiro. Como ter uma vida a dois neste momento?


Trazendo pequenos momentos de conexão dentro desse dia a dia. Mas isso tudo começa com a intenção, se os dois tiverem a intenção de tornar tudo mais leve, com certeza conseguirão.


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