• Cria Para o Mundo

"É um mundo que se abre"

Fabiana Agapito mora com o marido e os filhos, Alicia, de 9 anos, e Lucca, de 7 anos, em Solna, cidade vizinha a Estocolmo, na Suécia

Foto: Arquivo Pessoal

"Eu nasci em Itapetininga e, antes de mudar, morava há 15 anos em Sorocaba, interior de São Paulo. Moro em Estocolmo, na Suécia, há 2 anos. Viemos com os filhos, Alicia (9) e Lucca (6) depois que meu marido, que é engenheiro, recebeu uma proposta de trabalho. Na época, ela tinha 7 anos e ele, 4.


Meu marido trabalhou há uns anos na Inglaterra, durante 2 meses. Lá ele conheceu um empresário belga. Eles ficaram uns anos conversando, e o empresário convidou o meu marido para trabalhar como consultor. Ele tinha três opções: voltar para Liverpool, ir para a Bélgica, onde fica a sede da empresa, ou para a Suécia.


Eu já decidi de cara: Suécia. Acho que foi meio intuitivo. Liverpool a gente já conhecia, a Bélgica nunca esteve nos meus planos, e a Suécia sim. Eu pensei na educação, na qualidade de vida que teríamos, e queria morar em um lugar diferente, não queria que fosse um destino óbvio.


Em Sorocaba eu tinha meu consultório de psicologia organizado, tínhamos acabado de construir a casa dos nossos sonhos, mas mesmo assim quisemos mudar. Era um sonho dos dois, queríamos viver isso com as crianças ainda pequenas para a adaptação ser mais fácil, era uma boa oportunidade profissional para ele, além de ser para todos nós uma chance de viajar e conhecer uma cultura nova. E eu, como psicóloga, queria começar a atender online, não queria mais ficar presa no consultório.

Foto: Arquivo Pessoal

Da nossa turma de amigos, já tinha gente morando na Alemanha, gente na Inglaterra, nós também tínhamos morado em Liverpool, e eu sempre dizia a eles que queria morar em um lugar com neve. Eles sabiam do nosso sonho de morar fora do Brasil e acompanharam pessoas do nosso círculo saindo do país. A gente já ia mostrando tudo isso para prepará-los, para que entendessem que era algo normal na vida das pessoas.


Quando meu marido teve férias no trabalho, ficou um mês na Suécia para ver se era legal. Voltou super empolgado, e decidimos que nos mudaríamos.


Ele veio antes para organizar as coisas e eu fiquei no Brasil com meus filhos. Eles acompanharam todo o processo de desmontar a casa, vender as coisas, montar as malas, e participaram fazendo a malinha deles e separando os brinquedos preferidos. Conseguimos alugar nossa casa e ficamos uns 3 meses na minha mãe até sair o visto de residência.


Organizar a mudança, para mim, não foi complexo porque eu estava tão empolgada, era uma coisa que eu queria tanto! E todo mundo estava super feliz junto, porque era uma experiência para toda a família.

A dificuldade começou quando a gente chegou na Suécia. Aqui há um problema grave de moradias, não tem muita opção e não existe imobiliária. Você vê fotos pela internet, agenda uma visita ao imóvel e junto com você vão mais 10 pessoas interessadas. Os alugueis são caros, se você quer uma casa maior tem que morar longe de Estocolmo… E nós optamos por morar perto da cidade para não ficarmos isolados.

Foto: Arquivo Pessoal

Acho que a questão principal, quando você chega aqui, é encontrar um apartamento confortável. Os contratos são curtos, duram 1 ano. Os imóveis também têm algumas diferenças, por exemplo, a maioria não tem área de serviço e a máquina de lavar e secar fica no banheiro. Também tivemos que reorganizar a rotina da casa porque tínhamos ajuda no Brasil e aqui não temos, e vejo que para a maioria dos brasileiros isso é um problema, até porque essa reorganização envolve dividir as tarefas domésticas.


Até você definir onde vai morar e fazer o pedido de matrícula na escola demora um tempo. Tem que esperar sair o documento de residência para fazer o pedido na prefeitura, então nos primeiros três meses você fica em um limbo. É bem difícil. As crianças ficam fora da escola, você não conhece ninguém no lugar, por mais que a cidade tenha muito o que fazer você começa a se questionar… Eu percebo aqui, e nas mães que atendo, que esse é o momento de maior angústia.


Eu escrevi um livro contando todas as fases da adaptação das famílias que mudam de país. Tem a alegria inicial, mas depois de um mês você ainda não está com a casa arrumada, não sabe onde seus filhos vão estudar, eles sentem falta dos amigos e da escola, e isso começa a angustiar. Mas passa.

Depois vem a fase em que as crianças entram na escola. Eles começam empolgados, mas vem o choque cultural. Não entende a língua, o jeito que as pessoas se relacionam é diferente, eles passam um tempo sem conseguir conversar, ficam mais tristes, sentem saudade de casa, dos amigos da escola antiga… Acho que, especialmente quando a família muda de país para acompanhar a mudança de emprego do marido, a mulher e os filhos têm que recomeçar a vida e existem diferenças de adaptação. O homem deixa de pegar trânsito, ganha mais, e como está trabalhando, mantém a identidade dele. Eu já atendi uma família que o marido se sentia culpado, porque ele estava bem, mas a mulher e o filho estavam praticamente em quarentena, com uma sensação de isolamento muito grande.

Foto: Arquivo Pessoal

Acho que o primeiro a se adaptar, nesses casos, é o marido, que geralmente vai na frente e já está trabalhando. Depois os filhos, que vão para a escola. A adaptação da mulher fica por último. Ela pensa na reorganização da rotina, da casa, e aí é que vai pensar em si mesma. Eu tive certa facilidade porque posso trabalhar online, mas precisei de 3 meses aqui para me orientar, até começar. Também já dei palestras aqui, mas foi quase 1 ano depois de chegar. Sinto que fui a última a me adaptar.


A solidão é um dos principais perrengues. Você precisa organizar uma rede de apoio de novo.


Fora isso, você vai no mercado e compra os produtos errados porque não sabe ler os rótulos, navegar na burocracia local cansa, você não sabe como as coisas funcionam, não entende a diferença entre escola independente e escola da prefeitura, embora nenhuma das duas sejam pagas… Você gasta mais energia com coisas que, no Brasil, eram feitas no automático.


Então, quando você está nesse momento de descobrir tudo novo, seu emocional fica abalado, porque tudo te exige muito. E ainda tem que ajudar os filhos a socializar, a fazer novos amigos, porque ninguém quer viver numa ilha.


Acho que todo mundo acha que a expatriação é mais fácil do que realmente é. Para mim, ela é igual à maternidade: você idealiza uma coisa, mas no dia a dia tem problemas com roupa, com o frio, tem choque cultural, não entende como as pessoas se relacionam e descobre que o que é educado no Brasil pode ser uma ofensa em outros países.

Por outro lado, aqui tem qualidade de vida, a gente consegue viajar, a escola é incrível e eles já aprenderam sueco. Minha filha, que já estava alfabetizada, demorou 1 ano, e meu filho demorou 1 ano e meio. Mas o ciclo completo dessa adaptação dura 2 anos.


Aqui, as crianças frequentam a escola próxima de onde moram. Nós moramos em Solna, que é grudada em Estocolmo, então todos os amigos estão na região, eles marcam passeios de bicicleta, idas ao parquinho, e tudo acontece perto. É algo que, em uma cidade grande, não é tão comum.

Foto: Arquivo Pessoal

Eu não quero voltar para o Brasil, principalmente agora. São 2 anos para a família se adaptar, e voltar agora seria perder tudo que a gente construiu. Meus filhos estão prosperando na escola, têm amigos… No futuro, talvez a gente queira volta. Mas no momento estamos satisfeitos aqui.


Acho que essa vivência de navegar em um outro país, em outra cultura, proporciona crescimento pra gente como família. A gente fica mais unido, porque somos só nos quatro, e tem esses perrengues de adaptação e tem uma grande força que você tem que fazer para ter amigos. Acho que o brasileiro é mais simpático, mais aberto, e nos outros países o povo é mais fechado.


Acho, também, que morar fora faz a gente exercitar a superação dos desafios. Ir para o Brasil tem muitas horas de voo e escalas, exige atenção, cooperação. Encarar uma escola sueca, ficar lá o dia inteiro com pessoas que não falam a sua língua, também exige muito das crianças. A gente nunca ofereceria esse nível de superação no Brasil.


Hoje eles já falam sueco fluentemente, conhecem pessoas de diferentes contextos, conseguem viajar e aprender coisas, aqui é culturalmente muito mais rico, tudo na Escandinávia é projetado para a infância, então tem parquinhos incríveis, as escolas são muito na natureza, eles saem todo dia para florestas, ficam muito tempo fora, a vida é mais ativa, podem ir para a escola de bicicleta, a cidade não tem violência… Agora em agosto começa o 3º ano da minha filha e nessa fase as crianças começam a ir sozinhas para a escola, então as mães já estão treinando as crianças para isso.

Foto: Arquivo Pessoal

Eles podem criar uma independência que no Brasil a gente não podem ter. Além disso, o acesso à cultura, aqui, é mais fácil. No prédio da escola eles fazem aulas de artes e de flauta. E, ao mesmo tempo, é algo bem leve, só meia hora. Não é aquela coisa competitiva que massacra a criança. É sem estresse, sem pressão, e também não custa uma fortuna, não é como no Brasil em que tudo é muito caro.


Também percebo que aqui há mais igualdade. Na escola dela tem pessoas de todas as cores e nacionalidades, tem refugiados, tem uma professora que veio da Síria há 10 anos… Então estão vendo realidades que só conheceriam pelo jornal. Os suecos também ficam muito tempo ao ar livre, faça chuva ou faça sol, e acho que isso também cria uma resiliência nas crianças.


Eu me sinto mais realizada aqui. Era um sonho que se concretizou e eu me sinto muito privilegiada por poder viver isso e oferecer isso para os meus filhos. É um mundo que se abre. No começo fecha um pouco a vida social, mas o mundo se abre, e você faz coisas que não faria no seu país.


Eu escrevi um livro, estou atendendo online, vejo que minha vida profissional evoluiu muito, e a pessoal também. Então eu diria que sou mais feliz, sim."


Fabiana Agapito tem 42 anos, é psicóloga e mora em Solna, na Suécia, com o marido e os filhos, Alicia e Lucca.