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É tempo de empatia

Atualizado: Mar 24

Pandemia do novo coronavírus é o momento de abdicar do individualismo e se cuidar pelo outro. Apesar de tudo, podemos sair dessa mais empáticos


Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


De repente, tivemos que parar. Fechamos fronteiras, escolas, escritórios... Largamos as agendas atarefadas, o dia a dia de deslocamentos, as reuniões, os encontros... Trancamos os parques, esvaziamos as ruas e, numa atitude contrária à natureza social do ser humano, nos colocamos em isolamento.


A situação emergencial nos pede que fiquemos em casa. Se não por nós, jovens, saudáveis, então por quem tem a saúde mais vulnerável. O vírus que circula rapidamente pode chegar a idosos e a pessoas com baixa imunidade e problemas respiratórios através de nós. E os impactos desse contágio, além de graves, se tornam ainda mais problemáticos em um cenário de superlotação dos hospitais.


Por isso, temos que parar. Além de parar, temos que olhar o outro com mais gentileza e solidariedade, para que não nos desmotivemos a seguir em isolamento. Mas o senso de coletividade que o momento pede vai na contramão do que o Brasil tem vivido nos últimos tempos, em um contexto de polarização política e social.


"O momento de crise é a oportunidade para a mudança inadiável que precisamos ter. Toda crise, seja ela de idade, econômica, social, tem em si um propósito que, se antes impensado em nossas vidas, tornou-se inadiável. E tornou-se inadiável, no momento em que vivemos hoje, criarmos o senso de comunidade", comenta a psicóloga, especialista em arteterapia e cofundadora da Escola de Empatia de Belo Horizonte, Camila Marques.


Segundo ela, não é de hoje que pessoas estão morrendo pela negligência da necessidade de fazermos algo uns pelos outros e não somente por nós mesmos e por nossas bolhas. "É preciso esticar o pescoço e reconhecer o processo de interdependência em que vivemos", afirma.

Ou seja, as nossas ações estão interligadas. "Assim como o lixo que eu jogo 'para fora' continua a habitar esse mesmo planeta no qual coexisto, todas as nossas ações criam consequências danosas ou benéficas para esta mesma sociedade da qual faço parte, em que compartilhamos necessidades e valores humanos universais. Alimento, abrigo, amor, paz, liberdade... são todos valores que compartilhamos na teia da vida. A guerra em outro lado do mundo afeta a minha paz. A fome do outro lado da rua afeta a minha saciedade.

O que precisamos agora, diante da impotência, é resgatar o nosso poder, e diante do medo, resgatar a nossa coragem", afirma.


Ela diz haver três tipos de pessoas nesse processo de pandemia do coronavírus: aquelas com a perspectiva da saúde, que pensam e promovem medidas de prevenção do contágio, pensam no processo de tratamento e se preocupam com a superlotação dos hospitais; aquelas com a perspectiva da economia, que estão preocupadas com as consequências econômicas da reclusão e paralisação, que com certeza são diversas; e tem as pessoas com a perspectiva individual.


"Esse me parece um ponto de vista mais problemático. Quem está olhando para essa crise sob um ponto de vista individual pode ser negligente com questões e orientações que são comunitárias", alerta. Embora existam pessoas que simplesmente não querem "olhar para o outro", Camila diz ver uma grande parcela que está pensando no outro e se cuidando pelo outro.


"Isto é maravilhoso, pois é um pensamento determinante para a nossa existência na Terra. É inadiável que possamos pensar em como podemos nos cuidar, cuidar da nossa vida e das pessoas próximas de nós, de modo que possamos preservar não somente a própria saúde e bem estar, mas também de toda a humanidade. De que modo as minhas ações podem possibilitar uma vida boa, que talvez nem seja colhida pelas gerações que estão aqui, mas pelas gerações que virão?"

Para Camila, se pudermos aprender com o coronavírus e construir fortemente o senso de comunidade e colaboração,"não iremos somente passar por esta crise mais fortes, como também poderemos diminuir tantas mortes pela dengue, tantos contágios por doenças infecciosas que podem parecer inofensivas para uns, mas letais para outros; ou até mesmo infecções mais complexas como o HIV."


Pontes de compreensão e não muros de polarização


Quando pensamos nas lições que essa pandemia traz, a empatia é a mais citada. Mas o que ela realmente significa? Camila explica que a empatia está ligada à camada cerebral chamada neocórtex, que nos possibilita utilizar a cognição e a compreensão. "Esse é um mecanismo mais lento. Porém, somente com ele sou capaz de processar de maneira respeitosa pensamentos diferentes dos meus. Sou capaz então de ter como foco de atenção uma história que não é minha, compreender um ponto de vista diferente e não simplesmente colocar o meu pé no sapato do outro", diz.


Ela resume que a empatia é uma uma habilidade ligada à capacidade de cognição, em que "tenho as condutas de atenção focada no outro (não em mim), escuta atenta e verbalização, que é quando eu checo com o outro se o que eu escutei foi o que ele realmente disse". Ela cita o psicólogo Carl Rogers, criador da Abordagem Centrada na Pessoa, que chama isso de resposta compreensiva.


"A empatia precisa ser um processo ativo e investigativo. Por isso, após escutar a história do outro, eu digo 'olha, escutei você me dizer isso, isso e isso. Foi isso mesmo que quis me dizer?'. E assim vamos criando pontes que nos unem respeitosamente, mesmo diante de perspectivas diferentes. Este é, para mim, o grande benefício da empatia: criar pontes de compreensão respeitosa e não muros de polarização", afirma Camila.


Ela se diz esperançosa e crente de que sairemos dessa pandemia melhores do que entramos, principalmente porque passamos a perceber a importância da empatia e a reconhecer que ela é provável entre nós. "Com um salto quântico, de improvável vamos para o inevitável. Não há outra saída, nós precisamos desenvolver em nós a habilidade de empatia, precisamos conversar com mais respeito, precisamos aprender algo com essas nossas diferenças. A polarização não cabe mais".

Para a psicóloga clínica Cristina Veríssimo, mudar é possível porque empatia é algo adquirido e exercitado. É perfeitamente viável aprender a ser mais empático. "A empatia é uma construção ligada ao modo de se relacionar que pode ser aprendida ao longo da vida, mesmo por alguém pouco empático. Isso porque a partir das diversas experiências vividas, captamos uma série de questões que nos trazem mudanças psíquicas significativas, criando possibilidades novas na maneira de sentir. A empatia pode ser uma dessas mudanças", explica.


Empatia em momentos de estresse


Mesmo com a urgência em pensar no outro para conter a proliferação de um vírus potencialmente letal, ver-se obrigado a permanecer em isolamento por tempo indeterminado é profundamente angustiante para muitas pessoas. Portanto, é preciso levar em conta todo o cenário antes de abraçar a expectativa de que vamos todos estar transformados em versões melhores de nós mesmos quando pudermos nos reencontrar.


"Vivemos hoje uma situação completamente nova de tensão, que é uma pandemia que acarretou isolamento social. Precisamos nos isolar da nossa vida lá fora, das amizades, de familiares, do trabalho. Tudo isso gera estresse e cada pessoa pode reagir de uma forma. Algumas ficam deprimidas, outras ansiosas, outras somatizam. Todas as pessoas estão sob esse estresse ao mesmo tempo, o que pode potencializá-lo, apesar da forma diversa de vivê-lo", pontua Cristina.

A psicóloga lembra que questões econômicas podem tornar o momento ainda mais conturbado. "Quem trabalha de forma autônoma pode ficar sem sua renda ou grande parte dela, já pessoas que trabalham em empresas, por exemplo, podem não ser liberadas do trabalho, perdendo o direito de permanecer em isolamento".


Por isso, a empatia e a solidariedade são necessárias para o combate à pandemia, mas pode não ser emocionalmente saudável se pressionar a concluir a quarentena com vontade de abraçar o mundo, se esse desejo não fluir naturalmente. Afinal, as individualidades precisam ser respeitadas. "Algumas pessoas estão gostando muito de ficar em casa, mas não vão muito além disso. Outras estão em negação. O confinamento em si gera sofrimento psíquico. Portanto, cada pessoa está vivendo essa situação a partir da sua individualidade e sairá dela de uma maneira também individual", explica a psicóloga. "Por outro lado, é possível sim pensar em um cenário onde criaremos uma rede de solidariedade, o que acarreta o fortalecimento das relações, maior conexão, sentimento de pertencimento, ou seja, empatia".


Saúde mental em tempos difíceis


Conforme o isolamento se estende, é possível que o estresse desencadeado por essa situação se torne mais evidente. Aí, se torna fundamental que encontremos meios de nos ajudarmos, ainda que à distância.


Na Itália, vizinhos cantam e tocam música nas janelas. Em algumas vizinhanças, moradores se encontram, cada um em sua varanda, para fazer exercícios físicos. Na Espanha, mal a quarentena começou e cidadãos já combinaram dia e horário para ovacionar os corajosos profissionais de saúde que trabalham na linha de frente do combate ao novo coronavírus.


Por aqui, estamos há poucos dias isolados e já pipocam nas redes sociais ideias para fortalecer os microempreendedores, amparar vizinhos idosos e amenizar a solidão. Teve gente que espalhou bilhetes pelo prédio se oferecendo para fazer compras para quem tem a saúde fragilizada. Contadores de histórias estão fazendo transmissões ao vivo para distrair a criançada. Personal trainers também estão apostando nas lives das redes sociais para ajudar todo mundo a se alongar, aplacar dores físicas e liberar um pouco de serotonina. Assim, cada um contribui como pode com a saúde psíquica do outro e com a própria também.


"Exercer cidadania, tentar ajudar outras pessoas, ter contato afetivo, mesmo que virtual, ouvir quando alguém precisa falar, ou seja, formar uma rede de solidariedade nesse momento pode ser a melhor forma de empatia e de auxílio", aconselha Cristina.

E se a vontade de se deixar tomar pelo espírito coletivo não bater tão forte, tudo bem, também. Ouvir os próprios incômodos também é um movimento para sair fortalecido da situação. "É importante acolher nossas dores. Estar triste e insatisfeito é legítimo e, especialmente, num contexto tão estressor, é natural. Focar em criar um saber diante disso e fazer o melhor perante o que causa dor e sofrimento seria um movimento saudável", explica a psicóloga.