• Cria Para o Mundo

"É preciso deixar ir 'a mulher de antes'"

Atualizado: Mar 12

Lua Barros, uma das vozes mais ouvidas na maternidade do século 21, é a primeira entrevistada da série A Mulher Por Trás da Mãe, em homenagem ao mês da mulher

Lua é mãe de 4 crianças, educadora parental e especialista em equilíbrio emocional (Foto/Divulgação)

Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


Ela defende que na vida é preciso perceber os processos muito mais do que os pontos de chegada. Que mudar a rota no meio da caminhada pode ser uma alavanca potente e transformadora para quem ousar. Transformações são, inclusive, pontos de partidas para ela, que enxerga no maternar uma das formas mais ricas de autoconhecimento.


Quem navega no mar da maternidade sabe o quanto tudo isso faz sentido. É por isso que Lua Barros é hoje uma das vozes mais ouvidas por mães e pais que esperam leveza e simplicidade na criação de filhos. Lua é mãe de 4 crianças, educadora parental, especialista em equilíbrio emocional e uma mulher que recalculou as rotas várias vezes até conhecer a sua melhor versão. É uma admiradora de caminhos que busca responder às questões que envolvem o ser mãe e o maternar sem fórmulas, receitas ou julgamentos.


Por tudo isso que representa para a maternidade do século 21, Lua é a nossa primeira entrevistada da série A Mulher Por Trás da Mãe, divulgada ao longo deste mês de março em comemoração ao Dia Internacional da Mulher.

Lua é  facilitadora de diálogos familiares e utiliza o pensamento da Parentalidade Positiva para mostrar que é possível exercer um novo jeito de se relacionar com as crianças, baseado em respeito, amor e margem. E fala também sobre o ser mãe e mulher. No seu podcast Dilemas, que faz ao lado do marido Pedro Fonseca, Lua é escuta ativa e acolhimento. Na Rede Amparo, fundada por ela, oferece cursos, palestras e workshops que, abordando diferentes assuntos, têm a mesma finalidade: promover e disseminar acolhimento e afeto.


Nesta entrevista ao Cria Para o Mundo, ela provoca uma reflexão sobre a forma como enxergamos a mulher que fomos e a que nos tornamos depois da chegada dos filhos. Convoca as mulheres a encararem, de peito aberto, as transformações que acontecem. E diz que as mães de meninos têm a chance de entregar para o mundo pessoas com uma visão de mundo diferente, "que vão poder, daqui a alguns anos, abrir espaço dentro de seus privilégios naturais para que as mulheres estejam onde elas merecem estar."


Passado o momento de total fusão entre mãe e bebê, bate a saudade de ser dona de si, do próprio corpo, do próprio tempo, nem que seja nas poucas horas livres. Mas aí parece que tudo se perdeu: não somos mais aquela mulher de antes do nascimento do filho, os interesses de antes não nos satisfazem mais. Como se reconectar com a mulher que somos? Como conhecer de novo essa mulher?

Lua Barros: Antes dos filhos, não temos a dimensão da ciclicidade da vida. Acreditamos que tudo é muito linear e que está sob nosso controle. Então, esse processo de reencontro ou reconexão vem acompanhando desse peso, desse luto pela vida que não é mais como era antes. E na verdade é preciso encarar essa mudança de peito aberto antes de querer se resgatar.

Acolher as transformações é um bom primeiro passo. Depois tem um processo de adultecer, de desenhar essa nova mulher, mas estamos apegadas a essa "mulher de antes". É preciso deixar ir e pensar que temos uma oportunidade de descobrir coisas novas a nosso respeito, e isso é muito potente. Hoje vejo que o caminho para essa busca começa com o sentir: não brigar com o que está se passando internamente, acolher a dor, o luto, a sensação de perda de si. Depois, arregaçar as mangas: terapia, grupos, mentorias… Coisas práticas que te ajudem a pintar essa nova tela da sua vida, que não está em branco, mas que está um tanto apagadinha. A mulher por trás da mãe também costuma ser ignorada socialmente e, às vezes, no relacionamento a dois. A gente sabe que a raiz disso está no machismo. Como fazer com que a mulher que somos seja vista e reconhecida? E que importância esse reconhecimento tem?

Lua Barros: Ativamos potências desconhecidas quando nos tornamos mães (seja do jeito que for!) e essa potência é assustadora tanto para homens, quanto para mulheres. Não fomos ensinadas a nos reconhecer fortes ou capazes. Mesmo nos lares onde as mulheres eram as matriarcas, elas abriam espaço para os homens brilharem e isso acontece até hoje. Então, a grande questão é a gente se ver, a gente se reconhecer.

Se eu me sinto forte e se eu me vejo, essa necessidade de ser reconhecida pelo parceiro, pela mãe, pelos filhos diminui e as relações ficam mais leves. Temos que dar o primeiro passo para dentro e ser capaz de ver a nossa luz. Depois isso ressoa.

(Reprodução Instagram)

A nossa geração (ao menos parte dela) tenta romper com padrões impostos e conciliar diferentes desejos: ver os filhos crescendo bem de perto, ter uma carreira e independência financeira, ter prazeres e individualidade. Mas como fazer essa conta fechar?

Lua Barros: Essa conta nunca fecha e o grande erro é propagarmos que é possível ocupar todos esses lugares da mesma forma. Se quisermos investir em nossas carreiras, vamos ter que investir tempo, tempo esse que vai faltar para os filhos e, assim, sucessivamente. E tudo bem! Se nos acolhemos e vivemos mais livres de julgamento, ajudamos outras mulheres a sustentarem essas decisões, que são todas legítimas.

Acolher que não preciso dar conta de todos esses papéis foi fundamental para que eu conseguisse fazer escolhas mais conscientes sobre meu trabalho, sobre meus filhos, sobre meu casamento.


Fala-se muito sobre autocuidado, mas, às vezes, o termo é usado para se referir a cuidados estéticos que são, em muitos casos, para o outro. O que é autocuidado para você? Por que é importante?

Lua Barros: Autocuidado é consciência. E ela custa caro. Custa caro porque quando abrimos espaço para nós, movemos estruturas difíceis. Mexemos no casamento, na relação com a mãe, com a sogra, no trabalho. Encarar tudo isso é reconhecer que a gente importa. Pode-se começar com o tempo para fazer as unhas, mas isso não muda as angústias internas que a falta de diálogo produz. Conseguir se ver e se olhar é difícil na mesma medida que é fundamental, porque sem isso a gente se esvazia e passa viver uma vida funcional, na qual comandamos tudo, organizamos tudo, mas não sentimos nada. Nos anestesiamos e isso tem um preço também. É uma escolha no final das contas.


Estamos às vésperas do Dia Internacional da Mulher, que é uma data essencialmente feminista e de luta. O que a vivência da mulher mãe pode trazer para o debate feminista? Como nós, que pela sociedade somos confinadas ao espaço privado, podemos contribuir ativamente com o movimento?

Lua Barros: Como mães e em estruturas heteronormativas, temos a chance de abrir diálogo com os homens para que eles sejam nosso suporte nesse processo, porque eu não acredito em lutas que travamos em grupos fechados. Os homens precisam ser convocados de forma não bélica a entender nosso lugar de opressão.

E por fim, quando somos mães de meninos, temos a real chance de entregar para o mundo pessoas com uma visão de mundo diferente, que vão poder, daqui a alguns anos, abrir espaço dentro de seus privilégios naturais para que as mulheres estejam onde elas merecem estar.

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