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"É assustadora a possibilidade de não voltar para casa"

Atualizado: Abr 9

Leia a entrevista da cardiologista Carla Bomtempo, que é mãe de duas crianças pequenas e está na linha de frente do combate ao novo coronavírus em Belo Horizonte


Por Luciane Evans


Todos dos dias, ao sair de casa, a cardiologista e intensivista Carla Franco Bomtempo de Morais, de 33 anos, abraça os dois filhos, uma menina de 2 anos e um menino de 1, e diz a eles: " Estou indo para o hospital ajudar as pessoas que estão doentes. A mamãe é feliz assim e voltará para cuidar de vocês também ", promete, ainda que saiba que essa promessa corre o grande risco de não ser cumprida.


A médica está na linha de frente no combate ao novo coronavírus em Belo Horizonte. Atua no setor de pronto atendimento, internação hospitalar e CTI do Hospital Biocor, e é também intensivista do Hospital Metropolitano Dr. Célio de Castro.

Nesta entrevista, ela conta que, como mãe, tem medo de ser contaminada e não voltar para casa. Como médica e apaixonada pela profissão, ela teme pela falta de profissionais nos hospitais para dar conta da alta demanda de casos uma situação possível para as próximas semanas.


Em todo o Brasil, já são mais de 16 mil casos de coronavírus no país, com 819 mortes pelo Covid-19. Em Minas Gerais, são 614 casos confirmados e 14 pessoas já perderam vida por causa do vírus. Autoridades de saúde alertam que os próximos dias serão difíceis.


Considerados os heróis de uma guerra contra um inimigo invisível, os profissionais da saúde temem pela própria vida e também pelo colapso dos serviços de saúde. Para muitos, vivenciamos hoje um cenário de guerra, em que toda a sociedade é, inevitavelmente, afetada – se não pelo vírus, pelas medidas tomadas para prevenir sua disseminação em larga escala.


Mesmo armados com jalecos, máscaras e luvas, esses profissionais também estão adoecendo. Já há casos de médicos e outros funcionários de hospitais infectados. Oito enfermeiros morreram contaminados no país, de acordo com Conselho Federal de Enfermagem. "Fiquem em casa, aproximem os elos familiares e acreditem que saímos de casa apenas com a missão de preservar a vida", reforça Carla.


Leia a entrevista completa.


Como tem explicado esse momento para os seus filhos?


Tenho uma menina de 2 anos e 7 meses e um menino de 1 ano. Quando vou para o trabalho, sempre explico que estou indo para o hospital ajudar os doentes e que sou feliz fazendo isso. Digo que eu vou mas que voltarei para cuidar deles também, e que hoje tem um bichinho no ar e que, por isso, precisamos ficar em casa, não podemos sair para encontrar os amigos e precisamos lavar sempre as mãos.

O que é mais assustador nesta pandemia?


Amo a medicina e, desde os meus 15 anos, ela faz parte de mim. É parte essencial da minha personalidade. Nesta pandemia, é assustadora a possibilidade de não voltar para casa, ter algum sintoma e precisar me isolar dos meus filhos. Isso dói na alma, jamais pensei nessa possibilidade. Eles muito provavelmente ficarão bem e serão assistidos.


E eu ? Quem ficará comigo? Quem me ajudará a cuidar do meu físico e psíquico? Tenho uma família maravilhosa, mas neste caso precisarei me isolar inclusive deles.

Tenho muita fé. Todos os dias acordo e sou grata pela missão a mim confiada, mas trabalho com a possibilidade alta de ser infectada e isso também precisa ser pensado. Só rezo para caso isso aconteça, seja leve e rápido.

O que você tem visto nessa linha de frente da pandemia ?


Tenho visto profissionais altamente capacitados, focados, preocupados com a saúde uns dos outros e pensando: será que teremos colegas suficientes para nos substituir?



A população não pode ficar desassistida, a falta de recurso humano é a pior tragédia que poderá acontecer. Uma avalanche de informação diária que precisa ser lida, estudada, analisada para podermos colocar em prática.

Tenho visto pacientes preocupados, cuidadosos e sedentos por uma reposta. Mas atualmente o que mais me dói é ver, sentir e assistir a pacientes internados no CTI, completamente fragilizados, sem poder receber visitas dos seus entes queridos.

Uma doença altamente contagiosa precisa de cuidados extremos. Estou vendo enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapia, nutricionista, psicóloga, fonoudiologa, farmacêuticos, seguranças, pessoal da limpeza, recepcionistas e todos que trabalham diariamente no serviço de saúde, solícitos e cuidando do bem maior para nós: a vida dos nossos pacientes e colaboradores!

Quais são os seus cuidados para se proteger?

Essa também tem sido uma tarefa difícil. Saio de casa com roupa, chinelo para andar até o carro, sem nenhum acessório, coque no cabelo, álcool gel na mão e a bolsa com tudo que preciso já fica no porta-malas . Desço do carro com sapato específico e dentro do hospital coloco roupa privativa: macacão que cobre todo o corpo, touca no cabelo, sapatilha específica no pé e uma máscara que protege mais (estilo capacete). Uso máscara 100% do tempo.


No término do plantão, volto para casa e coloco toda a minha roupa para lavar, tomo um banho, limpo chave do carro e celular. No hospital meu celular fica sempre dentro de um saco plástico.


Qual recado você dá para os pais neste momento ?


Tenham fé, sejam empáticos, aproveitem para explicar para seus filhos valores como resiliência, solidariedade e compaixão. Sigam as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), acreditem na medicina e suas recomendações, não somos donos da verdade e existem mudanças que se fazem necessárias a todo momento. E isso não pode gerar insegurança em vocês.


Para tudo que é novo precisamos de estudos para validarmos nossas atitudes. Estejam confiantes em nós e acima de tudo tenham Deus em seus corações para que consigam passar por essa difícil pandemia de forma serena e em paz.


Fiquem em casa, aproximem os elos familiares e acreditem que saímos de casa apenas com a missão de preservar a vida. Contem conosco.

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