• Cria Para o Mundo

"É antiético tratar bem os filhos para obter um resultado"

Atualizado: 13 de Nov de 2019

Pediatra Carlos González, em entrevista ao Cria Para o Mundo, diz que pais devem cuidar dos filhos por amor, sem esperar nada em troca. No dia 12, estará pela primeira vez em BH



Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


As respostas são simples, sem soluções mágicas ou divagações. Não espere dicas. Sente-se, respire e reveja os seus conceitos. Prepare-se para quebrar tabus, ouvir os seus instintos e descomplicar a criação dos filhos.  Esqueça a teoria, os livros, o curso. É assim que Carlos González, o pediatra espanhol mais famoso desta geração, precisa ser lido e ouvido.  


O homem, de olhar calmo, sorriso tímido e uma fala objetiva, que às vezes beira a ironia, joga fora os padrões rígidos e imposições que rodeiam a parentalidade. Busca o caminho do óbvio, que de tão simples parece ser para outras realidades e não para as nossas. Talvez por isso, seja polêmico. 


Conquistou fama mundial ao seguir na contramão de muitos colegas de profissão que defendem treinamento para o sono, passo a passo de alimentação e uma infância cheia de regras e "não podes". Com ele, o caminho é oposto: muito colo, muito peito, muito afeto e, acima de tudo, o respeito pela essência e individualidade de cada criança.


A leveza e simplicidade com que o pediatra aborda questões que costumam deixar mães e pais de cabelo em pé faz de González um dos gurus desta geração. O espanhol tem 9 livros publicados e traduzidos para 12 idiomas, todos eles incentivando práticas como cama compartilhada, introdução alimentar pelo método BLW, amamentação em livre demanda e todo o colo, aconchego e carinho que for possível na relação entre pais e filhos, sem medo de deixar os pequenos mimados ou mal acostumados. 


Prestes a chegar ao Brasil para uma série de palestras e encontros com pais e pediatras, González estará pela primeira vez em Belo Horizonte. No dia 12 de novembro,  na sede da Associação Médica de Minas Gerais, fará palestras sobre as necessidades afetivas da crianças e a alimentação infantil. Os detalhes sobre o evento e a venda de ingressos podem ser encontrados no Instagram do Encontrinho Materno.

Carlos González, um pai de três que garante ter aprendido com os filhos a educar, conversou com o Cria Para o Mundo sobre recusa alimentar, divisão de tarefas, disciplina e afeto. E conduziu cada tema com a naturalidade descomplicada que faz dele uma referência para pais e mães de todo o mundo que desejam criar os filhos da maneira mais desmistificada possível. 




Veja a entrevista: 


Um dos grandes medos dos pais é de que seus filhos não sejam “aceitos”, se tornem crianças inconvenientes e chatas. Muitos, por isso, temem a palavra “mimar”. O que seria mimar para o senhor?


Carlos González: Amamos nossos filhos, nós os abraçamos, os confortamos quando choram, cuidamos deles e os protegemos, os lavamos e os alimentamos, os tratamos com amor e respeito, os ouvimos, contamos histórias para eles. Não gritamos com eles, insultamos, ridicularizamos, humilhamos ou batemos neles. Se tudo isso é mimo, então mimar é bom.


Como achar o equilíbrio (se ele existe) entre não ser pais que deixam seus filhos fazer de tudo nem aqueles que os proíbem de tudo?


Carlos González: Bem, muito simples: você os deixa fazer o que se pode permitir, você proíbe o que se deve proibir. Você não permite que seu filho queime a casa, ou bata em outra criança, ou beba álcool. Você dá seu amor, seus braços, sua atenção.


O senhor defende que a criança fique com os pais até os 3 anos, indo para a creche só depois disso. Como seria possível isso na realidade brasileira, em que há muitos pais e mães solo que precisam trabalhar, e tantas outras famílias que não têm com quem deixar as crianças, tampouco pagar uma babá?


Carlos González: Eu defendo que os pais cuidem de seus filhos como bem entenderem. Você acha que seu filho fica melhor na creche e está feliz colocando-o lá? Bem, faça isso. Mas se seu filho chora e você também, então você vai ter que mudar alguma coisa. Trabalhamos para cuidar de nossos filhos. Se o trabalho nos impede de cuidar de nossos filhos como julgamos apropriado, algo está funcionando muito mal.


Como deve ser o equilíbrio entre trabalho, divisão de tarefas no lar e criação de filhos?


Carlos González: Cada família decide como dividir as tarefas. Às vezes, um dos pais trabalha fora para que o outro possa ficar com os filhos. Outras vezes, ambos trabalham fora e distribuem as tarefas domésticas. O que não pode ser é que os dois trabalhem fora, e não façam nada em casa. Fomos enganados para acreditar serem necessárias 16 horas de trabalho fora de casa para criar um ou dois filhos, quando nossos avós criaram três ou cinco filhos trabalhando 8 horas.


Durante as famigeradas birras, a paciência dos pais é sempre colocada à prova e colo, amor e carinho parecem não surtir efeitos. Qual a receita para os pais não perderem o controle?


Carlos González: Meu pai me disse: "Antes de dizer bobagem, conte até dez. E então, não diga". O mesmo vale para as birras. Devemos nos esforçar para não perder o controle. E você precisa entender que, se mesmo um adulto perde o controle às vezes, como uma criança poderia não perdê-lo?


Por que a criação de filhos parece ser tão difícil para a nova geração de pais? Como é possível ser mais leve?


Carlos González: Não sei. Talvez isso seja influenciado pela maneira como os próprios pais foram criados. Não fui à escola até os cinco anos de idade. Não achei difícil criar meus filhos. Meus pais, meus avós, meus bisavós, não precisavam de livros ou especialistas para criar seus filhos. Eles simplesmente vivenciaram a criação.


Amor, colo, carinho, cama compartilhada, respeito, escuta. Isso nos garante que nossos filhos serão adultos melhores amanhã?


Carlos González: Claro que não. Ninguém conhece o futuro. Ninguém pode garantir como serão nossos filhos. Além disso, acho que seria antiético tratar bem nossos filhos com a intenção de obter um resultado. Meus filhos não precisam me pagar pelos meus cuidados. Eu cuido deles por amor, não espero nada em troca. Não sei se amar meus filhos os tornará adultos melhores (embora suponha que ajude um pouco). O que sei é que sou um adulto melhor porque amo meus filhos.


A orientação mais comum que recebemos sobre introdução alimentar é apresentar frutas, legumes e outros alimentos, na colher e amassados, e fazer com que comece a almoçar e jantar, comendo frutas entre as refeições. O senhor considera esse o método mais recomendado de introdução alimentar?


Carlos González: É melhor colocar diante deles os mesmos alimentos que comemos, e deixá-los fazer o que quiserem com eles. É claro que esses alimentos precisam estar cortados no tamanho certo, sem espinhos ou partes duras.


O que fazer quando uma criança pequena, que vinha comendo de tudo ao longo da introdução alimentar, começa a recusar grupos de alimentos e a aceitar somente 3 ou 4? Há um limite saudável para a recusa alimentar?


Carlos González: Parabéns, isso mostra que seu filho está amadurecendo. Os bebês colocam tudo na boca, e  depois de um ano rejeitam as coisas. Não há o que fazer. Não insista, não force, não prometa prêmios, não mude alimentos saudáveis ​​por porcaria "para que pelo menos ele coma alguma coisa". Alguns dias ele vai comer mais, outros menos. Deixe a criança em paz.


Grande parte dos médicos brasileiros (a maioria) recomenda a amamentação de três em três horas. Por que não devemos seguir isso?


Carlos González: Sério? Certamente há alguma recomendação oficial da Sociedade Brasileira de Pediatria, dizendo que a amamentação deve ser em livre demanda.